PERGUNTE e RESPONDEREMOS 042 – junho 1961

 

A ESCRITA AUTOMÁTICA OU PSICOGRAFIA

CIÊNCIA E RELIGIÃO

VIDENTE (Curitiba): «Os fenômenos de psicografia ou de escrita automática não seriam flagrantes testemunhos de que os espíritos baixam sobre determinadas pessoas?»

 

Acontece que certos «médiuns» em sessão espírita (ou mesmo fora desta) se põem a escrever mensagens como se fossem provenientes de um espírito desencarnado. O conteúdo surpreendente dessas comunicações (que por vezes revelam acontecimentos ocultos ou futuros), o estilo em que são redigidas e outras circunstâncias levam muitas pessoas a crer que realmente se trata de intervenções de espíritos que baixam sobre o respectivo «médium» e lhe movem a mão para escrever. Tal fenômeno se chama «escrita automática» ou «psicografia».

 

Allan Kardec e sua escola, dependentes dos conceitos de psicologia do século passado, têm essa manifestação na conta de uma das provas mais importantes de que, em verdade, existem espíritos desencarnados que se comunicam aos homens em sessões espíritas. A ciência moderna, porém explica a escrita automática por via meramente natural, como desencadeamento de um processo psicológico que dispensa por completo a interferência de «guias» do Além.

 

É o que verificaremos abaixo mediante breve consideração das três expressões de alma que geralmente concorrem para a produção da escrita automática: o automatismo psicológico, a percepção extrassensorial e o desdobramento da personalidade.

 

1. O automatismo psicológico

 

1.1. É fato averiguado que os nossos processos de conhecimento (quer realizados pelos sentidos, quer pela inteligência) provocam movimentos musculares correspondentes, dos quais geralmente não temos consciência. É a este fenômeno que se dá o nome de «automatismo psicológico».

Uma experiência bem clara comprova a afirmação:

 

Toma-se uma folha de papel branco sobre a qual se traça, um circulo O e duas linhas perpendiculares AOB e COD. Esta folha e colocada sobre uma mesa, ficando a linha AOB na direção esquerda-direita. A seguir, chega-se ao papel um observador portador de um pêndulo ou seja, de um fio a cuja extremidade inferior está preso um pequeno corpo pesado (e, se possível, brilhante); o observador deve-se conservar de pé, sem apoiar muito o cotovelo ao corpo. Sugere-se então a essa pessoa que concentre a sua atenção na linha AOB, deixe o pêndulo cair na direção do centro O, sem, porém, tocar o papel; procure outrossim com cuidado conservar o pêndulo imóvel, evitando oscilações do braço.

 

Verifica-se que, ao termo de alguns segundos ou, no máximo, de alguns minutos, o pêndulo começa a balançar na direção AB, percorrendo um arco que recobre toda a linha; a velocidade e a amplitude dessas oscilações tendem a aumentar, principalmente se o observador fizer esforço especial para se conservar mais e mais rijo ou imóvel.    

 

Uma vez obtidos esses resultados, sugerir-se-á à mesma pessoa pense na linha COD; se o paciente de fato obedece logo as oscilações AB diminuem de amplitude e velocidade; o pêndulo chega mesmo a um momento de repouso, para, sem demora, recomeçar a balançar, dessa vez no sentido COD!

 

Em uma terceira experiência, pede-se ao indivíduo, concentre a sua atenção no círculo O; observará que, em breve, o pêndulo estará percorrendo a periferia desse globo. Se, por fim, o observador se decidir a fazer todos os esforços para imobilizar o fio pendente, vera que toda a sua luta só servirá para ativar a movimentação do instrumento. Se, ao contrário, deixar de se empenhar por deter o pêndulo, não se importando com as oscilações respectivas, o objeto em breve recuperará sua estabilidade inicial.

 

Estas experiências bem mostram que as nossas atividades mais profundas e secretas de concentração e raciocínio podem, sem que o saibamos, desencadear na superfície do corpo e no nosso próprio ambiente movimentos que parecem inexplicáveis... (inexplicáveis simplesmente pelo fato de não termos consciência da relação que existe entre a referida atividade interna e as oscilações externas).

 

De resto, repetidas experiências no mesmo setor de pesquisas evidenciaram que, mediante concentração do pensamento, se podem obter movimentos musculares e nervosos assaz complexos.

