PERGUNTE E RESPONDEREMOS 530 – agosto 2006

 

De novo em foco:

 

AS CRUZADAS: LUZES E SOMBRAS

 

Em síntese: O tema "Cruzadas" volta à toma no recente diálogo entre católicos e muçulmanos. Enquanto estes consideram as Cruzadas como expressão do imperialismo ocidental, vários estudiosos ocidentais, de reconhecida competência, veem nessas expedições um gesto de defesa dos lugares santos da Palestina ocupada por muçulmanos, que maltratavam os cristãos daquela região.

 

O Papa Bento XVI tem procurado tecer um diálogo mais intenso entre católicos e muçulmanos. Um ponto delicado desse programa são as Cruzadas, que os árabes têm na conta de expressão do imperialismo ocidental. Todavia bons estudiosos contemporâneos propõem a revisão desse conceito. Tal a temática a ser explanada nas páginas subsequentes.

 

1. O Problema

 

Antes do mais, diga-se o que são precisamente as Cruzadas.

 

Por "Cruzadas medievais" entendem-se as expedições empreendidas pelos cristãos do Ocidente para libertar do domínio muçulmano o S. Sepulcro de Cristo em Jerusalém. Têm início em fins do séc. XI (1095) e terminaram em 1291, quando os últimos bastiões dos cruzados no Mediterrâneo oriental sucumbiram sob os ataques dos Turcos.

 

Em março de 2006 realizou-se na Universidade Europeia de Roma (UER), uma mesa-redonda sobre o tema As Cruzadas entre Mito e Realidade”, encontro este ao qual compareceram vinte e dois peritos de várias Universidades europeias. Abordaram esse fato histórico em seu contexto medieval próprio à luz de ampla documentação.

 

Destacou-se, então o Prof. Jonatha Riley Smith, da Universidade de Cambridge, um dos mais notáveis especialistas do assunto, que afirmou: "As Cruzadas não foram um espécime de imperialismo, mas uma tentativa, de ocidentais, de libertar os lugares santos e a cidade de Jerusalém, que estavam em poder dos muçulmanos". Segundo o mesmo mestre, o menosprezo e a condenação das Cruzadas se deve principalmente ao Prof. Walter Scott, escocês (1771-1832) e ao Prof. Joseph François Michaud (1767-1839), francês; o primeiro destes mestres tinha as Cruzadas como "movimentos destinados a atacar brutalmente os muçulmanos mais avançados em civilização", ao passo que o seu colega francês sustentava o parecer de que as Cruzadas eram a "expressão do imperialismo europeu".

 

Conforme Riley-Smith, a estima dos lugares santos inspirou a Papas e Concílios a realização das Cruzadas, realização esta que foi regulamentada pelos documentos "Ad Liberandam (Para libertar)" e "Pro zelo Fidei (Pelo zelo da fé)" emitidos respectivamente pelos Concílios de Latrão IV (1215) e de Lião II (1274).

 

Pode-se salientar também a figura do Prof. Roberto de Mattei, Coordenador da mesa-redonda, para quem "as Cruzadas são uma resposta à invasão muçulmana de terras cristãs e à devastação muçulmana da Terra Santa".

 

Continuando, de certo modo, o estudo dos mestres historiadores, o Papa quis abordar a questão das relações da Igreja com o Islã (que inclui o tema "Cruzadas"). Fica aberta a pergunta: Aceitarão os muçulmanos a nova conceituação de Cruzadas? Para que esqueçam o passado, não basta ter o Papa João Paulo II pedido perdão a Deus pelas faltas dos filhos da Igreja cometidas contra os discípulos de Maomé? É de notar que ainda em fevereiro de 2006 foi assassinado por ódio à fé católica o Pe. André Santoro na cidade turca de Trebiznda.

 

Pergunta-se agora: quais seriam os fundamentos da nova e mais simpática conceituação de Cruzada?

É o que passamos a expor.

 

2. Cruzadas: pano de fundo

 

2.1. A situação dos cristãos na Terra Santa

 

Do séc. IV em diante, o movimento de peregrinação à Terra Santa não cessou entre os cristãos. Jerusalém, Roma e Compostela eram os principais pontos de atração da piedade. Têm-se mesmo ainda hoje numerosos "itinerários" de Terra Santa escritos em latim através dos séculos por cristãos de nomeada, como o Peregrino de Placência, Silvia, Etéría...

