BíBLIA (8254)'
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Artigo

INTRODUÇÃO GERAL

A Bíblia. -- "Nós não sentimos necessidade de apoios e alianças, tendo em mãos, para nosso conforto, os livros sagrados" (1Mac 12,9). Assim, em 154 a.C, em nome de toda a nação, da qual era chefe, escrevia Jonatas Macabeu ao rei de Esparta. Nessas suas palavras, já se apresenta o termo usual, o valor singular e o emprego prático da obra cuja versão apresentamos. Do termo: os livros -- no texto grego um neutro plural tà biblía -- em nossa língua, através do latim vulgar, formou-se o feminino singular:  a Bíblia.

Outros sinônimos, encontramo-los freqüentemente na própria Bíblia: a Escritura ou as Escrituras, as santas Escrituras, e mais raramente, as sagradas Letras. A Bíblia, portanto, não é um livro só, mas muitos, uma coletânea, cuja unidade consiste no argumento comum e na origem sobre-humana.

E de "livros santos" que a Bíblia se compõe, porque dentro de sua grande variedade eles coincidem em tratar de religião, tendo um objetivo essencialmente religioso. Com mais razão ainda chamam-se "livros santos" ou "sagrados" porque, como ensina a fé, tanto judaica como cristã, não foram escritos por mero talento humano, mas sob a influência de inspiração divina especial.

Ê desta origem sobrenatural que a Bíblia recebe a sua dignidade de "livro por excelência" e o seu lugar único na vida dos povos que tiveram o primado na civilização. Ela é, com efeito, o fundamento e o alimento da fé para todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no mundo pode ser a ela comparado, nem de longe, seja pelo número de tiragens de edições, quer manuscritas, quer impressas, seja pela influência sobre a vida individual e pública, sobre a literatura e as artes figurativas. Qualquer fiel sinceramente apegado à sua religião tem-na, por assim dizer, constantemente em mão, como Jonatas o apontava, para nela encontrar conforto em todas as vicissitudes da vida.

 

Divisão e número de livros. -- Cânon. -- Com o nome de Bíblia, pois, compreendem-se os livros sagrados da religião cujo centro é Jesus Cristo. Partindo deste ponto de convergência, a Bíblia divide-se em duas séries desiguais, a primeira, anterior a Jesus Cristo, a segunda, posterior. A primeira chama-se Antigo Testamento, a segunda Novo Testamento, conceito e vocábulo esses tomados da própria Bíblia.

O Antigo Testamento consta dos livros seguintes, comumente agrupados em quatro classes:

V Pentateuco ou cinco livros de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.

Livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Reis, Crônicas, Esdras e- Neemias, Tobias, Judite, Ester, Macabeus.

3? Livros didáticos ou poéticos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus, filho de Sirac).

Livros proféticos: Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze profetas menores, isto é: Amós, Oséias, Joel, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.

No Novo Testamento, o primeiro e mais conspícuo lugar compete aos quatro Evangelhos: segundo Mateus, Marcos, Lucas, João. Seguem-se: um livro histórico, os Atos dos Apóstolos; catorze epístolas de S. Paulo: aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, a Filemon, aos Hebreus; sete epístolas chamadas católicas, ou canónicas: uma de Tiago, duas de Pedro, três de João, uma de Judas; finalmente, um livro profético, o Apocalipse.

O elenco oficial dos livros sagrados chama-se cânon, no sentido de norma. Expusemos aqui o cânon católico, formado já no séc. IV nas cartas pontifícias e nos concílios provinciais da África, sancionado depois solenemente pelos concílios ecumênicos de Florença (1441) e de Trento (1546) e confirmado pelo Concílio Vaticano I (1870). Para a integridade do cânon não importa a ordem dos livros, porque, exceto o primeiro lugar reservado constantemente, no Antigo Testamento, ao Pentateuco e no Novo, aos Evangelhos, no restante diferem muito entre si os manuscritos, os autores, os catálogos oficiais de igrejas e de seitas.