 

Digamos agora que o operador, em vez de tomar um pêndulo, se sirva de um lápis, uma pena ou um estilete qualquer, para exprimir os movimentos musculares desencadeados pela sua atividade mental. A consequência será bem compreensível: com tal instrumento, o indivíduo começará a escrever, e escreverá algo referente ao objeto para o qual sua atenção está voltada; essa escrita exprimirá naturalmente os raciocínios e também as divagações da fantasia do escritor; conhecimentos, imagens e afetos contidos na subconsciência ou nas profundidades da alma virão assim à tona, provocando surpresa e admiração tanto no sujeito como nos seus observadores.

 

Eis um primeiro passo dado para explicar o fenômeno da psicografia: pode alguém pôr-se a escrever por efeito automático e inconsciente de concentração de pensamento ou de atenção dispensada a algum objeto.

Demos agora novo passo.

 

1.2. Sabe-se que os processos de automatismo psicológico acima referidos podem ser provocados não somente por concentração do pensamento empreendida voluntariamente pelo operador, mas também por sugestões inconscientemente recebidas de fora, sugestões fortes, capazes de motivar um comportamento totalmente novo da parte do paciente; outrossim por irrupção imprevista de conhecimentos latentes na subconsciência do individuo.

Vejamos de perto o alcance de cada uma dessas três causas:

 

1.2.1. Concentração voluntária da atenção sobre determinado objeto. Era esta a causa que no referido exemplo do pêndulo provocava as oscilações do objeto.

 

No setor da psicografia, verifica-se o seguinte: há certas pessoas particularmente vibráteis e sugestionáveis, às quais basta sentar-se a uma mesa, pegar um lápis, colocar a mão sobre uma folha de papel e deter seu pensamento sobre determinado assunto, para que se ponham a discorrer por escrito sobre esse assunto. Não é necessário que pensem em escrever determinada frase; é-lhes suficiente conceber a idéia de escrever alguma coisa...; tomem, a seguir, uma atitude meramente passiva, e sua mão começará realmente a escrever. Muito menos será necessário que tais pessoas sejam colocadas em estado de transe ou de sono hipnótico. Na maioria dos casos, as referidas pessoas, ainda que se achem acordadas, vão escrevendo sem saber o que estão escrevendo.

 

Os indivíduos que têm temperamento tão vibrátil, podem cultivar esse dom, tornando-se cada vez mais capazes de exprimir automaticamente o que lhes vai no fundo da consciência e da subconsciência. É esse cultivo que em linguagem espírita se chama «desenvolvimento da mediunidade».

A segunda causa de automatismos vem a ser

 

1.2.2. Sugestões inconscientemente recebidas de fora e assimiladas pelo paciente. Essas sugestões podem ter influência extraordinária, seja positiva (impelindo a agir), seja negativa (inibindo o sujeito). Para obter automatismos de tal espécie, não é necessário provocar, no paciente, estado de hipnose: a certas pessoas, particularmente vibráteis, basta que se lhes dê a conhecer com algumas minúcias e alguma motivação, o nome e o estilo de algum escritor bem caracterizado; a seguir, caso se lhes sugira, em circunstâncias apropriadas, que elas são realmente tal escritor, passam a escrever de acordo com o estilo e as demais características do mencionado autor.

De resto, o próximo número de «P.R.» apresentará uma resposta sobre a força da sugestão.

Deve-se mencionar outrossim, como causa de automatismos,

 

1.2.3. A irrupção espontânea de conhecimentos latentes na subconsciência do indivíduo. Tal irrupção se dá principalmente quando a pessoa sofre grave choque ou traumatismo psíquico, seja por efeito de uma notícia abaladora, seja por motivo de hipnose ou transe. Então, com muito mais facilidade do que no estado de vigília e de domínio de si, vêm à tona da consciência noções contidas habitualmente em estado latente na subconsciência; essas noções, que o paciente adquiriu talvez por meio de leituras, conversas ou observações dos anos de infância e que nunca mais utilizou desde tão remota época, afloram à consciência, associando-se livremente entre si e induzindo a pessoa a narrar histórias estranhas, visões, «revelações»...; a associação de idéias e imagens faz-se então desimpedidamente porque está cancelada a censura que a pessoa habitualmente exerce sobre si mesma quando se acha consciente.