 

Na Idade Média tão arraigado era o hábito de peregrinar que até mesmo o servo da gleba (o homem estático por excelência, porque ligado ao campo, que ele não podia deixar e que ninguém tinha o direito de lhe tirar) gozava do direito de sair da sua terra para realizar uma peregrinação, sem que ninguém se lhe opusesse.

 

No séc. VII a expansão árabe fez perecer as numerosas comunidades cristãs esparsas pela Síria, a Palestina, o Egito, o norte da África; Jerusalém em 638 foi ocupada e, em parte, transformada em cidade árabe muçulmana. As condições dos cristãos que lá viviam ou que lá iam ter a fim de visitar os lugares santos, tornaram-se difíceis, embora oscilantes segundo as épocas; a tensão do ambiente foi às vezes abrandada por acordos, como por exemplo, os de Carlos Magno (+814) com o califa Hanoun al-Rachidi, esses pactos, porém, nem sempre foram respeitados, como no caso do califa Hakim, fundador da religião drusa, que em 1009 mandou destruir a basílica do S. Sepulcro em Jerusalém e durante dez anos moveu perseguição a cristãos e judeus.

 

Pouco depois, ou seja, a partir de 1055, os Turcos seldjucitas entraram no próximo Oriente. Em 1071, Jerusalém caía em suas mãos. Os cristãos, em consequência, sofreram opressão. Os peregrinos que voltavam da Terra Santa, narravam no Ocidente a ingrata situação em que se achavam os irmãos e os santuários na Terra Santa de Cristo. As condições de peregrinação eram extremamente perigosas. Os relatos falam de peregrinos colocados no cárcere, sequestrados em troca de dinheiro, torturados durante a viagem para a Terra Santa. Uma das crônicas mais impressionantes era a da peregrinação de Bünther, bispo de Bamberga (Alemanha), que, com milhares de companheiros, a pequena distância de Jerusalém, sofreu duro ataque dos beduínos da região durante três dias.

 

Geralmente muitos episódios e casos particulares circulavam de boca em boca na Europa a respeito do que ocorria em Jerusalém e nos arredores; tais episódios constituíam o teor do que o cristão podia conhecer a respeito da Terra Santa. Dessas informações temos um espécime ainda hoje numa crônica de Guilherme de Tiro, historiador do século XII:

 

"Aconteceu, por permissão de Nosso Senhor e para provação do povo, que um homem desleal e cruel se tornou senhor e califa do Egito. Tinha por nome Haxim e quis ultrapassar toda a malícia e a crueldade que tinham estado em seus ancestrais. Ele foi tal que os homens da sua fé o tinham também na conta de orgulho, de furor e de deslealdade. Entre outras deslealdades, mandou abater a santa igreja do Sepulcro de Jesus Cristo, que fora construída anteriormente por ordem de Constantino Imperador, pelo patriarca de Jerusalém chamado Máximo, e que fora refeita por Modesto, outro patriarca do tempo de Heráclito.([1])

 

Então começou a situação de nossa parte a ser muito mais dura e dolorosa do que fora, pois grande luta lhes entrara no coração por causa da Igreja da Ressurreição de Nosso Senhor, que eles viam assim destruída. Doutra parte, eram dolorosamente sobrecarregados de impostos e tarefas, contra os costumes e os privilégios que eles haviam recebido dos príncipes incrédulos. Até mesmo o que jamais lhes fora imposto,chegou a ser-lhes proibida a celebração das suas festas. No dia que soubessem ser a maior festa dos cristãos, eles (os drusos) os obrigavam a trabalhar mais sob o jugo e a força: proibiam-lhes (aos cristãos) sair das portas de suas casas, em que eles eram encerrados para que não pudessem celebrar festa alguma. Em suas casas mesmas não gozavam de paz nem segurança, pois se atiravam sobre eles grandes pedras e pelas janelas lançavam excrementos, lama e toda espécie de lixo. Se acontecesse que algum cristão dissesse uma só palavra capaz de desagradar a esses incrédulos, logo, como se tivesse cometido um morticínio, era arrastado à prisão e lhe cortavam o pé ou a mão, ou podiam todos os seus bens ser confiscados pelo califa... Muitas vezes, os incrédulos tomavam os filhos e as filhas dos cristãos em suas casas e com eles faziam o         que queriam; ora mediante golpes, ora mediante adulação, os incrédulos constrangiam muitos jovens a renegar a fé... Os bons cristãos esforçavam-se por sustentar tanto mais firmemente a sua fé quanto mais eram maltratados.

