Católicos Online - - - - AVISOS -


...

Pergunte!

e responderemos


Veja como divulgar ou embutir artigos, vídeos e áudios em seu site ou blog.




Sua opinião é importante!









Sites Católicos
Dom Estêvão
Propósitos

RSS Artigos
RSS Links



FeedReader



Download







Cursos do Pe Paulo Ricardo


Newsletter
Pergunte!
Fale conosco
Pedido


PESQUISAR palavras
 

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 024 – dezembro 1959

 

A Prática do Bem precisa de Religião?

DOGMÁTICA

OBSERVADOR (Rio de Janeiro):Não sinto necessidade de Religião para ser um homem bom, cumpridor de meus deveres! Para que então abraçar uma Religião ?

DE BOA VONTADE (Rio de Janeiro):Deixemos de discutir proposições doutrinárias, para unir-nos simplesmente na prática do bem!

 

As frases acima reproduzem fielmente uma das facetas da mentalidade moderna, a qual se esforça por provar que o homem leigo (sem religião) pode ser tão honesto quanto o seu companheiro religioso, ou mesmo mais reto do que este. — A quem assim fala, poder-se-ão propor duas observações: uma, atinente ao conceito de Religião; a outra, concernente à noção de homem reto ou consumado. É o que vamos fazer.

 

1. Que é Religião ?

 

1.1. Abstraindo de questões particulares, debatidas pelas escolas, os autores geralmente afirmam que Religião é o conjunto de relações que ligam o homem a um Ser Supremo, Deus (como quer que Este seja concebido). Dos dois termos assim relacionados, está claro que, por definição, quem tem a primazia é Deus. Donde se vê que a Deus é que toca definir a Religião ou a via pela qual o homem deve subir ao Supremo Senhor. Religião feita ou concebida pelo homem é algo de contraditório; o homem não faz a Religião, mas recebe-a.

E como a recebe ? Recebe-a...

1) Ou pelo testemunho da criação inteira e a voz da consciência... Sim, a contemplação das criaturas leva a razão a conceber a existência do Criador que por estas se manifesta. Doutro lado, não há quem no seu íntimo não perceba o ditame: «Faze o bem, evita o mal». Este se impõe anteriormente a algum ato da inteligência ou da vontade; está impresso na natureza humana, quase como a marca do respectivo Autor. Pois bem; tal ditame é a primeira manifestação de Deus ao homem. Esse ditame tão rudimentar se desenvolve em graus diversos nos diversos indivíduos e povos, concorrendo para se formarem vários dos códigos de moralidade religiosa;

2) ...ou pela voz da Revelação sobrenatural, expressa nos livros da Bíblia (Antigo e Novo Testamento).

 

Donde se vê que Religião requer sempre sujeição humilde da criatura ; nunca pode ser um rótulo que sirva para corroborar o homem em sua presumida autonomia.

 

Em última análise, a raiz da Religião é a condição de ser deficiente que caracteriza todo indivíduo humano. Tal é a observação que já S. Tomás propunha no séc. XIII e que os modernos estudiosos de Psicologia e Etnologia só fizeram confirmar:

 

«A razão natural dita ao homem que se submeta a um Ser Supremo em vista das deficiências que o homem experimenta em si, deficiências contra as quais a criatura precisa de ser auxiliada e dirigida por um Ente Superior; quem quer que Este seja, tal Ser Superior é o que todos chamam Deus» (S. Tomás, S. Teol. II/II 85, 1c).

 

Poder-se-ia, porém, perguntar se de fato tal Ser Supremo existe; não seria vão o clamor do homem indigente na Terra ? A sã razão responde que não pode ser vão, e que o clamor espontâneo do homem não deixa de encontrar seu objetivo; pois na natureza nada se dirige para o vácuo; não há carnívoro sem carne, não há herbívoro sem erva, não há nadadeira sem água, não há asa sem atmosfera... Em termos mais gerais, dir-se-ia: toda aspiração já é provocada misteriosamente pelo Ser mesmo que a ela quer atender; donde se conclui que o desejo de plenitude, espontaneamente afirmado por todo homem, é suscitado pelo próprio Ser Pleno ou Perfeito, Deus.

 

Leão Tolstoi ilustra esta proposição mediante uma figura graciosa:

 

«Sou uma avezinha caída sobre o dorso, que está a clamar em meio à erva alta. Se clamo, sei que uma mãe me trouxe em si, me aqueceu, me alimentou e amou. Onde estaria, pois, essa mãe ? Se me abandonaram, quem me abandonou ? Não passo deixar de crer que alguém me gerou. Quem é esse alguém ? — É Deus».

 

1.2. Destas idéias se segue que Religião está longe de ser produto do «sentir» subjetivo e transitório do homem; não é simplesmente um remédio para determinadas situações, remédio ora necessário, ora desnecessário, segundo as contingências da vida. Ao contrário, ela está intimamente relacionada com a estrutura do homem como tal.

 

Em outros termos: Religião vem a ser a mais lógica consequência de uma proposição fundamental tanto da Metafísica como da Teologia: Deus é Criador e o homem é criatura. Isto significa que Deus é tudo, e o homem por si nada é; tudo que o homem é, foi-lhe dado e é conservado por Deus. Religião não vem a ser senão o reconhecimento explícito desta realidade.