 

Estas observações concorrem, sem dúvida, para explicar a índole maravilhosa de certos casos de psicografia. Mas ainda não bastam para dar conta do fenômeno em toda a sua extensão. Será preciso considerar outra fonte de automatismos (mais nova no conhecimento dos estudiosos e ainda mais surpreendente), que é a chamada

 

2. Percepção extrassensorial

 

2.1. As três causas de automatismos até aqui enunciadas supõem que a pessoa só manifeste noções que ela pode ter adquirido pelas vias normais de conhecimento, seja em idade adulta, seja nos primeiros anos de vida. É grande o número de idéias que guardamos em nossa subconsciência sem fazer uso delas; chega mesmo constituir 7/8 dos nossos conhecimentos. Em outros termos: habitualmente só lidamos com uma oitava parte das noções que adquirimos desde os anos da infância; 7/8 ficam armazenados, latentes, em nosso subconsciente.

 

Há, porém, inegavelmente casos nos quais a pessoa, em psicografia, escreve notícias plenamente verídicas que, de certo, não pôde adquirir por alguma das vias comuns e que, por isto, parecem ser testemunho irrefragável de que um espírito do Além, baixando sobre o médium, as quis revelar.

 

É o que se dá, por exemplo, quando alguém, em mensagem psicografada, comunica aos seus companheiros de sessão que Fulano acaba de sofrer grave acidente de automóvel ou está morto em localidade muito distante, sem que se tenha podido de modo algum prognosticar a desgraça.

Como explicar tal fenômeno pelas faculdades naturais de conhecimento de que dispõe a alma humana?

 

Os estudiosos modernos, dispensando o recurso a espíritos do Além, apelam para a «percepção extrassensorial» (também dita «fenômeno psi-gama»). Trata-se de um tipo de conhecimento que não é o dos cinco ou seis sentidos habitualmente utilizados por nós e que chega a ultrapassar as limitações que o espaço (as distâncias) e o tempo (o passado e o futuro) impõem aos sentidos.

E como se poderia provar que de fato existe tal percepção e que ela está contida dentro das potencialidades naturais da alma humana ?

 

A investigação dos fenômenos de percepção extrassensorial se deve principalmente a J.B. Rhine, professor da Universidade de Duke nos Estados Unidos da América. Eis, em rápidos traços, a experiência clássica empreendida e milhões de vezes repetida pelos estudiosos neste setor (desenvolvemos aqui aspectos do mesmo assunto já tratado em «P.R.» 13/1959, qu. 8):

 

Toma-se um baralho (dito «de Zener») constituído por cinco séries de cinco cartas cada uma, sendo cada série dotada de um símbolo próprio: respectivamente cruz, estrela, quadrado, círculo e linhas onduladas. Estas 25 cartas são bem baralhadas por meio de aparelho especial, de modo a ficarem numa ordem totalmente fortuita. Feito isto, o operador pede a um percipiente colocado atrás de uma cortina ou mesmo em outra sala ou casa, queira indicar sucessivamente os símbolos das cartas, observando a ordem em que estão amontoadas sobre determinada mesa; todas as vezes que o percipiente enuncia uma carta, tomam-se as medidas necessárias para que não chegue a saber se respondeu certo ou não. Em tais condições, é óbvio que a pessoa tem em cinco lances uma probabilidade de acertar e, em 25 lances, cinco probabilidades.

 

Aumentando-se o número de provas, a média de acertos pelo cálculo das probabilidades guardará sempre a proporção de 1/5.

 

Pois bem; na prática verifica-se que o número de casos de acerto ultrapassa esta cota,... e ultrapassa tão notoriamente que o excesso já não pode ser explicado pelas oscilações que as leis da probabilidade admitem; em consequência, os estudiosos foram levados a admitir, dentro da natureza humana, uma autêntica faculdade de conhecer que não é a dos sentidos e que recebe o nome de «via ou faculdade extrassensorial».

 

Eis alguns dos resultados obtidos. Em seu primeiro livro, «Extra-Sensory Perception», de 1934, Rhine afirmava que, numa série de 700 experiências complexas, o mesmo percipiente acertara na proporção de 8/25, em vez de 5/25 (portanto com um excesso de 3, correspondente a mais de 50% do que se esperaria).