 

Seria longo contar todos os vexames e as desgraças em que o povo de Nosso Senhor se encontrava então. Eu vos contarei um episódio, para que mediante esse possais compreender muitos outros. Um dos incrédulos, malicioso e desleal, que odiava cruelmente os cristãos, procurava certa vez um meio de os fazer morrer. Viu que a cidade inteira (Jerusalém) tinha grande honra e reverência pelo Templo que fora refeito ([2])... Diante do Templo há uma praça que se chama a esplanada do Templo, que eles (os muçulmanos) guardavam e mantinham limpa, como os cristãos mantêm limpas as suas igrejas e os seus altares. Esse incrédulo desleal tomou de noite, sem que alguém o visse, um cão morto, pútrido e fétido, e colocou-o nessa esplanada, diante do Templo. De manhã, quando os homens da cidade foram ao Templo para orar, encontraram esse cão. Fez-se então um grande grito, rumor e clamor por toda a cidade, a ponto que só se falava do ocorrido. Reuniram-se e não tiveram dúvida em dizer que os cristãos haviam feito isto. Todos concordaram em passar ao fio da espada todos os cristãos; já estavam mesmo desembainhadas as espadas que a todos deviam cortar a cabeça.

 

Entre os cristãos havia um jovem de coração generoso e de grande piedade. Falou ao povo e disse: 'Meus senhores, verdade é que não tenho culpa alguma no que aconteceu, como aliás nenhum de nós a tem; isto, eu o dou por certo. Mas será extremamente doloroso se morrerdes todos assim e se todo o Cristianismo se extinguir nesta terra. Por isto pensei em vos libertar a todos com o auxílio de Nosso Senhor. Apenas vos peço duas coisas pelo amor de Deus: que oreis por minha alma em vossas preces e que tomeis sob os vossos cuidados e reverência a minha pobre família. Pois eu assumirei a causa sobre mim e direi que fui eu que fiz aquilo de que acusam a todos nós!'

 

Os que lamentavam morrer, tiveram grande alegria então e prometeram ao jovem fazer orações e honrar os seus familiares de tal modo que estes, no domingo de Ramos, trouxessem sempre a oliveira, que significa o Cristo, e a colocassem em Jerusalém. - O jovem, portanto, foi ao encontro dos injustos e disse que os outros cristãos não tinham culpa alguma no ocorrido e que ele era o autor da façanha. Quando os incrédulos ouviram isto, puseram em liberdade todos os outros, e somente ele teve a cabeça talhada".

 

Faça-se o desconto devido possivelmente ao estilo panegirista do cronista... É certo, porém, que ainda no séc. XII havia em Jerusalém uma família encarregada de fornecer aos fiéis as palmas para o domingo de Ramos, em memória (diziam) da dedicação desse antepassado generoso, que se teria sacrificado em prol da comunidade.

 

2.2. Concepções e características medievais

 

1. Note-se agora que os relatos concernentes aos vexames da Terra Santa ecoavam nos ouvidos de sociedade e povos caracterizados por dois traços profundamente marcantes:

 

a) Eram populações nas quais todos os indivíduos (com raras exceções, que confirmavam a regra) tinham - ou ao menos julgavam ter e professavam a fé cristã. Essa fé não procedia de uma autoridade exterior (do Papa ou do Imperador), mas era uma convicção profundamente ancorada no coração de todos. Os valores da fé eram. para esses homens, o que fazia que a vida valesse a pena de ser vivida. O calendário da vida pública, as catedrais românicas e góticas, os nomes de acidentes geográficos e instituições, além de numerosos outros dados, atestam o profundo impacto que a mensagem da fé causava sobre os povos medievais, ritmando as minúcias da vida cotidiana.

 

Não há dúvida, a fé dos medievais era muito propensa a demonstrações exuberantes, como também a dar crédito a visões, aparições, feitos extraordinários, sinais retumbantes de Deus... Ao lado das grandes Universidades de Paris, Oxford, Bolonha, Nápoles, havia também muita simploriedade e infantilidade na piedade cristã. Mas inegavelmente tudo que se ligasse com a fé, revestia-se de grande significado para os medievais.