 


Os livros históricos mais extensos do Antigo Testamento, Samuel-Reis e Crônicas, na antiquíssima versão grega (dos LXX, veja abaixo), por razões práticas foram divididos em dois; além disso, considerando Samuel e Reis como uma obra só, chegou-se a contar 4 livros dos Reis e dois das Crônicas, costume esse que se estendeu aos latinos e dura ainda em parte entre nós. No texto hebraico, adotada semelhante divisão, conhecem-se dois livros de Samuel, dois dos Reis, dois das Crônicas. Esdras e Neemias são chamados também de primeiro e segundo de Esdras. Também dos Macabeus contam-se dois livros, que na realidade são duas obras perfeitamente distintas. Na Vulgata, a Carta de Jeremias constitui o último cap. (6?) de Baruc. Tudo bem calculado, o Antigo Testamento consta de quarenta e seis livros, o Novo, de vinte e sete.

Por razões igualmente práticas, desde os primeiros séculos da nossa era, cada livro foi dividido em seções de várias extensões, conforme sistemas bastante diversos para lugares e épocas. Para eliminar os inconvenientes dessas antigas divisões e facilitar o estudo uniforme, no início do séc. XIII, na Universidade de Paris, Estêvão Langton (depois cardeal) introduziu a divisão em capítulos de extensão mediana, que depois, pela sua utilidade prática, propagou-se em todas as escolas e em todas as edições, e é ainda hoje de uso universal, agora insubstituível.

Mais tarde, no séc. XVI, os mesmos capítulos foram divididos em versículos numerados (por Sante Pagnini, para o Antigo Testamento [1528], por Roberto Estêvão, para o Novo [1550]), tendo sido também essa numeração, pela comodidade das citações, aceita logo e perdura até agora em toda parte. Entende-se, entretanto, que essas divisões são apenas de valor prático, não científico.

 

línguas orientais e cânones diversos. -- O Novo Testamento inteiro foi escrito em grego; só o Evangelho de Mateus, conforme testemunhos de antigos, teve uma primeira redação em aramaico, a qual, porém, se perdeu sem deixar vestígios; em lugar dela temos uma tradução, ou melhor, uma redação grega.

Quanto ao Antigo Testamento, temos três idiomas originais. A maior parte foi escrita e chegou até nós em língua hebraica. Alguns capítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um versículo de Jeremias, estão em aramaico, que foi o idioma falado na Palestina depois do exílio babilónico (séc. VI a.C). Dois livros, o segundo dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritos originariamente em grego. Dos livros de Judite, Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também de Daniel e Ester, perdeu-se, como no caso do Evangelho de Mateus, o texto original, hebraico ou aramaico, sendo substituído pela versão grega.

Essas diferenças lingüísticas não deixaram de exercer a sua influência sobre a extensão do cânon dos livros sagrados. Enquanto os judeus disseminados no mundo greco-romano não tinham dificuldades em introduzir os livros redigidos em grego, os judeus da Palestina não queriam conformar-se com isso. Além disso, foi-se formando entre eles a opinião de que, depois de Esdras (séc. V a.C), faltando ou sendo incerto o dom profético (veja IMac 4,46; 14,41), nem sequer admitiam pudessem ser escritos livros inspirados por Deus. Por isso, quando nos fins do séc. I d.C, os doutores da Sinagoga fixaram o cânon das Sagradas Escrituras, foram excluídos até os livros escritos em hebraico depois daquela época, como o Eclesiástico. Daí resultou um cânon hebraico em que faltam sete livros: Tobias, Judite, os dois dos Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a Carta de Jeremias, e mais algumas partes de Ester e de Daniel.

O veredito dos doutores hebreus não deixou de repercutir na Igreja cristã. Enquanto no uso comum se difundia o cânon mais pleno, concretizado na versão dos LXX, empregada e recomendada pelos apóstolos, alguns escritores (Melitão de Sardes, Sto. Atanásio de Alexandria, S. Gregório de Nazianzo, entre os gregos; Sto. Hilário de Poitiers, Rufino de Aquilêia e principalmente S. Jerônimo, entre os latinos) adotaram o cânon mais restrito dos hebreus, e, devido à autoridade desses antigos doutores cristãos, toda hesitação entre os católicos não foi eliminada senão pelo sagrado Concílio de Trento (1546).