 

De 1934 a 1940, a escola de Rhine realizou 2.966.348 ensaios de tal tipo; os resultados obtidos sempre se avantajaram consideravelmente sobre aquilo que se podia aguardar. As cifras mais impressionantes foram alcançadas pelo Prof. B.F. Riess, do «Hunter College» de Nova Iorque. Experimentador e percipiente colocaram-se em prédios diferentes, sendo no caso utilizados relógios sincronizados. O dr. Riess dava ao «adivinhador» um minuto para enunciar cada carta. As séries de lances foram repetidas num total de 74 ensaios; ora em um destes ensaios o percipiente acertou todas as cartas; em outros, acertou mais de 20, obtendo a média geral de 18 acertos (em lugar dos cinco previstos pelo cálculo das probabilidades).

 

Para não nos alargarmos, citamos aqui a conclusão que dos fatos deduziram os cientistas reunidos no 1º Colóquio Internacional de Parapsicologia em Utrecht (Holanda) no ano de 1953, sob a presidência do Prof. H. Price, da Universidade de Oxford. Diante de 62 congressistas (físicos, químicos, médicos, engenheiros, psicólogos, psicanalistas, etc.) provenientes de 14 países, declarou o Dr. Thouless, psicólogo de Cambridge:

 

«Juntando-se ao conjunto dos testemunhos já recolhidos, as recentes experiências de Rhine, de seus colaboradores, de Soai, de Tyrrell e de W. Carington fazem desaparecer toda dúvida tanto sobre a realidade do fenômeno (psl-gama) como sobre a possibilidade de o demonstrar por métodos experimentais... As provas em favor da realidade do fenômeno são agora tão decisivas que somente a ignorância dos resultados experimentais pode explicar o ceticismo».

 

Uma vez admitida a realidade de uma faculdade de conhecer natural à alma humana e independente dos cinco ou seis sentidos, pergunta-se, em vista de elucidar o fenômeno mesmo da psicografia: como, em que circunstâncias, se exerce essa potencialidade da alma ? Eis o que as experiências permitem dizer em resposta:

 

a) A percepção extrassensorial parece independente das limitações do espaço. Com efeito, as experiências de Rhine foram instituídas até mesmo entre indivíduos colocados em cidades e em continentes diversos (a mais significativa registrou-se entre um grupo de estudiosos situados na Universidade de Duke dos Estados Unidos e o Dr. Marchesi, que se achava em Zagreb na Iugoslávia, a uma distância de mais de 6.000 km). Tais ensaios deram a ver que os obstáculos materiais, como paredes, montanhas, etc., não afetam os resultados das experiências nem dificultam o conhecimento extrassensorial. Doutro lado, não se pode dizer que vínculos físicos, como fios de ligação entre o operador e o percipiente, facilitem a percepção.

 

b) A percepção extrassensorial é independente também das categorias de tempo (passado, presente e futuro). Com relação aos acontecimentos do passado e do presenteias experiência de Rhine não deixam dúvida de que eles estão dentro da alçada do conhecimento extrassensorial: as pessoas testadas pelos estudiosos mostraram ter conhecimento preciso de fatos acerca dos quais elas não podiam normalmente colher informações nem no momento passado em que ocorreram, nem no instante presente em que elas davam a respectiva notícia.

 

Mais surpreendente ainda é a predição de acontecimentos futuros. Usando-se o baralho de Zener, por exemplo, alguns percipientes foram convidados a anunciar o tipo de carta que seria tirada 24 h mais tarde; ora a proporção de acertos, também em tais casos, ultrapassou de longe a expectativa, chegando-se a calcular que resultado igual por via do acaso só poderia ser obtido em 1035 experiências.

