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O Princípio Antrópico (*)

 

De como a crença em Deus hoje pode não ser do âmbito  apenas da fé, mas de evidências científicas estabelecidas.

 

No outono de 1973, os astrônomos e físicos mais eminentes do mundo se reuniram na Polônia para a comemoração do 500º aniversário do pai da astronomia moderna, Nicolau Copérnico.

 

Agrupados para a série de simpósios que durariam duas semanas encontravam-se algumas das mais ilustres mentes científicas de nosso tempo: Stephen W. Hawking, Roger Penrose, Robert Wagoner, Joseph Silk, John Wheeler, só para citar alguns. O clima era festivo, mas apesar das inúmeras palestras apresentadas durante as festividades, somente uma seria lembrada décadas depois, ecoando muito além do salão de convenções em Cracóvia, onde foi pronunciada, por ter ido muito além do campo da astronomia ou mesmo da própria ciência.  Seu autor, Brandon Carter, um astrofísico e cosmólogo bem estabelecido na Universidade de Cambridge, amigo íntimo e antigo estudante de doutoramento e companheiro do posteriormente famoso Stephen Hawking.

 

Carter denominou sua noção de “Princípio Antrópico”, do grego anthropos, “homem”. O nome era um pouco desconcertante, e a definição de Carter sobre a ideia apresentou-se altamente técnica. Basicamente, o Princípio Antrópico traz à observação que um sem número de leis físicas foram orquestradas ordenadamente desde o início propriamente dito do universo até a criação do homem  - o universo que habitamos aparenta ser explicitamente planejado para o surgimento da vida e dos seres humanos.

 

Durante séculos, a exploração científica parecia levar-nos para baixo, precisamente na estrada oposta – em direção a um panorama mecanicista impessoal e aleatório sobre o Cosmos. Os intelectuais do século XX haviam falado com frequência sobre o “universo aleatório”. O ponto de vista predominante dos filósofos e intelectuais modernos dizia que a vida humana havia surgido, em essência, por acidente; um produto secundário de forças materiais revolvendo aleatoriamente durante éons. Esta conclusão, aparentemente seguia de maneira natural as duas grandes revoluções científicas da era moderna, a de Copérnico e a de Darwin.

 

O monge Nicolau Copérnico, com seu modelo heliocêntrico do sistema planetário, mostrou que a humanidade não era, de forma alguma, o centro do universo. “Antes da revolução de Copérnico, era natural admitir que os propósitos de Deus relacionavam-se especialmente com a Terra, mas, agora, esta se tornou uma hipótese não plausível”, escrevia o cientista ateu Bertrand Russel em seu clássico de 1935, “Religion and Science”. Além do mais, Darwin havia demonstrado que as origens da vida e mesmo da espécie humana poderiam ser explicadas por mecanismos cegos. Na esteira de Copérnico e Darwin, não mais parecia plausível considerar o universo como criado, ou a humanidade como criatura de Deus. O homem deveria, em lugar disso, ser entendido como algum tipo de acidente infeliz ou assunto secundário dentro do universo material  - “um curioso acidente na água estagnada”. Foi essa cosmologia do universo aleatório que sustentou todas as modernas filosofias – desde o próprio positivismo de Russel até o existencialismo, marxismo e mesmo o freudianismo.

 

Mas, o inesperado aconteceu e, ironicamente, quando se comemorava o 500º aniversário de Copérnico, o inspirador de Galileu Galileu, o pai da moderna ciência.  O Princípio Antrópico oferecia um tipo de explicação para um dos mistérios mais básicos da física – os valores das constantes fundamentais. Os físicos jamais puderam explicar por que os valores das assim denominadas constantes fundamentais – como, por exemplo, os valores da força gravitacional ou da força eletromagnética eram da maneira como eram. Eram apenas “constantes”; tinham de ser aceitas. Além do mais, existiam determinadas relações matemáticas misteriosas entre algumas dessas constantes. Por exemplo, as forças que uniam determinadas partículas aparentavam estar relacionadas matematicamente ao número da idade do universo. Por que essas forças deveriam estar relacionadas à idade do universo? No passado, físicos como Sir Arthur Eddington e Paul Dirac apresentaram teorias um tanto exóticas para explicar tais coincidências. Tomemos exemplos:

 

- A gravidade é cerca de 10 elevado à potência de 39 vezes mais fraca que a força eletromagnética. Se a gravidade fosse 10 elevado a 33 vezes mais fraca, as estrelas teriam um bilhão de vezes menos massa e queimariam um milhão de vezes mais rápido, quer dizer, o universo teria se esgotado no seu início.

 

- A energia nuclear fraca tem 10 elevado à potência de 28 a força da gravidade. Se a energia nuclear fraca fosse ligeiramente mais fraca, todo o hidrogênio do universo teria se transformado em hélio, impossibilitando a existência da molécula da água.

 

- Uma energia nuclear apenas 2% mais forte teria impedido a formação de prótons, produzindo um universo sem átomos. Decrescendo seu valor em 5%, teríamos um universo sem estrelas.

 

- Se a diferença em massa entre um próton e um nêutron não fosse exatamente o que é – cerca de duas vezes a massa de um elétron – todos os nêutrons se transformariam em prótons ou vice-versa. E diríamos adeus à química como a conhecemos, e á vida.

 

- A água é a única molécula que é mais leve no estado sólido (gelo) do que no líquido: o gelo flutua. Se isso não acontecesse, os oceanos, lagos e rios congelariam de baixo para cima no inverno e a Terra agora estaria coberta de gelo sólido. Por sua vez, esta propriedade pode ser atribuída às propriedades exclusivíssimas do átomo de hidrogênio.

 

- A síntese do carbono – a base química da vida, o núcleo vital de todas moléculas orgânicas – envolve aquilo que os cientistas denominam de uma estarrecedora coincidência na proporção da energia forte (strong force) para o eletromagnetismo. Esta proporção permite ao carbono 12 atingir um estado estimulado de exatidão da ordem de 7,65 Me V (milhões de eletron-volts) na temperatura típica do centro das estrelas, o que cria uma ressonância que envolve o Hélio 4, o Berilo 8 e o Carbono 12, possibilitando a ligação necessária que ocorre  durante uma janela diminuta de oportunidade que dura 10 elevado à potência de menos 17 segundos – é mesmo estarrecedor.

 

Mas, não é só isso, a lista prossegue e uma compilação abrangente dessas coincidências pode ser encontrada no livro “Universes” de John Leslie.

 

O físico Fred Hoyle, que cunhou ironicamente o famoso termo “big bang” para o início do universo captou bem o dilema; ele afirmou: “é muito mais fácil um furacão passar por cima de um ferro velho e montar um Boeing 707 do que o universo ter sido montado por mero acaso”.

 

(*) Princípio antrópico:

O princípio antrópico divide-se em princípio antrópico forte e princípio antrópico fraco. O princípio antrópico forte afirma, em geral, que o Universo comportou-se de forma a adaptar-se ao Homem. O fraco diz que o Universo comportou-se de forma a surgir o homem, sem esse pleito pré-definido.

"A natureza é primorosamente ajustada para a possibilidade de vida no planeta Terra: se a força gravitacional fosse reduzida ou aumentada em 1%, o Universo não se formaria; por uma minúscula alteração na força eletromagnética, as moléculas orgânicas não se uniriam. Nas palavras do físico Freeman Dyson, parece que o 'Universo sabia que estávamos chegando'. O Universo não se assemelha a um lance de dados aleatório. Parece pura e simplesmente proposital (Phillip Yancey, Rumores de Outro Mundo, Ed. Vida.)

 

 

Fontes: livros “Ciência e Fé em Harmonia” de Felipe Aquino e “Deus, a evidência” de Patrick Glynn.


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