PERGUNTE e RESPONDEREMOS 043 – junho 1961

 

A SUGESTÃO E SUAS INFLUÊNCIAS

CIÊNCIA E RELIGIÃO

LEITOR AMIGO (Volta Redonda): «Hoje em dia muito se fala da força da sugestão... Haverá base real para atribuir tão amplos poderes à sugestão?»

 

A fim de avaliar devidamente o significado das sugestões na vida cotidiana, desenvolveremos primeiramente o conceito de sugestão; a seguir, examinaremos as influências precisas que esta pode ter no comportamento de uma pessoa; formularemos, por fim, algumas conclusões práticas da exposição.

 

1. O conceito de sugestão

1.     Partamos de um fato óbvio: há certos agentes que, ao se exercerem sobre o nosso organismo, provocam da parte deste uma reação espontânea, totalmente independente da nossa consciência e da nossa vontade: assim o aumento de temperatura do ambiente provoca a secreção de suor; o frio suscita arrepios; a consideração de alimento excita a produção de saliva, etc. Tais reações são chamadas «movimentos reflexos» (desencadeados pelo sistema nervoso), e «reflexos incondicionados», porque não dependentes de intervenção da vontade do paciente; são instintivos, imediatos, naturais.

2.     Admita-se agora que, juntamente com um excitante natural ou não condicionado, exerça sua ação sobre o organismo de determinado indivíduo um excitante indiferente e arbitrário.

Exemplificando: digamos que, ao mesmo tempo que se apresenta um pedaço de carne a um cão, se faça soar o toque de uma campainha; o cão reage naturalmente insalivando a boca, sob a ação tanto do excitante absoluto e natural (a apresentação da carne) como do excitante indiferente (o toque de campainha, o qual por sua natureza mesma não tem relação com a saliva na boca).

Ora por repetição da experiência verifica-se que aos poucos o organismo estabelece uma relação entre o estímulo indiferente (toque de campainha) e a reação natural (insalivação da boca), de modo que, mesmo sem apresentação de carne, o som da campainha passa a provocar a secreção de saliva no animal (como se o som da campainha tivesse o odor e o sabor de carne). Tal reação é chamada «movimento reflexo condicionado», porque é algo de convencional, dependente de aprendizagem.

O estímulo indiferente que, por efeito de treinamento, se torna capaz de desencadear determinada reação biológica, é chamado «estímulo sinal» ou simplesmente «sinal»; tais são certos sons, toques, efeitos luminosos..., que provocam reflexos condicionados tanto no homem como nos animais irracionais.

3.     Note-se agora que no homem, ser inteligente, o sinal pode ser substituído por um som de voz articulado, isto é, por uma palavra. Esta tem então a função de despertar na mente do ouvinte a idéia do sinal convencional, o qual, por sua vez, provoca o reflexo condicionado; a palavra, em consequência, é tida como «sinal de sinal» ou como «signo-sinal».

Desenvolvendo o exemplo citado, digamos o seguinte: em vez de fazer soar a campainha provocadora de saliva, pronuncie-se aos ouvidos de um homem a simples palavra «campainha», sem o acompanhamento de toque metálico algum... Estas poucas sílabas «campainha» vão então suscitar na imaginação do ouvinte o som mesmo da campainha; e este som imaginário, a seu turno, vai produzir a insalivação da boca.

Pois bem, a palavra destinada a produzir tais efeitos é a que se chama «palavra de sugestão» ou «a sugestão». — A esta altura é preciso frisar bem que a ação da sugestão fica de todo inconsciente e independente da vontade do sujeito que reage.

4.     Demos mais um passo na explanação do assunto: para obter tal reflexo, não é necessário nem mesmo que se pronuncie o vocábulo «campainha»; pode; ser suficiente que o operador, em silêncio, mostre uma campainha ou (o que é menos ainda) uma imagem de campainha ao paciente; então a insalivação se seguirá automàticamente...