 

O papel de criatura (ou de ser tirado do nada e, a todo instante, dependente de um Criador) implica que o homem viva em função não de si, mas de Deus,... que se tenha na conta de zero, zero que só toma sentido à luz da Bondade do Criador. Grande número de homens (talvez de boa fé) tende a fugir desta perspectiva e a viver na ilusão a respeito de si mesmos. Tenha-se, porém, consciência da que só há um título de grandeza para o indivíduo humano: o de ser criatura (aquilo que por si nada é) de um Criador bom e sábio (que sabe aproveitar o nada para exprimir a infinita perfeição divina); é esta a única atitude inteligente nesta vida; qualquer outra posição, mais «branda» em aparência, é mero subterfúgio, incapaz de levar o homem à saciedade de suas aspirações.

 

1.3. A mentalidade moderna é assaz alheia a estas considerações, pois ela se ressente da tendência a prezar demasiadamente o homem, tendência devida ao «humanismo» do séc. XVI. Com efeito, os pensadores daquela época passaram a focalizar com otimismo exagerado, por vezes quase pagão, a natureza humana e seus predicados, chegando a fazer do homem o centro de referência de todas as coisas. Em consequência, também a Religião e o próprio Deus foram sendo mais e mais concebidos como valores relativos... relativos ao homem.

 

Esta atitude tomou sua expressão mais significativa no séc. XVIII, entre os filósofos racionalistas da França (Voltaire, Diderot, d'Alembert, Rousseau); admitiam, sim, a existência de Deus, de um Deus, porém, muito alheio a este mundo e aos homens, em oposição à idéia de um Deus Criador, Pai providente dos homens; disto resultava crescente propensão a conceber o homem como um valor autônomo.

 

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) tornou-se o arauto, por excelência, de tal otimismo pouco ou nada religioso: para este filósofo, o homem é, por natureza, bom, isento de todo vício. Na sua «Profissão de fé de um pároco da Savoia», Rousseau explica como entende suas relações com o Ser Supremo:

 

«Aspiro ao momento em que, liberto dos entraves do corpo, serei Eu mesmo sem contradição, sem divisão, e não precisarei senão de mim para ser feliz; enquanto aguardo, sou feliz desde a vida presente, porque menosprezo todos os males desta existência; considero-a quase como estranha ao meu ser; todo autêntico bem que desta vida eu possa extrair, depende de mim. Para me elevar desde já, na medida do possível, a tal estado de felicidade, força e liberdade, entrego-me a sublimes contemplações, medito sobre a ordem do universo, não para a explicar por meio de vãos sistemas, mas para a admirar incessantemente... Converso com o sábio Autor do mundo,... mas não lhe dirijo prece alguma. Que lhe pediria eu ?... Nem lhe solicito o poder de praticar o bem; porque lhe pediria o que ele me deu ?» (Émile, livro IV fim).

 

Como se vê, embora recorra a expressões de piedade e reverência para com Deus, Rousseau relega seu Deus para um plano muito periférico e remoto; o que lhe interessa, é que o homem cada vez mais baste a si mesmo; assim, pensa ele, alcança a criatura a sua felicidade e consumação.

 

Ora parece que tal mentalidade ainda marca, a conduta de nossos contemporâneas, quando se comprazem em afirmar que não precisam de Deus para ser honestos cumpridores de seus deveres.

 

Contudo, após o que acaba de ser exposto nos parágrafos acima, ninguém hesitará em reconhecer que tal posição é de todo inconsistente, pois o homem ou é entendido em total dependência de Deus (dependência que o torna grande e digno) ou de modo nenhum se entende a criatura humana.

 

2. O homem reto ou consumado

 

As duas proposições às quais este artigo procura responder, supõem que o homem atinja simplesmente a sua consumação, caso venha a ser um perfeito cumpridor de seus deveres civis.

A quem assim pensa será oportuno lembrar o seguinte:

 

O comportamento ético ou a boa conduta é, no homem, valor derivado e não valor primário. A Ética lida, sim, com as categorias do bem e do mal, visando levar o indivíduo humano a praticar o bem e evitar o mal.

Mas como se há de definir o que é o bem e o que é o mal?

 

Os conceitos de bem e de mal se relacionam essencialmente com a noção de finalidade. Para determinado ser, bom é aquilo que convém à sua natureza e o leva à consecução de seu fim supremo; mau é aquilo que o impede de conseguir a sua finalidade (é bom o relógio que indica as horas com precisão, pois todo relógio foi feito para indicar as horas; é má a navalha que não corta, pois a navalha foi concebida pelo seu fabricante para talhar). Donde se vê que o fim último de um ser é o critério para se julgar o valor (positivo ou negativo) da atividade desse ser. Aplicando-se este princípio ao homem, verifica-se que, para se determinar as categorias do bem que o homem deve praticar, e do mal que deve evitar, é preciso ter em vista exatamente qual o fim supremo da criatura humana ou qual a razão de ser do homem na terra. Ora esta questão só pode ser resolvida à luz da Filosofia ou, mais propriamente, à luz da Religião (pois na verdade é somente à luz de Deus, que se explica o sentido da vida humana). Será impossível, por conseguinte, impor um procedimento ético ou uma legislação moral, independentemente de alguma Filosofia a respeito do mundo e do homem. É, pois, vã a posição dos que sugerem: «Deixemos de nos ocupar com proposições doutrinárias; unamo-nos simplesmente na prática do bem».