No entanto, em virtude de tais vozes discordantes da crença comum, chegou-se a fazer distinção entre "livros reconhecidos" (homologúmenos), admitidos por todos (os do cânon hebraico), e "livros controversos" (antilogúmenos), não admitidos por todos, os oito acima enumerados, constantes do cânon cristão. Na terminologia moderna, os primeiros se chamam protocanônicos, os segundos deuterocanônicos, ou seja, canónicos de primeira e de segunda época, à medida que a unanimidade a seu respeito foi alcançada logo no começo ou só mais tarde. Entende-se, porém, que, com esses vocábulos, não se queria distinguir o valor ou a autoridade das duas categorias de livros, e sim lembrar somente um fato histórico e servir para maior brevidade e clareza no tratamento destas matérias. Analogamente, no Novo Testamento, por outras razões, porém, alguns livros nem sempre foram admitidos, e nem em todas as Igrejas, entre as divinas Escrituras; tais como a Epístola aos Hebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, a segunda e terceira de João, a de Judas e o Apocalipse; aos quais, por isso, também se aplicou a designação de deuterocanônicos, no sentido explicado.

Tudo o que foi dito até aqui vale para os autores católicos. Compreende-se que os hebreus rejeitem, em sua totalidade, o Novo Testamento, além dos deuterocanônicos do Antigo. Os protestantes ocupam uma posição de meio termo. No Novo Testamento, depois das primeiras incertezas de seus fundadores admitiram integralmente e sem distinção o Cânon católico. No An-tigo Testamento, ao invés, seguindo o cânon mais restrito dos hebreus, rejeitam, como fora da série dos livros sagrados, sob o nome de "apócrifos", os que nós chamamos deuterocanônicos.

Para os católicos, os apócrifos são certos livros antigos, semelhantes a livros bíblicos, quer do Novo, quer do Antigo Testamento, o mais das vezes atribuídos a personagens bíblicas, mas não inspirados, como os livros canónicos, e nem sempre escritos por pessoas fidedignas, nem de doutrina segura. Os apócrifos do Antigo Testamento .são chamados "pseudo-epígrafos" pelos protestantes.

 

Inspiração e interpretação. -- "As coisas reveladas por Deus, que se encontram e manifestam na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. De fato, a Igreja, por fé apostólica, considera como sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, tendo sido escritos por inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; J2Tim 3,16; 2Pdr 1,19-21; 3,15 --16), têm a Deus por autor e como tais foram confiados à própria Igreja. Todavia, para escrever os Livros sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou na posse das faculdades e capacidades que tinham, para que, agindo Deus neles e por meio deles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele quisesse.

Portanto? como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos se deve ter como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo havemos de acreditar que os Livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade relativa à nossa salvação, que Deus quis fosse consignada nas sagradas Letras. Por isso, 'toda Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para argüir, para corrigir, para instruir na justiça: a fim de que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as boas obras' (2Tim 3,16-17 gr.).

Mas como Deus na Sagrada Escritura falou por meio de homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis nos comunicar, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e aprouve a Deus manifestar por meio das palavras deles.

Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se ter em conta, entre outras coisas, também os 'gêneros literários'. A verdade é proposta e expressa de modos diferentes, segundo se trata de textos históricos de várias espécies, ou de textos proféticos ou poéticos ou ainda de outros modos de expressão. Ê preciso, então, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo -- em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura -- pretendeu exprimir e de fato exprimiu usando os 'gêneros literários' então em voga. Para entender retamente o que o autor sagrado quis afirmar por escrito, deve-se atender bem quer aos modos peculiares de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que na mesma época costumavam empregar-se nos intercâmbios humanos.

Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que levou à sua redação, ao investigarmos o sentido bem exato dos textos sagrados, não devemos atender menos ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a6 Igreja e a analogia da fé. Cabe aos exegetas, de harmonia com estas regras, trabalhar para entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, graças a este estudo de algum modo preparatório, chegue a termo o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus.

Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a admirável 'condescendência' da eterna Sabedoria, 'para nos levar a conhecer a inefável benignidade de Deus e a grande acomodação que usou nas palavras, tomando antecipadamente cuidado da nossa natureza' (S. João Crisóstomo).

As palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens". (Dei Verbum, 11-13).

A inspiração bíblica, segundo o conceito católico, não é uma moção mecânica, nem um ditado, como se o autor humano fosse passivo e nada de próprio assentasse no livro inspirado. Não; a força inspiradora age no homem de maneira digna dele, condizente com sua natureza de criatura inteligente e livre. Antes de tudo, a inspiração é uma luz intelectual, que, ou descobre ao homem aquilo que antes ignorava (e então tem-se a revelação), ou com novo esplendor lhe apresenta aquilo que já sabia. Sob a sua ação, a inteligência humana não é perturbada, não perde a consciência de si, como afirmavam os antigos acerca dos oráculos pagãos; pelo contrário, é mais do que nunca lúcida e inteligente. Nem a vontade é arrastada à força contra a sua inclinação; antes, mais do que nunca livre, segue dócil e espontaneamente o impulso divino. A ação inspiradora estende-se a todas as faculdades do homem, a todas as suas ações empregadas ao escrever, até à redação completa; mas a todas e a cada uma toca e dirige segundo a natureza de cada uma e segundo a parte que tomam no trabalho complexo de escrever. Daí se segue que a inspiração não suprime nem atenua a personalidade do escritor humano, e nos vários livros da Bíblia pode-se ver refletida a índole e o estilo de cada autor.

 

Textos e versões. -- "Todos os Padres e Doutores tiveram firmíssima persuasão" -- escreve Leão XIII na citada encíclica Providentissimus -- "de que as divinas Escrituras, quais saíram da pena dos autores sagrados, são inteiramente isentas de qualquer erro". Mas será que todas nos chegaram tais "quais saíram da pena dos autores sagrados?" Nenhum autógrafo, nem sequer do último dos autores inspirados, chegou até nós, como também o de nenhum escritor da antigüidade profana; só possuímos deles cópias remotas. Ora, os copistas não tiveram a assistência do Espírito Santo como os hagiógrafos, e enquanto copiavam à mão, era natural que se introduzissem no texto alterações de várias espécies. No longo período de 1500-3000 anos, desde as primeiras cópias até à invenção da imprensa (séc. XV), era moralmente impossível que dois exemplares de um mesmo livro, ao menos os mais extensos, fossem exatamente iguais, e Deus, que: preservou de todo erro os originais dos livros sagrados, não quis obrigar-se a milhares de milagres que seriam necessários para que se conservassem intactas as cópias. Bastava conservar inalterada a substância do depósito da fé contido nos livros sagrados. E para tanto foi magnificamente providenciado, como precisamente nos ensina a historia do texto.

Os textos originais da Bíblia, em particular os do Novo Testamento, são comprovados por tamanha abundância e antigüidade de documentos, que também sob o aspecto da transmissão textual a Bíblia mantém o seu primado, o seu lugar eminente na literatura mundial. Confrontada aos mais célebres monumentos da literatura profana, tais como as obras-primas da literatura grega e latina, ela brilha como o sol entre as estrelas. As obras de autores gregos e latinos, não raramente, nos chegaram num único manuscrito, e as mais afortunadas gloriam-se de algumas dezenas deles; os manuscritos do Novo Testamento, porém, contam-se às centenas e aos milhares. Deles possuímos ainda códices inteiros em pergaminho, do século IV; com fragmentos de papiros podemos remontar aos séculos III e II, isto é, a menos de um ou dois séculos da morte dos autores, enquanto que para Cícero e Virgílio a distância das cópias mais antigas é de cinco ou seis séculos, para Homero de um milênio e mais. O testemunho da transmissão direta dos códices gregos é reforçado quer por antiquíssimas versões -- já no séc. II, como a antiga versão latina --, quer pelas abundantes citações de escritores cristãos, a partir do séc. II. Ora, nesses antiquíssimos testemunhos encontramos a máxima parte do texto das modernas versões. Verdade é que a própria quantidade de manuscritos (além de versões e citações) ocasionou, pela razão já dita, um número proporcionado de variantes, ou seja, de alterações; pretende-se que no Novo Testamento inteiro, em 150.000 palavras, haja 200.000 variantes, mas na maioria são minúcias que não atingem absolutamente o sentido. Ademais, a riqueza de documentação oferece à crítica meios mais eficientes para precisar o texto original. Segundo o cálculo de juízes tão competentes como os críticos Westcott e Hort, sete oitavos de todo o Novo Testamento são transmitidos, concordemente, sem variantes, por todas as testemunhas. Quanto às variantes, somente a milésima parte atinge o sentido e só umas vinte assumem verdadeira importância. Nenhuma atinge a alguma verdade de fé. Auxiliados pela crítica textual podemos concluir, com os supracitados críticos, que o texto genuíno do Novo Testamento é assegurado não só na substância, mas também em quase todos os minuciosos particulares.