 

Outro exemplo muito significativo é o que narra o Prof. W.H.C. Tenhaeff, da Universidade de Utrecht (Holanda):

«No dia 17 de janeiro de 1952 mostrei ao Sr. Croiset uma sala de Rotterdam, na qual devia realizar-se uma reunião no dia 20 de janeiro. Nessa sala havia trinta lugares. Perguntei ao Sr. Croiset quem haveria de assentar-se, no dia 20, no assento no 18. Este número fora escolhido ao acaso, por sorte. Depois de alguns instantes, o Sr. Croiset me disse que não recebia nenhuma impressão e pediu que indicasse outro assento. Foi o que fiz. Revelou então Croiset que nesse outro lugar se sentaria uma senhora com cicatrizes na face, em consequência de um acidente automobilístico sofrido durante uma temporada na Itália. Em relação a esta senhora, veio-lhe à mente a «Suonata al chiaro di luna». No dia 20 de janeiro, às 20,45 h, verificou-se que dos 28 convidados à reunião haviam comparecido apenas 27 e precisamente o lugar no 18 estava desocupado. No lugar previsto por Croiset assentou-se a senhora de um médico. Tinha cicatrizes no rosto, resultados de um acidente de automóvel na Itália, durante as férias. Seu marido informou que, de fato, a «Suonata al chiaro di luna» incomodava muito a senhora, porque se associava a uma questão íntima de sua vida».

 

O Prof. Hans Bender, da Universidade de Friburgo (Alemanha), fez experiências igualmente surpreendentes com o mesmo percipiente holandês, Gerard Croiset; cf. H. Bender, Parapsychologie, Ihre Ergebnisse und Probleme. Bremen 1954, pág. 31.

 

b) A percepção extrassensorial é comum a todos os homens. Em uns, porém, apresenta-se mais aguçada ; em outros, menos. Nada tem de patológico ou anômalo. Rhine apenas verificou que os melhores resultados foram obtidos em pessoas de temperamento mais emotivo e intuitivo; acentuado rigor intelectual e exacerbado espírito crítico dificultam tal modalidade de conhecimento. Por isto, de modo geral, as mulheres são melhores percipientes do que os homens e as crianças, melhores que os adultos.

 

c) O conhecimento extrassensorial pode ser favorecido por fatores extrínsecos. Observa-se que tem grande importância positiva uma atitude de confiança do percipiente em suas faculdades; espontaneidade e alegria muito valem no caso, ao passo que constrangimento e pessimismo inibem; por isto, pequenas doses de ingredientes que despertam o ânimo, favorecem a percepção extrassensorial, enquanto drogas deprimentes a sufocam. Certa concentração do percipiente sobre o objeto a ser percebido é necessária; demasiada concentração, porém, torna-se prejudicial. Verifica-se também que no mesmo indivíduo o vigor da percepção extrassensorial vacila bastante de um dia para outro ou até de momento para momento; a repetição frequente das experiências parece cansar a faculdade de perceber extrassensorialmente, acabando mesmo por sufocá-la. Esta foi uma das conclusões mais decepcionantes a que chegaram os experimentadores. — Doutro lado, consta que a índole pessoal do operador também tem sua influência na produção do fenômeno; dois experimentadores podem obter resultados bem diversos com um mesmo percipiente.

 

Os estudiosos ainda não se podem pronunciar com muita precisão sobre a percepção extrassensorial. Contudo o que hoje em dia se sabe sobre tal assunto já é suficiente para explicar em termos científicos os casos de psicografia que, por suas mensagens proféticas ou surpreendentes, parecem depender da inspiração de espíritos provenientes do Além.

 

Recapitulando tudo quanto acaba de ser exposto, conclui-se que as noticias psicografadas, quando têm aspecto maravilhoso:

-  ou são conhecimentos adquiridos normalmente pelo paciente em época muito remota e guardados em estado latente na subconsciência, de modo que, quando são projetados mediante a devida provocação, parecem totalmente novos ao sujeito mesmo e aos seus observadores,

- ou são conhecimentos adquiridos por via extrassensorial na ocasião mesma em que o paciente os profere por escrito, impelido pelo correspondente automatismo ou movimento muscular.

 

Ainda para explicar os fenômenos de psicografia, faz-se mister levar em conta um terceiro elemento, que, com o automatismo e o conhecimento extrassensorial, dá conta adequada dos casos de escrita automática. É o chamado

 

3. Desdobramento da personalidade

 