 

b) A sociedade na Idade Média estava toda impregnada do espírito e da realidade dos cavaleiros. Efetivamente, a espiritualidade germânica, franca, celta, goda legou à civilização medieval o ideal do cavaleiro. Este aspirava a servir a Deus na bravura destemida, magnânima, e até mesmo na guerra (caso julgasse que a honra de Deus exigia a intervenção da espada). A espiritualidade do cavaleiro retratada nas canções e trovas da Idade Média era apta a suscitar façanhas heroicas em nome da fé.

 

Mais: deve-se lembrar que na Idade Média também os monges desenvolveram papel importante, professando, porém, uma espiritualidade assaz diversa da do cavaleiro. Enquanto o cavaleiro procurava intensificar suas atividades no mundo, aspirando assim a unir-se a Deus e chegar à vida eterna, o monge se separava do mundo secular para penetrar diretamente em Deus e na contemplação. Enquanto o cavaleiro aplicava os instrumentos da sua profissão, isto é, as armas, para servir ao seu Senhor, o monge, professando pobreza e silêncio, recusava o recurso a tais expedientes.

 

Ora os medievais haviam de conseguir fazer a síntese desses dois tipos de ideal cristão - o do cavaleiro e o do monge -, criando no século XII as chamadas "Ordens Militares". Nestas o cavaleiro se consagrava a Deus para O servir com destemor e galhardia num quadro de pobreza, castidade e obediência.

 

Referindo-se aos Templários, dizia S. Bernardo (+1153):

 

"Não sei se os devo chamar monges ou cavaleiros; talvez seja necessário dar-lhes um e outro nome, pois eles unem à brandura do monge a coragem do cavaleiro" (De laude novae militiae IV 8).

 

2. Foi, portanto, nas populações medievais, caracterizadas por tais traços, que ecoaram os relatos, de estilo simples e pungente, dos peregrinos da Terra Santa, no séc. XI. Compreende-se que tenham desencadeado reação espontânea e decidida da parte dos seus ouvintes. Somente o entusiasmo e o vigor comunicados pela fé (e que só a fé pode comunicar) explicam tal resposta: multidões se abalaram, prontificando-se a partir para terras longínquas, desconhecidas, sujeitas a surpresas e ciladas, sem reabastecimento seguro, sem guias peritos, sem planos de viagem muito definidos, mas conscientes (ao menos nos primeiros tempos) de que Deus o queria: "Deus lo volt", eis o brado que em Clermont, no ano de 1095, impressionou os primeiros expedicionários e impulsionou a tantos outros que lhes seguiram o exemplo. Cosiam uma cruz de pano vermelho ao ombro direito; donde as expressões que se tornaram técnicas: "assumir a cruz" e "fazer a cruzada". O ímpeto inicial teve suas repercussões durante os dois séculos de duração do movimento de Cruzadas.

 

Aliás, os medievais dedicavam grande devoção ao Santo Sepulcro do Senhor, que os cronistas lhes apresentavam sujeito a vexames. Era tido como o maior santuário do mundo cristão, como o centro do universo, segundo os sermões e os noticiários da época.

 

É somente a partir de tais concepções, muito vivas e significativas para os medievais, que se podem entender as Cruzadas. Nenhum tipo de guerra moderna, nem mesmo a chamada "guerra santa" (jihad) dos muçulmanos, pode servir de ponto de referência para se entenderem a inspiração e a força motriz dos cruzados.

 

É mister, porém, reconhecer que as ideias religiosas dos primeiros expedicionários foram sendo, aos poucos, no decorrer de dois séculos, solapadas, de sorte que a imagem do cavaleiro que em seu fervor tomava sobre si a cruz para ir libertar o S. Sepulcro do Senhor, se foi modificando. É essa imagem posterior que muitas vezes predomina em certos tratados sobre as Cruzadas.

 

Breve percurso da história das Cruzadas se encontra em PR 167/ 1973, p. 338ss e em nosso Curso de História da Igreja, Módulo 31. Importa-nos aqui um balanço objetivo do que foram essas expedições.

 

3. Cruzadas: idealismo ou decadência?

 

3.1. Os motivos de duvidar

 

Quem leva em conta a história das Cruzadas, à primeira vista é levado a dizer que constituíram um fracasso ou até mesmo um contra-testemunho dos cristãos. Têm-se catalogado vários capítulos de censura aos cruzados: ambição, traição, vileza de costumes...