Quanto ao Antigo Testamento, as coisas apresentam-se um pouco diversamente. Antes das recentes descobertas junto ao mar Morto (1947), os códices hebraicos conhecidos, não anteriores aos séculos VIII-X d.C, dependiam todos de uma recensão ou arquétipo do fim do séc. I d.C, posterior, portanto, a cinco ou mais séculos dos originais. Dessa fonte temos o texto consonântico, isto é, só as consoantes das palavras hebraicas, segundo o uso das línguas semíticas, de não escreverem as vogais. Somente por volta do séc. VII d.C, para facilitar a leitura e para uso didático, foram inventados os sinais vocálicos e inseridos no texto, quando o hebraico tinha cessado há séculos (pelo séc. IV a.C), de ser idioma falado. No longo período do séc. I ao X d.C, o texto hebraico foi objeto dos mais minuciosos e diligentes cuidados da parte dos rabinos, chamados massoretas (de massorá = tradição). Ê ao trabalho infatigável deles que se deve a conservação inalterável do texto e dos manuscritos tão uniformes que não apresentam senão raríssimas variantes e de leve monta. Também as antigas versões, com uma só exceção, quer as gregas do séc.

II     (Áquila, Símaco, Teodocião, dos quais contudo não nos chegaram senão fragmentos), quer a siríaca, chamada Pechitta, o Targum aramaico (também chamado paráfrase caldaica), e a latina de S. Jerônimo, sendo todas posteriores à recensão do séc. I, e dela dependentes raras vezes supõem forma diversa do texto hebraico normal (massorético).

Tanto mais preciosa, em tais circunstâncias, é para nós a antiga versão grega, feita no Egito (mais exatamente, em Alexandria, motivo por que também é chamada "alexandrina") entre os séc.

III    e II a.C Considerada até os tempos modernos como obra coletiva de setenta e dois doutos hebreus vindos para isso de Jerusalém, a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C), como narra uma pseudocarta de Aristéia, continua ainda a chamar-se a versão dos Setenta ou os Setenta (LXX). Na realidade, como mostra o exame interno, os tradutores foram muitos, traduzindo  quem este, quem aquele livro, em épocas diversas, até que, reunidas as traduções, formou-se um A. Testamento totalmente grego, mais amplo do que o hebraico massorético, segundo o que acima foi dito. Entra aqui o testemunho -- precioso pelo fato e pela época -- do neto do autor do Eclesiástico, o qual, no prólogo de sua tradução da obra do avô, assevera ter ido ao Egito pelo ano XXXVIII do rei Evérgetes (cerca de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidos em grego, a Lei (Pentateuco), os Profetas e os outros Escritos, isto é, as três partes em que os judeus dividem a sua Bíblia,

Assim, a versão grega dos LXX tem para nós valor de um manuscrito hebraico do séc. III a.C. ou mais antigo, representando um tipo de texto sensivelmente diferente, como o demonstra um confronto com o texto corrente na Palestina. Ela é para nós, portanto, o instrumento principal para a emenda crítica do texto hebraico. È, contudo, um instrumento de emprego freqüentemente delicado. Além de, por causa das divergências dos tradutores, alguns literais e até servis, outros mais livres, não termos um critério geral para remontar da tradução grega ao original hebraico, o próprio texto dos LXX, através de tantas vicissitudes de séculos, chegou-nos em manuscritos com tão grande número de variantes que nem sempre é fácil, entre essa selva de variantes, descobrir o texto genuíno.

