PERGUNTE E RESPONDEREMOS 003 – março 1958

 

Dar a Outra Face

 

ARIEL (Rio de Janeiro): “Qual o significado autêntico da frase de Cristo ‘se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe a outra’?” (Mt 5,39)


De maneira geral, chama a nossa atenção o estilo do famoso sermão de Jesus sobre a montanha (
Mt 5-7): é muito vivo, visando penetrar e calar fundo na mente dos leitores mediante as suas imagens, os seus contrastes e aparentes paradoxos. Assim é que Jesus fala aos seus ouvintes de

- arrancar o próprio olho (5,29),

- amputar a mão direita (5,30),

- só dizer «Sim, sim; Não, não», pois ulteriores palavras seriam inspiradas pelo Maligno (5,36), entregar o manto a quem queira tirar a túnica (5,40), dar dois mil passos quando nos angariam para mil apenas (5,41), e

- apresentar a face esquerda a quem bata na direita (5,39).


O entendimento literal destas expressões teria feito dos discípulos de Jesus, logo no início do Cristianismo, um rebanho simplório, posto à mercê de todo aventureiro ou explorador; uma tal «prática do Evangelho» só faria promover o mal no mundo, dando ocasião a que ímpios e criminosos acabassem por sufocar a causa do direito, do amor e da verdade. As gerações cristãs, desde o início da nossa era, bem entenderam o sentido metafórico e hiperbólico das citadas frases de Mt 5-7; nunca se julgaram obrigadas, por fidelidade ao Evangelho, a se arrancar um olho, amputar a mão direita, entregar manto e túnica em mãos do ladrão, nem a apresentar a face esquerda a quem batesse na direita. Jesus mesmo deu a interpretação autêntica de suas palavras quando foi esbofeteado por um dos guardas da corte do Sumo Sacerdote judeu: não julgou necessário, nem mesmo conveniente, fazer-se espancar de novo, mas, mediante palavras serenas, procurou promover o bem do injusto agressor, pedindo-lhe tomasse consciência exata do motivo por que havia agido:


“Se falei mal, dá testemunho disto; mas, se falei bem, porque assim me bates ?” (
Jo 18,23).


Assim procedendo, o Senhor incutia o direito que toca a quem é injustamente acusado, de defender a sua causa e pôr às claras a verdade, a fim de que não seja deturpado o bem comum: «A resposta de Jesus deve servir de garantia aos acusados; é preciso que se lhes reconheça o direito de se defenderem e de responderem livremente» (M.-J. Lagrange, Evangile selon St. Jean, Paris 1936, 467).


Voltando ao texto de Mt 5,39, Braun assim comenta a atitude do Senhor:


«Responder tão tranquilamente, mas com tal firmeza, a um homem irado, diante do qual Jesus estava desarmado, isto era, na verdade, apresentar-lhe a outra face» (Evangile selon St. Jean, em «La Sainte Bible» de Pirot-Clamer X. Paris 1946, 458).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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