5.     E, por fim, note-se ainda: pode bastar que o próprio indivíduo sozinho, por sua iniciativa, pense na campainha, no som desta ou na palavra «campainha». Sofrerá igualmente o efeito do reflexo condicionado. Tem-se, em tais casos, o que se chama a «autossugestão», a qual depende de mera imagem mental, dispensando a ação de qualquer estímulo do exterior.

 

Ora o setor da autossugestão é vastíssimo; a ocorrência deste fenômeno é muito mais frequente do que comumente se julga.

 

Verifica-se, com efeito, em muitos casos de doença ou de comportamento patológico, a pessoa reage como doente porque, por convenção meramente arbitrária e subjetiva, imagina coisas que provocam no seu organismo reações biológicas anormais ou doentias; para curar-se, é então necessário e suficiente que não queira comportar-se como doente e reaja energicamente contra a autossugestão.

 

A autossugestão tem lugar outrossim em muitos casos de cura obtidos por meios irracionais não científicos (como no curandeirismo, em sessões espíritas, em sessões pentecostais, etc.); cf. «P.R.» 32/1960, qu. 2. Também muitos e muitos dos fenômenos surpreendentes do espiritismo provêm do fato de que a assembleia na sessão está inconscientemente sugestionada: várias das pessoas participantes estão, como se diz, «sinalizadas» mesmo sem o saber, ou seja, estão em condições psicológicas de expectativa tais que reagirão de determinado modo (entrando em transe, em contorções automáticas, bebendo ou fumando além de qualquer medida razoável, etc.), por efeito de cenário solene, diálogos, ritos, música, batuque, cantos e danças prolongadas durante horas a fio (é em geral à alta noite, já estando bem adiantada a sessão, que «os espíritos baixam» e se verificam as convulsões e outros fenômenos portentosos).

 

É precisamente ao alcance ou aos efeitos da sugestão que vamos agora de maneira explícita voltar nossa atenção.

 

2. Efeitos da sugestão

 

A escola do cientista russo I. Pavlov dedicou-se, de modo particular, ao estudo dos reflexos condicionados, possibilitando importantes conclusões no setor da sugestão.

Eis três das principais:

 

1) Por via de sugestão podem-se provocar efeitos que não se obteriam pelo esforço da vontade.

Na verdade, certas funções do organismo humano, ainda que escapem ao controle da vontade, são influenciadas por sinais ou palavras de sugestão: distúrbios gástricos, úlceras, reumatismo, artrites, asma, enxaquecas, hemorragias espontâneas, urticárias, verrugas e outros males funcionais podem ser submetidos a tratamento de sugestão com notáveis resultados positivos.

 

Pode acontecer mesmo que a sugestão neutralize por completo os efeitos de um estímulo natural assaz intenso. É o caso, por exemplo, do paciente ao qual, em estado de sono, o experimentador dê a beber uma solução concentrada de açúcar, sugerindo-lhe: «É água destilada»; já aconteceu que, em consequência da poção, o conteúdo de açúcar no sangue não somente não se tenha aumentado, mas no início da experiência tenha chegado a diminuir. Vice-versa, verificou-se que água pura apresentada como bebida açucarada provocou excesso de açúcar no organismo.

 

Algo de análogo se registra no uso de bebidas alcoólicas. Forte dose de álcool, oferecida explicitamente como se fosse água destilada, não produziu, em muitos casos, efeito algum da embriaguez; ao contrário, água pura, apresentada como bebida alcoólica, produziu estado de embriaguez, chegando o eletrocardiograma do paciente a acusar modificações correspondentes à ação do álcool no organismo. Também os efeitos da morfina puderam ser neutralizados pela sugestão da palavra (dados publicados por K. Platonov, na obra «A Palavra como Fator Fisiológico e Terapêutico». Moscou 1958).

 

2)    As sugestões têm influência mesmo em estado de vigília do paciente e em pessoas aparentemente indiferentes à sugestão.