Causaram enorme confusão, sem o querer, três recensões feitas no séc. III e difundidas largamente na Igreja grega. Um século depois, um ótimo perito e testemunha ocular dos fatos, S. Jerônimo (Prefação às Crônicas) escreve: "Alexandria com todo o Egito, nos seus LXX louva a obra de Hesíquio; de Constantinopla até Antioquia usam-se os exemplares do mártir Luciano; as províncias situadas entre essas duas regiões lêem os códices palestinenses, elaborados por Orígenes e divulgados por Eusébio e Pânfilo; de modo que todo o orbe se debate entre esta tríplice variedade". Felizmente nos foi conservado em poucos manuscritos, sobretudo no famoso Vaticano 1209 (assinalado com a sigla B), um texto anterior àquelas recensões e por elas tomado por base, o que facilita o trabalho do crítico em busca da forma primitiva.

Todavia, o exame atento e consciencioso nos revela que também o texto hebraico usado pela vetusta versão grega já estava bem afastado da primitiva pureza e integridade, e que a maioria das alterações agora deploradas no texto massorético, já existiam nos séculos imediatos ao exílio babilónico. Faltando o apoio dos LXX para emendar um texto corrompido, não nos resta senão o recurso à crítica interna, ou seja, à reconstituição conjetural. A legitimidade e a medida da aplicação destes critérios no Antigo Testamento, provam-nos alguns capítulos que, nos próprios livros canónicos, nos foram transmitidos em dois exemplares diversos. Como., por exemplo, o salmo 18 (Vulgata 17), reproduzido em 2Rs 22 e, no próprio Saltério, o salmo 14 (Vulgata 13) repetido com o número 53 (Vulgata 52). So tocante ao Pentateuco, além disso, temos como reforço o texto conservado entre os samaritanos, pertencente a um tipo mais antigo que o massorético, abstração feita de certos acréscimos e adaptações em favor do culto deles no monte Garizim (veja Jo 4,20). O arcaísmo do Pentateuco samaritano reflete-se até na forma de, escritura que eles ainda adotam. Trata-se dum descendente direto da primitiva escrita hebraica, mais próxima das origens fenícias (e portanto também de nosso alfabeto), do que o alfabeto em uso há séculos entre os hebreus. De fato, a hodierna escrita hebraica (chamada, pela forma geral das letras, quadrada) deriva do ramo aramaico do alfabeto adotado por eles na época persa (cerca do séc. V a.C.) em lugar da antiga, na qual anteriormente foram escritos os livros sagrados. No exame crítico do texto original, esta mudança de alfabeto deve ser levada em conta. Ê o primeiro estudo a ser feito por todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia, como de qualquer outro livro: certificar-se da leitura genuína, isto é, das palavras exatas escritas pelo autor. "O primeiro cuidado de quem quer entender a divina Escritura [sentencia Sto. Agostinho no seu magistral De Doctrina Christiana, 1. II, c. 21] deve ser o de corrigir os códices". Traduzido em linguagem moderna pelo Pontífice Leão XIII, na encíclica Providentissimus Deus, este preceito soa assim: "Examinada com todo cuidado a leitura genuína do texto, quando for o caso, passar-se-á a sondar e expor o sentido" do texto sagrado.

 

A Vulgata, -- Vulgata, por antonomásia, chamase a versão latina em uso na Igreja latina. Ela é, em sua máxima parte, obra de S. Jerônimo, doutor da Igreja (cerca de 350-420), pois resulta da união de três categorias de livros: V livros que ele traduziu diretamente do texto original: todos os protocanônicos do Antigo Testamento, com exceção dos Salmos, mais Tobias e Judite; 2°- os livros de uma antiga versão latina por ele revista e corrigida à luz do texto grego: os Salmos, do Antigo Testamento; ao certo os Evangelhos e provavelmente o restante do Novo Testamento; cinco deuterocanônicos do Antigo Testamento, que tinham ficado na antiga versão latina, não tocados por S. Jerônimo, a saber: os dois dos Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc (com a Carta de Jeremias). Não é, portanto, inexato dizer que o termo Vulgata, comumente falando, seja sinônimo da versão de S. Jerônimo, denominando-se o todo pela parte principal e mais extensa.