 

É interessante notar que não somente historiadores modernos denunciam falhas tais, mas também pregadores e cronistas medievais. Com efeito, no decorrer dos séculos XII e XIII, perguntavam por que Deus havia permitido a derrota deste ou daquele exército de seus servidores ou por que consentira na perda da Cidade Santa Jerusalém. - Em resposta, julgavam que o pecado devia ser a causa de tais insucessos; em consequência, apontavam uma série de faltas morais dos cruzados. Entre outras instâncias, o Concílio de Lião I em 1245 também fez advertências a procedimentos indignos dos cruzados; cf. Mansi, Conciliorum amplíssima collectio XXIII, p. 628.

 

À vista destes dados, dir-se-á que as Cruzadas representam um ponto negro da história medieval... Quem assim julgasse em bloco, seria unilateral ou mesmo injusto.

 

3.2. Quadro geral: apreciação

 

Não se pode deixar de sublinhar em primeiro lugar o que de positivo as Cruzadas representam.

 

Abstração feita de pessoas e episódios particulares, as Cruzadas têm sua inspiração fundamental na fé dos homens da Idade Média, no seu amor aos valores sagrados e no seu espírito cavaleiresco, corajoso e magnânimo.

 

A fé e o amor dos cristãos, na Idade Média, recorreram às armas para se exprimir concretamente... Hoje muitos cristãos hesitariam diante de tal expressão; seriam até propensos a condená-la. Atualmente os homens têm meios de confrontar suas divergências mediante reuniões, assembleias, concordatas; por isto rejeitam (ao menos em teoria...) as soluções violentas (na prática, porém, não faltam as guerras também em nossos dias, suscitadas pelos mais diversos motivos). Contudo na Idade Média as distâncias geográficas, culturais, filosóficas constituíam barreiras quase intransponíveis, que dificultavam aos homens a aproximação física e a superação de suas divergências; julgavam em muitos casos ter que recorrer às armas para preservar seus valores e garantir o bem comum. Assumir as armas em tais circunstâncias era tido como louvável; fugir delas mereceria censura.

 

Verdade é que o movimento das Cruzadas não conseguiu devolver aos cristãos, de maneira duradoura, a posse da cidade de Jerusalém e da Terra Santa em geral. Todavia ele se prolongou por dois séculos, à custa de ingentes sacrifícios, que revelam notável espírito de heroísmo. Sucessiva e tenazmente, as gerações de cristãos despertaram as suas energias para recomeçar a grande façanha que outros não haviam conseguido realizar plenamente. Assim deixaram eles à posteridade o testemunho de sua fé.

 

Não se poderiam silenciar outrossim os benefícios acarretados pelas Cruzadas no plano cultural e científico. O contato entre latinos, gregos (bizantinos) e árabes ocasionou incremento para a matemática, a medicina, a indústria, o comércio e outros ramos das atividades humanas; desenvolveu a navegação e modificou as condições econômicas da sociedade feudal. Em suma, preparou o grande surto das artes e das ciências ditas "exatas" nos séculos XV/XVI.

 

3.3. Fatores negativos

 

O entusiasmo que desencadeou as Cruzadas era mais idealista do que realista; os seus arautos não mediam a amplidão dos encargos e problemas que a execução concreta do programa devia acarretar. É o que explica que os cruzados, após haver obtido os seus primeiros resultados, tenham experimentado sucessivos reveses. Estes se devem a fatores vários, que podem ser assim enunciados:

 

1) A amplidão da tarefa empreendida pelos cruzados exigiu, com o passar do tempo, o recurso a subsídios novos e necessariamente heterogêneos, a saber:

 

- Os cavaleiros e outros cristãos que entusiasticamente se ofereciam para assumir a cruz, já não bastavam para o objetivo. Foi preciso recrutar soldados mercenários, que pugnariam não tanto por ideal cristão, mas, sim, por interesses pessoais, às vezes mesquinhos. Muitos desses mercenários eram antigos criminosos detentos, a quem se dava a liberdade à condição de que fossem lutar no Oriente. Ora compreende-se que tais soldados, vendo-se livres, facilmente voltavam aos maus hábitos e prejudicavam o conjunto da tropa. Assim foi sendo cada vez mais diluída a imagem do cavaleiro que galhardamente partia para a Terra Santa às próprias custas, porque amava o Senhor Jesus.