É fato comumente aceito que todo estado de consciência tende a tomar uma forma pessoal, ou seja, a se afirmar como estado de determinado sujeito ou «eu». Ora, quando um sujeito normal é afetado por conhecimentos que lhe parecem novos ou estranhos (provenientes do subconsciente ou da percepção extrassenorial), ele não se reconhece mais; por isto, tende a atribuir tais conhecimentos a um outro «eu», ou seja, tende a afirmar que dentro dele há uma outra personalidade, responsável pelos efeitos que surpreendem o «eu» normal ou consciente; essa nova personalidade chega mesmo a ser designada por um nome próprio, que, conforme o espiritismo, é o apelativo do «espírito guia» ou do espírito desencarnado que baixa sobre o médium a fim de o inspirar. Tal fenômeno é chamado «personificação» ou «desdobramento da personalidade». — Todavia, como bem se vê, essa mudança ou duplicação da personalidade não vem a ser senão mudança de estado da mesma alma ou variação do modo de agir de tal alma; ha verdade, o «eu» substancial, substrato das várias atividades psíquicas, fica sendo sempre o mesmo.

 

Estas observações já bastam para dar a ver que a escrita automática de modo nenhum constitui comprovante da doutrina espírita. À luz da ciência de nossos dias, é fenômeno que se reduz perfeitamente às potencialidades naturais da alma humana (é fenômeno «anímico», dir-se-ia em linguagem espírita), tornando-se então vã ou fantasista a hipótese de intervenções do Além.

 

Apêndice

 

À guisa de complemento e espécime, segue-se uma mensagem psicografada, ... e psicografada pelo famoso médium Francisco Cândido Xavier, de Pedro Leopoldo (MG); constitui o conteúdo do livro «Nosso Lar», pretensa revelação do espírito «André Luis» a Francisco (Chico) Xavier. — Tais noticias, lidas com imparcialidade, longe de sugerir o transcendente e o espiritual, apresentam-se profundamente marcadas pelas notas de banalidade e vã imaginação.

 

«André Luís» seria o pseudônimo «que encobre a personalidade de distinto médico patrício desencarnado no Rio de Janeiro». Relata na obra «Nosso Lar» uma série de acontecimentos ocorridos desde a morte carnal de André Luis até o ingresso deste, a titulo de genuíno cidadão, na colônia espiritual chamada «Nosso Lar».

Imediatamente depois da separação do corpo (morte), o espírito, já desencarnado, do dito médico passou por um período assaz difícil, confuso e desorientado, sempre vagueando, sem saber por onde nem para onde. «Persistiam — conta ele — as necessidades fisiológicas, sem modificação. Castigava-me a fome todas as fibras, e, nada obstante o abatimento progressivo, não chegava a cair definitivamente em absoluta exaustão. De quando em quando, deparavam-se-me verduras que me pareciam agrestes, em torno de humildes filetes d'água a que me atirava sequioso. Devorava as folhas desconhecidas, colocava os lábios à nascente turva, enquanto mo permitiam as forças irresistíveis, a impelirem-me para frente. Muita vez suguei a lama da estrada, recordei o antigo pão de cada dia, vertendo copioso pranto. Não raro era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos, que passavam em bando, quais feras insaciáveis...» (pág. 17).

Essa peregrinação durou oito anos... Finalmente André Luís encontrou outro espírito, Clarêncio, «um velhinho simpático que sorriu paternalmente» e se apoiava num cajado de substância luminosa. Foi então transportado. Pararam «à frente de grande porta encravada em altos muros, cobertos de trepadeiras floridas e graciosas» (pág. 20). Acomodaram-no num leito de emergência, «no pavilhão da direita». Viu-se então num confortável aposento, «ricamente mobiliado». Serviram-lhe «caldo reconfortante, seguido de água muito fresca», portadora «de fluidos divinos». À noite ouviu «divina melodia». Levantou-se e chegou a enorme salão, «onde numerosa assembleia meditava em silêncio». Soube que era a hora da oração, dirigida pelo governador, através do rádio e da televisão, «com processos adiantados».

No dia seguinte, encontrou-se com o «irmão Henrique de Luna», do Serviço de Assistência Médica daquela Colônia Espiritual. Soube então que, só naquela secção, «existiam mais de mil doentes espirituais». Examinado, recebeu o seguinte diagnóstico : «A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com vestígios muito exatos de câncer; a região do fígado revela dilacerações; a dos rins demonstra características de esgotamento prematuro» (pág. 30). Recebeu como remédios passes magnéticos.