 

O valor da Vulgata. -- Entre os tradutores antigos da Bíblia, S. Jerônimo foi o último no tempo, embora o primeiro pelo mérito: não só por se ter podido valer dos trabalhos dos seus antecessores, mas sobretudo porque, pela prática constante, adquiriu domínio tal das línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego), que entre os antigos cristãos não se conhece igual. Acrescente-se um conhecimento igualmente único da literatura exegética, tanto judaica como cristã. Com uma bagagem de cultura literária incomum, com ótima preparação e excelentes critérios, pôs mãos. ao árduo trabalho. Começou por corrigir (em Roma, em 384, a convite do papa S. Dâmaso) os Evangelhos latinos, auxiliado para isso pelos melhores códices gregos. Transferindo-se depois para a Palestina (386), com o intuito de levar uma vida de ascetismo e de estudo, estendeu o mesmo trabalho de paciente revisão, baseado no original grego, aos livros do Antigo Testamento; mas, tendo terminado uma parte deles, sobretudo os Salmos, que passaram depois à Vulgata, compreendeu que prestaria um serviço muito melhor à Igreja, fazendo uma nova versão diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer diante das ingentes dificuldades, e sem se cansar no longo e áspero caminho, a ela se dedicou com admirável constância pelo espaço de uns quinze anos, de 390 a 404, até o acabamento feliz da obra. Não traduziu os livros pela ordem que têm no cânon. Começou com os livros de Samuel, aos quais antepôs o conhecido Prólogo galeato, que é como que o programa de toda a sua versão. Passou depois aos Salmos, aos Profetas, a Jó, a Esdras e às Crônicas, aos três livros atribuídos a Salomão (Provérbios, Ecle-siastes, Cânticos). Em seguida, passando para o início, pôs mãos ao Pentateuco, e prosseguindo por Josué, Juízes e Rute, terminou com Ester. Não traduziu todos os livros com a mesma aplicação. Com maior cuidado traduziu e corrigiu (como se exprime ele mesmo) os primeiros livros, isto é, Samuel e Reis; os três livros ditos de Salomão concluiu-os em apenas três dias; o de Tobias, num dia; o de Judite, numa noite. Destas e de outras causas resulta certa desigualdade entre os vários livros, e também na unidade fundamental da versão. Em geral, tendo-se formado uma idéia clara do que queria dizer o autor sagrado, procurou produzi-la com a mesma clareza em latim, cuidando mais do sentido do que da letra, sem menosprezar a exigência da boa latinida-de. Guiado por esses critérios, conseguiu imprimir à sua tradução, de modo geral, uma propriedade de sentido e uma beleza de expressão tais, que só se apreciam plenamente quando comparadas com as versões rivais gregas ou latinas, em geral rudemente literárias e bárbaras e, portanto, também obscuras. Todavia, também S. Jerônimo, especialmente nos primeiros livros traduzidos, às mais das vezes por veneração à palavra divina, não se afasta de um duro literalismo e por amor à clareza não foge de termos e construções vulgares; nos seus escritos originais brilha muito mais pela linguagem e pelo estilo.

 