 

O efeito da sugestão, portanto, não depende de hipnose ou de estado de transe provocado; a sugestionabilidade também não é necessário indício de estado patológico nem de exígua capacidade intelectual (debilidade mental); pode registrar-se em toda e qualquer pessoa normal, sendo que indivíduos aparentemente refratários à sugestão vieram a mostrar, no decorrer das experiências, notável receptividade.

 

3)    A sugestão feita por meio de sinais convencionais (ou indireta) pode ser ainda mais eficaz do que a sugestão expressa pela palavra (ou direta).

 

Os estudiosos estabeleceram mesmo o seguinte princípio: «A sugestão é tanto mais penetrante quanto mais dissimulada ou indireta». É nessa dissimulação que, em parte, reside o estranho poder dos mistificadores.

 

Compreende-se bem tal conclusão: a palavra direta, transmitindo do seu modo uma ordem ou um imperativo, pode instintivamente provocar no ouvinte uma atitude de reserva ou de defesa. Ao contrário, os sinais aparentemente neutros ou não inspirados por uma atitude de chefe (como passes, «águas fluídicas», rituais de benzedeiros...) deixam o paciente muito mais propenso a crer na intervenção da Divindade ou muito mais aberto à ação dos estímulos e da sugestão. Consta por experiência que muitas pessoas nas quais a sugestão direta (a palavra de conselho ou de comando) nenhum efeito teve, se deixaram levar pela sugestão indireta (isto é, pela apresentação de um objeto simbólico ou a aplicação de um ritual).

 

Quanto aos milagres que os fiéis católicos dizem obter por sua fé e suas preces, sabemos que a Igreja faz questão de averiguar se não são meros efeitos de sugestão. Daí o rigoroso exame psicológico e médico a que Ela os submete antes de se pronunciar sobre o valor religioso de tais portentos. Cf. «P. R.» 11/1958, qu. 1.

 

Múltiplas e importantes são as consequências práticas do que acaba de ser dito. Interessa-nos aqui focalizar de modo especial três dentre elas.

 

3. Aplicações concretas

 

Consideremos abaixo algo referente a médicos, a pais e educadores, concluindo com uma aplicação de interesse geral.

 

a)    Médicos. Diz-se, com razão, que todo médico, no contato com os seus doentes, vem a fazer, direta ou indiretamente, o papel de psicoterapeuta. Sim; ao conversar com o paciente (às vezes pela simples entonação de voz, outras vezes por seus gestos apenas), o médico se torna, quiçá sem o perceber, um sugestionador, muito apto a animar ou desanimar o enfermo. Destarte se entende que os médicos observem reserva e prudência ao comentarem com os doentes as respectivas moléstias; evitem toda a erudição desnecessária, que só contribuiria para mergulhar o enfermo nas preocupações decorrentes do seu caso, «impressionando-o» nocivamente.

É também fato comprovado que a leitura de dicionários e manuais de medicina, em vez de beneficiar, pode prejudicar gravemente bom número de pessoas, principalmente se já estão doentes; desperta nelas, muitas vezes sem fundamento, a impressão de estarem afetadas de tal ou tal enfermidade, o que equivale a torná-las realmente enfermas ou ainda mais enfermas.

b)    Pais e educadores. Ocupam lugar de grande relevo no setor da sugestão, pois lidam com seres humanos que, por estarem ainda em formação, se acham numa fase de receptividade e sugestionabilidade naturais. A experiência ensina que pais e pedagogos, mediante o uso inconsiderado da palavra, podem desajustar psiquicamente os seus filhos ou pupilos.