Um dia foi passear. «Quase tudo, melhorada cópia da Terra. Cores mais harmônicas, substâncias mais delicadas. Forrava-se o solo de vegetação... Aves de plumagens policromas cruzavam os ares.... Identificava animais domésticos» (pág. 38). Viu «vastas avenidas, enfeitadas de árvores frondosas». Entidades numerosas iam e vinham...

Afinal soube que estava numa das muitas Colônias espirituais. Aquela chamava-se «Nosso Lar», consagrada ao Cristo (pág. 22) e fundada por portugueses distintos, desencarnados no Brasil no séc. XVI, segundo constava dos «arquivos do Ministério do Esclarecimento» (pág. 47). A Colônia era dirigida por um Governador (que naqueles dias comemorava o 114o aniversário de governança), assistido por 72 colaboradores. Dividia-se em seis ministérios, orientados cada qual por doze ministros: o Ministério da Regeneração, o do Auxílio o da Comunicação, o do Esclarecimento, o da Elevação e da União Divina... É no Ministério do Auxilio que preparam as «reencarnações terrenas». Havia na Colônia «mais de um milhão de criaturas» (pág. 207).

No passado, a Colônia teve que enfrentar muitas tribulações. Houve maus governos, com muita oposição, inclusive assaltos por parte de outros espíritos, «que tentaram invadir a cidade, aproveitando brechas nos serviços de Regeneração, onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino» (pág. 48). Mas o governador «mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade, para emissão dos dardos magnéticos» (pág. 49).

Um dia foi de aeróbus ao bosque das águas,. Era um «grande carro, suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros» (pág. 50). Outro dia visitou uma casa particular: «Móveis quase idênticos aos terrestres». Quadros, pianos, livros. Com relação aos livros, recebeu a seguinte informação: «Os escritores de má fé, os que estimam o veneno psicológico, são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral». Havia também uma sala de banho. Ao almoço serviram «caldo reconfortante e frutas perfumadas, que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos» (pág. 86).

Também o problema da propriedade recebera sua solução. «Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho. O bônus-hora, no fundo, é o nosso dinheiro. Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons». Cada família espiritual pode conquistar um lar (nunca mais que um), «apresentando trinta mil bônus-hora» (pág. 100).

Em «Nosso Lar» existe também o Serviço de Recordações. Aplicam-se passes no cérebro, que restituem «trezentos anos de memória integral» (pág. 103).

Certa vez, André Luís encontrou um ancião, gesticulando, agarrado ao leito, como se fosse louco, gritando por socorro, pedindo ar, muito ar! O homem estava sendo vítima de uma «carga de pensamentos sombrios, emitidos pelos parentes encarnados» (pág. 127). Recebeu então passes de prostração. Há também «água magnetizada» e «operações magnéticas» (pág. 136).

Num daqueles dias apareceu na Colônia uma católica desencarnada na Terra. Chegou, benzendo-se e dizendo: «Cruzes ! Credo ! Graças à Providência Divina, afastei-me do purgatório...» Revelou que, na Terra, fôra mulher de muito bons costumes, rezara incessantemente e deixara uns dinheirinhos para celebração de missas mensais; em suma, fizera o possível para ser boa católica. Confessara-se todos os domingos e comungara. Mas maltratava os escravos. «Padre Amâncio, nosso virtuoso sacerdote, disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo, nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro». Morrera em 1888 e só em 1939 alcançara o «Nosso Lar». Fôra longo seu «esforço purgatorial» (pág. 164).

Num domingo, o governador resolveu realizar o «culto evangélico» no Ministério da Regeneração. Havia meninos cantores das escolas de Esclarecimento, que cantavam o hino «Sempre contigo, Senhor Jesus», executado por duas mil vozes. Depois de outra cerimônia do culto evangélico, entoaram o hino «A Ti, Senhor, nossas vidas». No fim, a Ministra Veneranda introduziu a melodia «A Grande Jerusalém» (pág. 208).

Tal é o «Nosso Lar».

 

Em outros volumes psicografados, André Luis continua a descrever a vida e a atividade do mundo «depois da morte», mantendo-se sempre nesse estilo.

 

Ora bem parece que não é o Além, mas um «Aquém» confuso e imaginário que a mensagem descreve. Assim se desvenda o mistério da psicografia...

(O trecho acima foi transcrito da obra de B. Kloppenburg, O Espiritismo no Brasil. Petrópolis 1960, pág. 251-253).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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