PERGUNTE E RESPONDEREMOS 517 – julho 2005

 

"ENQUANTO TEMOS TEMPO..."

(Gl 6,10)

 

Numa importante passagem de seu epistolário, o Apóstolo lembra a fugacidade do tempo e a necessidade de o aproveitarmos com afinco. E por quê? Porque o tempo é a ocasião da semeadura de valores que colheremos na vida póstuma; quem semeia pouco, colherá pouco, mas quem semear muito, muito colherá (cf. Gl 6,10; 2Cor 9, 7-9).

 

Refletindo bem, verificamos que o tempo não é simplesmente uma dádiva de Deus, mas é sim o dom básico, sem o qual não pode haver outros dons. Infelizmente, porém, este dom nos escapa com facilidade; passa rápido sem que tomemos consciência do seu valor porque, muito atarefados, não conseguimos emergir para fora de nossas prementes obrigações a fim de avaliar o seu significado no conjunto da nossa vida. Há também aqueles para quem o tempo pouco vale, porque desligado da sua relação com o Além, de modo que vão procurar um "passatempo" no jogo ou na bebida...

 

Ao chegar o fim desta vida terrestre, muitos, olhando para trás, lamentarão ter perdido o tempo...; desejariam recomeçar a vida - o que será impossível; daí a grande frustração. Ver p. 336 deste fascículo.

 

Afim de que tal desfecho não ocorra, exorta o Apóstolo: "Vede cuidadosamente como andais, não como tolos, mas como sábios" (Ef 5, 14). E que significa a expressão "como sábios"? - Sábio, na Escritura, é aquele que olha para os valores do aquém sob a luz do Além; coloca regularmente ante os olhos o Fim de todos os fins, ou seja, o encontro com o Infinito e Absoluto, dimensionando cada valor passageiro com o metro da eternidade. Quem o faz, não é assustado nem desinstalado pela dita "morte", mas vê nesta a consumação de uma carreira consciente, uma carreira de quem rege o seu tempo e não é regido pelo tempo. Mais: quem assim vive, goza de paz, pois a causa básica que perturba e desmantela o homem é o desviar-se do Absoluto... desviar-se ele que foi feito para o Infinito: "Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (S. Agostinho, Confissões I 1). Estas reflexões não implicam alienação do cristão frente aos seus afazeres temporais, pois, ele sabe que, ao desempenhar-se de tais deveres, ele joga não somente com seu nome, mas no nome de Cristo e da religião, nome este que não é lícito conspurcar, mas que é preciso abrilhantar por uma fidelidade generosa aos compromissos. O cristão não vive só para si, mas também - e principalmente - para Aquele que por ele morreu e ressuscitou (cf. 2Cor 5,14; Rm 14, 7-9).

 

Tenha S. Agostinho a palavra final: "Façamos destes dias um símbolo do dia final. Façamos do lugar da mortalidade um símbolo do tempo da imortalidade. Caminhemos depressa para a morada eterna. 'Felizes os que moram em vossa casa; podem louvar-vos continuamente' (SI 84, 5)".

 

Eis algumas ponderações que o mês de julho - mês do tempo comum verde, cor da esperança - nos sugere. Sejam penhor de uma vida cada vez mais prenhe dos valores definitivos!

 

Estêvão Bettencourt (OSB)


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