 

-As despesas com os soldados mercenários e seus equipamentos eram ingentes, exigindo dos responsáveis que procurassem angariar quantias de dinheiro jamais suficientes. Ora onde entra dinheiro, facilmente é excitada a cobiça do ser humano com suas paixões, que levam a abusos e desatinos.

 

Infelizmente não se tem documentação precisa sobre o montante das despesas exigidas por uma expedição de cruzados. Desejar-se-ia saber quanto cada soldado em média percebia, quanto os reis davam do seu erário e quanto o Papa empenhava nas sucessivas Cruzadas. Existem, sem dúvida, notícias a respeito. Todavia os diversos dados supõem épocas diversas, as quantias são expressas em moedas heterogêneas, as notícias são parceladas, de sorte que é difícil ter ideias claras do conjunto. Apenas as duas Cruzadas de S. Luís IX têm certa contabilidade escrita em livros; sabe-se, pois, que o total das despesas da campanha de 1247 a 1256 comportou 1.537.570 libras de Tours. Mesmo assim há dúvidas: outra documentação refere que somente nos anos de 1250 a 1253 a Cruzada consumiu 1.053.476 libras de Tours!

 

-   De modo particular, criou problemas o transporte das tropas para o Oriente. O meio mais indicado e preferido eram as embarcações, que atravessavam o Mediterrâneo. Ora até a quinta Cruzada os expedicionários não possuíam frota própria. Justamente a quarta Cruzada foi desviada para Constantinopla, porque, não tendo naves próprias, foi obrigada a valer-se das de Veneza, que procuraram servir aos seus interesses comerciais, e não aos dos cruzados. Tardiamente, sob Frederico II e Luís IX, os cruzados recorreram a equipamento marítimo próprio. Anteriormente, porém, tinham que utilizar os navios das cidades comerciantes da Itália ou da França (Veneza, Gênova, Pisa, Marselha...), que, em troca, exigiam para si direitos e privilégios nos portos da Palestina.

 

-   O vulto crescente das Cruzadas exigiu que a direção das mesmas fosse confiada a reis, príncipes e grandes senhores de terras, pois estes poderiam, mais facilmente do que os cavaleiros, organizar e sustentar exércitos de mercenários. Ora os reis e grandes senhores nem sempre se entendiam entre si; objetivos políticos e nacionalistas facilmente afrouxavam ou solapavam alianças previamente contraídas (levem-se em conta a primeira e a terceira Cruzada). - Notório é o caso de Frederico II da Alemanha, orientalista e diletante.

 

2) Também se apontam falhas morais no procedimento dos cruzados: rapina, abuso de mulheres e outros males, que já os pregadores e o Concílio de Lião I censuravam...

 

O historiador sincero há de reconhecer tais erros. Todavia não se deveria fazer dessas falhas a nota característica ou uma das notas características das Cruzadas. Elas ocorreram com os cruzados como geralmente ocorrem nas expedições militares. Todo soldado é sujeito a procurar suas "compensações" depois de haver sofrido os rigores da fome, da sede, do frio e de severa disciplina durante a respectiva campanha. Não poucos cruzados chegavam finalmente à costa da Palestina doentes, vítimas de febres, e facilmente aceitavam ser tratados em clima de moleza, bem-estar e gozo. - Nem por isto tais "compensações" são legítimas.

 

Numerosos outros episódios se poderiam ainda propor para analisar e comentar as Cruzadas. Em síntese, porém, parece que os principais traços das mesmas e do respectivo fundo de cena foram indicados nestas páginas.

 

Em suma, pois: recolocadas no seu contexto medieval, as Cruzadas não são mancha negra; mas, ao contrário, atestam (naturalmente segundo as categorias e possibilidades da época) a unidade e a homogeneidade dos povos da Alta Idade Média, que encontraram na sua fé - valor que eles não discutiam - o estímulo e o dinamismo para realizar façanhas heroicas, ao mesmo tempo marcadas pela virilidade, pela poesia e pelas limitações humanas...!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



([1]) Trata-se aqui de reconstrução da basílica do Santo Sepulcro após a destruição de Jerusalém pelos persas em 614.

[2] Alusão ao antigo templo de Salomão, transformado pelos árabes em mesquita de Omar.


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