 

Predizendo aos jovens, por exemplo, mau êxito nos exames ou incapacidade para obter tal diploma e seguir a respectiva carreira, arriscam-se a inibi-los de maneira definitiva. A mãe que intenciona combater as atitudes vaidosas de sua filha, afirmando-lhe que ela é feia, corre o perigo de lhe causar grave dano por todo o resto da vida.

c)          Enfim a todos os membros da sociedade convém tomar consciência do vasto alcance de tal tipo de sugestão que é chamado «o exemplo». Este influi às vezes muito mais do que a palavra explicita, porque cria diretamente uma vivência ou uma corrente de vida, que interpela tàcitamente as pessoas próximas.

d)          

Não é raro falar-se hoje em dia do poder sugestionador de jornais, romances, filmes e teatros; com certa graça, em, “tom atraente” e, à primeira vista, despretensioso, vão narrando episódios que, de artificiais, tendem a se tornar reais, isto é, tendem a se converter em histórias vividas e imitadas na realidade cotidiana dos leitores e espectadores.

 

A forca do exemplo, porém, não fica reservada apenas aos órgãos de publicidade; pode ser utilizada por todo e qualquer cidadão. Assim uma pessoa que em silêncio e modéstia cumpra fielmente o seu dever, representa um valor para a coletividade, mais ainda por aquilo que ela é do que por aquilo que ela diga. Analogamente,quem é infiel à sua tarefa constitui grave detrimento para todos; causa uma nódoa no seu ambiente, a qual de longe ou de perto afeta a todos os que entram em contato com esse ambiente.

 

São palavras do Pe. Charles de Foucauld:

«O homem pratica o bem não na medida daquilo que ele diz, mas, sim, na medida daquilo que ele é».

 

Por sua vez, o Imperador Napoleão assim aludia ao poder do exemplo singelo de sua genitora:

«É à minha mãe e aos seus bons princípios que devo o êxito de minha carreira e todo o bem que eu tenha praticado».

 

Além de valorizar o exemplo ou o comportamento tácito (sustentado com simplicidade e perseverança dia por dia), os estudiosos lembram que o estado de ânimo do individuo também é poderoso veículo de sugestão. Não há dúvida, tanto o entusiasmo, o otimismo e a convicção pessoal, como o desânimo, o pessimismo e o ceticismo de um membro da comunidade afetam os demais membros: o bom êxito de um empreendimento pode depender, de maneira decisiva, do otimismo de uma pessoa que se irradie contaminando os companheiros; paralelamente, o malogro pode ser acarretado pelo derrotismo de algum dos colaboradores.

 

Tais afirmações se tornam ainda mais significativas desde que se passe do plano natural para o plano sobrenatural ou cristão. O discípulo de Cristo é chamado pelo Senhor para ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-15) ou para ser o bom odor de Cristo na sociedade (cf. 2 Cor 2,15s); o que quer dizer: o cristão é, por dom de Deus, dotado de um poder de influência particularmente forte: já pela sua presença fiel e modesta no seu ambiente familiar ou profissional ele há de ser um sinal vivo de Deus e da Redenção no mundo.

 

Estas considerações devem estimular profundamente o homem que em pleno séc. XX aspire a um nível de vida social menos dissoluta. Por vezes ouve-se a pergunta desanimada: como remar contra a corrente impetuosa dos males morais contemporâneos? A resposta é mais fácil do que talvez se pense: trate cada homem de bem (principalmente cada cristão) de nortear mais e mais a sua vida segundo a lei de Deus e do Evangelho, e verá que o seu ambiente se transformará . Creia assim na força da sugestão,... e dessa sugestão que está ao alcance de todos e que é chamada «o exemplo».

 

É S. Agostinho quem diz:

«Considerai os bons, que haveis de imitar. Sede bons, e encontrareis homens bons. Se, porém, vos entregardes à prática do mal, crereis que todos são maus; ora isto é falso, enganar-vos-eis. Sede bons, e não vos ficará oculto o bem; o semelhante vai ao encontro... do semelhante.

Videte bonos, quos imitemini; estote, et invenietis. Si autem mali esse coeperitis, omnes maios esse credetis, et mendacium est, falli- mini. Estote, et non vos latebit. Simile ad simile occurrit» (serm. ed. Morin 501).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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