Vicissitudes e estado atual. -- Ás traduções de S. Jerônimo não encontraram imediatamente no mundo latino a acolhida que mereciam. A propagação, devido em parte às dificuldades da época, foi lenta, mas em constante progresso, de sorte que dois séculos depois Sto. Isidoro de Sevilha (+ 636) pôde escrever que ela já estava em uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe definitivamente o triunfo sobre as antigas versões latinas. Formou-se assim, entre o séc. V e o IX, a versão que, propriamente é chamada Vulgata: fundo jeronimiano com algumas partes da antiga latina, como evidenciamos acima. No curso dos séculos, porém, transmitindo-se em exemplares manuscritos, perdeu, ora mais, ora menos, da sua primitiva pureza, seja por causa dos copistas, seja por infiltrações de antigas versões. Não faltaram, de vez em quando, doutos e zelosos varões para opor-se à invasão corruptora, emendando o texto corrente a fim de reconduzi-lo à primitiva integridade. Digna de memória pelo valor dos resultados e pela influência eficaz a revisão efetuada por Alcuíno (801), ordenada por Carlos Magno. Mas nem sequer esta escapou à rápida degeneração, nem impediu que se formassem outros tipos de textos, sobretudo na Espanha e na Itália. Quando, no séc. XIII, afluíam à Universidade de Paris estudantes de toda a Europa, trazendo cada qual o seu texto bíblico, sentiu-se a necessidade, para uso escolar, de uniformizar os textos muitas vezes discordantes entre si; e isso foi feito, enxertando-se sobre o fundo alcuiniano as variantes dos outros. Originou-se daí um texto de valor discutível que, todavia, graças à enorme influência exercida pela célebre Universidade, teve grande sucesso e propagou-se por toda a "Europa, primeiro em cópias manuscritas, e depois, inventada a arte tipográfica, também nas edições impressas. Só na primeira metade do séc. XVI deram-se os primeiros passos para uma edição crítica da Vulgata; no entanto, outros a corrompiam ainda mais, corrigindo-a a bel-prazer com o texto hebraico; outros ainda mais radicalmente, segundo o caminho aberto pela reforma protestante, a repudiavam. Estes fatos motivaram a intervenção do

Concílio de Trento na importante questão.

Na sessão IV (8 de abril de 1546) o Tridentino, depois de haver definido o cânon das divinas Escrituras, como dissemos, para enfrentar as desordens introduzidas no uso dos livros sagrados, decretou que a Vulgata, venerada pela antigüidade e pelo uso diuturno da Igreja, fosse considerada versão autêntica e, além disso, fosse impressa com a máxima correção. A execução da segunda parte deste decreto, isto é, a edição correta da Vulgata, foi confiada pelo próprio Concílio à Santa Sé. Os Sumos Pontífices, desde Pio IV até Clemente VIII, nomearam para esse fim quatro comissões sucessivas, cujos trabalhos, não obstante as numerosas dificuldades e várias vicissitudes, terminaram com a edição oficial vaticana que, sobre a base lançada por Sixto V, foi publicada por Clemente VIII em 1592, chamando-se, por isso, sixto-clementina; a essa, a qual se seguiram outras duas reedições vaticanas em 1593 e em 1598, tiveram que se conformar todas as edições subseqüentes em qualquer parte do mundo, até aos nossos dias.

A autenticidade da Vulgata, primordial decreto Tridentino, foi muitas vezes mal compreendida. Antes de tudo, com este privilégio conferido à Vulgata, de ser a única versão autêntica, o Concílio não entendeu colocá-la acima dos textos originais, nem diminuir o valor intrínseco das outras versões, sobretudo das antigas, mas também das modernas, como declaram expressamente as atas do concílio. O decreto põe diante da Vulgata somente as outras versões em língua latina; o resto (seja texto, sejam versões em outras línguas) não é alcançado pelo decreto. Em relação às versões latinas afora a Vulgata, portanto, o decreto é negativo; não lhes confere o valor reservado à Vulgata, mas não as rejeita nem as condena. Todo o peso do decreto, portanto, se concentra sobre o caráter positivo reconhecido à Vulgata; de autêntica.

 

Ave-Maria

A Bíblia “Ave Maria” é uma versão da Bíblia cristã publicada pela Editora Ave Maria  em 1959, traduzida do grego e hebraico, por monges beneditinos de Maredsous (Bélgica). Foi considerada uma das melhores traduções do mundo na época e em sua primeira edição teve uma tiragem de 42.000 exemplares. É uma das traduções mais populares no Brasil. Com poucas notas de rodapé, tem uma linguagem coloquial, porém sem prejuízo para a compreensão dos aspectos históricos e culturais. Na década de 50 publicaram a Bíblia católica do Brasil, cuja tradução, supervisionada pelo frei João José Pedreira de Castro, vice-presidente da LEB – Liga de Estudos Bíblicos – e fundador do Centro Bíblico de São Paulo, foi feita a partir da versão francesa dos monges beneditinos, de Maredsous, Bélgica, uma tradução direta do hebraico, grego e aramaico.

Com uma linguagem popular, que tornou sua leitura bastante acessível, a Bíblia Ave-Maria encontra-se agora ONLINE!

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