PERGUNTE E RESPONDEREMOS 001 - janeiro 1958

 

Sábado ou Domingo?

 

ADVENTISTA (S. Paulo) :

“Porque os católicos não obedecem à Bíblia guardando o sábado ?”

 

A lei natural proscreve ao homem que, na qualidade de criatura, reserve para o Criador uma parte de seu tempo.

 

A esta disposição natural sobreveio a lei positiva divina no Antigo Testamento, determinando que o período dedicado ao Senhor fosse o último dia de cada semana. De sete em sete dias, portanto, os israelitas, seguindo aliás um ritmo muito natural, inculcado pelas fases da Lua, se elevavam explícita e demoradamente ao seu Autor. Além disto, o Senhor estipulou as modalidades segundo as quais deveriam observar o sétimo dia ( = sábado, da raiz hebraica shaba que tanto significa “repouso” como “sete”); cf. Êx 20,8; 31,14; Lev 23,3; Dt 5,15. Estas disposições positivas, por sua índole mesma, poderiam ser mudadas, sem que por isso fosse ab-rogado o preceito natural de consagrar algum tempo ao culto do Senhor. Antes de receber de Moisés no séc. XIII a lei do sábado, o povo de Israel, desde as suas origens (séc. XVIII, época de Abraão), prestava culto ao verdadeiro Deus; o preceito do sábado, portanto, com as modalidades que a Lei de Moisés lhe atribuiu, não é inerente ao culto do único Deus.

 

Para mais inculcar ao povo a obrigação do repouso semanal, a Lei de Moisés, ao descrever a criação do mundo, apresentava Deus como o Operário exemplar que “trabalhou” durante seis dias e “repousou” no sétimo (cf. Gen 1). Tal apresentação era, não há dúvida, meramente literária, concebida para dar fundamento autoritativo a uma lei (Deus mesmo teria sido o primeiro a observar o sábado), não para elucidar o modo como Deus de fato criou o mundo. Contudo o sábado lembrava aos judeus a ordem de coisas decorrente da criação e da Aliança travada com o Senhor ao pé do monte Sinai. Cf. E. Bettencourt, Ciência e Fé na história dos primórdios, cap. II.

 

Na plenitude dos tempos, veio o Redentor, Jesus Cristo. Tinha por missão renovar o mundo, a antiga ordem de coisas, e completar a revelação de Deus iniciada nos tempos dos Patriarcas. Jesus mais de uma vez incutiu aos homens o sentido espiritual da Lei de Moisés e, em particular, do repouso do sábado; mostrou-lhe que este não era algo de absoluto, mas relativo, subordinado ao Filho do homem e à sua missão na terra. É, por exemplo, o que afirma Cristo em Mc 2,27: “O Filho do homem é Senhor mesmo do sábado”; é o que se depreende igualmente de Jo 5,1.8 : “Os judeus mais ainda o queriam matar, porque não somente violava o sábado, mas também chamava Deus seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus”.

 

For fim, após haver pregado a “Boa Notícia”, o Senhor houve por bom dar o remate à sua obra não em um sábado, mas na madrugada do dia seguinte, dia que era o primeiro da semana hebraica (a “primeira feira”) e que nós chamamos “domingo” ( = dominica dies, dia do Senhor). Assim o sábado, que era dia de alegria e festa no Antigo Testamento, foi no fim da vida terrestre de Jesus, dia de silêncio para os discípulos, dia em que se viram desconcertados, justamente porque, tendo morrido na sexta-feira, Cristo passou o sábado no sepulcro, como que subjugado pela morte. A nova criatura, ou seja, o Senhor ressuscitado, o segundo Adão, só foi tirado do seio da terra (do sepulcro) no domingo. Desde então era lógico que este simbolizasse a nova ordem de coisas, a criação restaurada por Cristo; no domingo, e não no sábado, é que os cristãos exprimiam por excelência a sua fé.

 

Os autores do Novo Testamento atestam a praxe daí decorrente:

 

- em At 20,7 lê-se que São Paulo em Trôade reuniu os fiéis para a celebração da liturgia “no primeiro dia da semana” . (dia subsequente ao sétimo dia hebraico);

- em 1 Cor 16,2 o mesmo Apóstolo supõe que as reuniões de culto se façam habitualmente “no primeiro dia da semana”;

- em Apoc 1,10 São João chama explicitamente o domingo de “o dia do Senhor”, tendo sido então agraciado por uma visão;

- os evangelistas não costumam mencionar o dia da semana em que se deu tal ou tal acontecimento da vida de Cristo (a não ser que se trate de um litígio sobre o sábado); fizeram-no contudo quando referiram a ressurreição do Senhor, dando assim ao dia respectivo um realce especial, realce que até então só tocava ao sábado : “Após o sábado, quando o primeiro dia da semana começava a despontar, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (Mt 28,1; cf. Mc 16,2; Lc 24,1; Jo 20,1.19).

 

Sob a direção dos Apóstolos, as gerações cristãs compreenderam que o “repouso do Senhor” no Novo Testamento é o dia da "consumação definitiva assinalada pela ressurreição de Cristo”. Verdade é que em uma ou outra região os fiéis nos primeiros tempos ainda tendiam a observar o sábado; o último documento que no-lo atesta, é o cân. 29 do concilio de Laodicéia (Ásia Menor, pouco após 381?): rejeitava categoricamente a praxe de “judaizar” (como se exprime o próprio cânon) aos sábados e inculcava a guarda do dia do Senhor (domingo); desde então a observância mosaica parece ter caído totalmente em desuso.

 

Após estas considerações, vê-se que querer impor a observância do sábado aos cristãos é desconhecer a consumação da ordem de coisas antigas; é afirmar o tipo e as figuras, quando já veio o antítipo, a realidade definitiva, messiânica. Logicamente quem o quisesse fazer, seria obrigado a observar toda a Lei de Moisés (alimentos puros e impuros, sacrifícios rituais, etc.) e recair no regime essencialmente provisório do Antigo Testamento (cf. Gál 5,1-4); logicamente seria obrigado mesmo a não acender o fogo e vigiar para que os animais domésticos não fizessem trabalho algum no sábado, pois estes pormenores pertencem à lei do repouso mosaico (cf. Êx 20,11; 23,12; 34,21; 35,3)!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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