 

Para comprovar quanto é vão tal programa, basta lembrar como varia o conceito de bem nos vários sistemas ideológicos de nossos dias: o marxismo materialista ensina que a revolução social tem que ser realizada pelo recurso maquiavélico a qualquer expediente; por conseguinte, bom para o marxista é tudo que a possa promover sem demora. O existencialista sartriano diria que lhe é licito ser «carrasco e açougueiro», mesmo independentemente da revolução social (cf. «P. R.» 22/1959, qu. 1). O cristão, porém, condena qualquer desses extremismos, afirmando que pode haver imensa bem-aventurança na pobreza abraçada em união com Cristo.

 

Para quem crê na vida eterna, a vida presente se torna algo de relativo; os atos humanos são então julgados bons caso concorram para a consecução da eternidade; são, ao contrário, tidos como maus, desde que se oponham a tal meta; a bem-aventurança póstuma vem a ser o principio unificador das múltiplas ações do indivíduo; a esperança da felicidade inamissível passa a ser fonte das mais veementes energias. — Dado, porém, que não se admita vida póstuma, a vida presente vem a ser um valor absoluto de que é preciso gozar a todo transe; os atos humanos passam a referir-se a finalidades temporais e sensíveis, finalidades que variam conforme as preferências de cada filósofo ou mesmo de cada indivíduo.

 

Por conseguinte, «o problema dos destinos do homem impõe-se à moral como uma necessidade lógica indeclinável. À questão da existência de Deus e da imortalidade da alma importa responder sim ou não, porque deste sim ou deste não depende todo o valor da vida, todo o critério para a distinção do bem e do mal, toda a norma que aspira a dirigir racionalmente o nosso proceder. Moral leiga — que pretende abstrair ou prescindir destas verdades indeclináveis — é um contrassenso lógico e uma impossibilidade prática» (L. Franca, A formação da personalidade. Rio 1954, 453).

 

Entende-se assim quanto é errônea a atitude do legislador que pretende reduzir todos os homens aos mesmos padrões éticos ou às mesmas leis de conduta civil, sem, porém, se importar com a Verdade. Indiferença quanto à Verdade implica também indiferença quanto ao Bem ou à Ética; absoluta liberdade de pensamento deve acarretar outrossim absoluta liberdade de ação ou conduta; o legislador agnóstico solapa o fundamento de sua autoridade.

 

De resto, a neutralidade perante a Verdade não somente é impossível, mas vem a ser mesmo um predicado pejorativo para quem a pretende professar. É o que um pensador francês, J. Simon (não cristão, mas simplesmente deísta), afirmava em pleno Parlamento de Paris no ano de 1886:

 

«Não quero professor neutro; não quero, porque não o estimo; neutralidade em matéria de opinião é o que há de mais vergonhoso no mundo. Quem é o vosso mestre? Tem opinião ou não ? Se tem, esconde-a. E é este o modelo que propondes aos vossos filhos ? Se não a tem, deploro-o... Escola neutra é escola desonrada: ou não existe na realidade ou, se existe, envergonhamo-nos dela» (texto transcrito de Franca, ob. cit. 255s).

 

Sábia verificação, que vem rematar quanto acaba de ser exposto nos parágrafos acima !

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
9 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL

Ver N artigos +procurados:
TÓPICO  ASSUNTO  ARTIGO (leituras: 10436111)/DIA
PeR  Escrituras  1355 Jesus jamais condenou o homossexualismo?85.03
Diversos  Prática Cristã  3780 Os pecados mortais mais comuns30.84
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação16.11
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo14.97
Aulas  Doutrina  1497 Ser comunista é motivo de excomunhão?14.44
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?13.33
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino13.16
Diversos  Prática Cristã  3185 Anticonceptivos são Abortivos?12.30
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas11.77
Diversos  Apologética  3729 Desmascarando Hernandes Dias Lopes11.29
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia10.29
Vídeos  Testemunhos  3708 Terra de Maria9.30
PeR  Escrituras  2389 O Pai Nosso dos Católicos e dos Protestantes8.84
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?8.77
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra8.30
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade8.28
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?8.18
Diversos  Apologética  3960 Deus não divide sua glória com ninguém?7.76
PeR  Filosofia  0085 De Onde Viemos? Onde Estamos? Para Onde Vamos?7.76
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?7.37
Diversos  Santos e Místicos  3587 Poesia de Santa Teresinha7.33
Diversos  Mundo Atual  3795 O que há de vir?6.93
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová6.81
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo6.67
Sirvam e amem a Deus através dos homens, não, porém, por causa dos homens.
Dom Estêvão Bettencourt

Católicos Online