PERGUNTE e RESPONDEREMOS 046 – outubro 1961

 

O ESCÂNDALO DAS FILHAS DE LOTE

GERALDO (Belo Horizonte): «O episódio bíblico (Gên 19,30-38), que refere as uniões ilícitas das filhas de Lote, é escandaloso. Como pode figurar no livro santo portador da Palavra de Deus? A Bíblia não mereceria ser depreciada por causa desse e de semelhantes trechos escabrosos?»

 

Em vista de toda a clareza na explanação do texto citado, transcrevemo-lo na integra:

 

GÊN 19, 30 «Lote partiu de Segor e veio estabelecer-se na montanha com suas duas filhas, pois temia ficar em Segor. E habitava numa caverna com suas duas filhas. 31 Á mais velha disse então à mais jovem: 'Nosso pai está velho, e não há homem algum na região com quem nos possamos casar, segundo o costume geral. 32 Vem, embriaguemos nosso pai e durmamos com ele, para que possamos assegurar uma posteridade nossa'. 33 Elas fizeram, pois, o seu pai beber vinho naquela noite. Então a mais velha entrou e dormiu com ele; ele, porém, nada notou, nem quando ela se aproximou dele, nem quando se levantou. 34 No dia seguinte, disse ela à sua irmã mais nova: 'Dormi ontem com meu pai, façamos-lhe beber ainda uma vez esta noite, e dormirás com ele para nos assegurarmos uma posteridade'. 35 Também naquela noite embriagaram seu pai, e a mais nova dormiu com ele, sem que ele o percebesse, nem quando ela se aproximou, nem quando se levantou. 36 Assim as duas filhas de Lote conceberam de seu pai. 37 A mais velha deu à luz um filho,* ao qual pôs o nome de Moab; este é o pai dos Moabitas, que vivem ainda hoje. 38 A mais jovem teve também um filho, ao qual chamou Ben-Ami; este é o pai dos Amonitas, que vivem ainda hoje».

 

Pergunta-se agora : como é possível que relato tão pouco edificante tenha sido consignado pela Palavra de Deus?

 

É o que vamos ver, percorrendo duas maneiras de o entender, ambas consentâneas com a índole do texto bíblico mesmo.

 

1. Feito real?... Escândalo ou edificação?

 

A Sagrada Escritura, redigida por especial disposição de Deus, é um sacramental, ou seja, um dom do Senhor destinado a santificar os homens. Não foi senão com este fim que o Espírito Santo moveu os autores sagrados a escrever.

Como é então que a Sagrada Escritura realiza este seu papel ?

 

Poder-se-ia imaginar que a Bíblia Sagrada edifique e santifique os leitores narrando-lhes apenas atos de virtude e rasgos de heroísmo religioso. É assim que muitas vezes a hagiografia moderna ou as «Vidas da Santos» modernas visam edificar: selecionam episódios de virtudes dos justos e os apresentam de modo a mostrar unicamente um aspecto da vida do respectivo santo. O tipo de edificação assim produzida não deixa de ser um tanto artificial ou baseado em pressupostos mais ou menos irreais, pois inegavelmente os santos tiveram uma natureza humana semelhante à dos demais mortais, e nessa natureza foram obrigados a lutar como os demais homens (cf. «P.R.» 45/1961, qu. 1); vão ou mesmo errôneo seria querer desconhecer este aspecto «humano» dos santos. Em consequência, é de outro modo que as narrativas bíblicas visam suscitar a edificação dos leitores.

 

Em verdade, a história sagrada não deixa de descrever as falhas e a miséria dos homens, mesmo daqueles que eram mais chamados à intimidade com Deus (Abraão, Jacó, Davi, Salomão...); não as descreve, porém, para que o leitor se detenha na consideração (meramente curiosa ou mesmo mórbida) de tais episódios, como se eles tivessem significado por si mesmos ou isoladamente, ou como se a Escritura quisesse apenas narrar crônicas do povo de Israel. Não, a Sagrada Escritura os descreve para que o leitor compreenda melhor as dimensões da misericórdia divina; o abismo da miséria humana assim proposto deve despertar a consciência da surpreendente misericórdia divina. Quanto mais o leitor, através das narrativas bíblicas, percebe a indignidade do homem anterior à Redenção, tanto mais deve conceber... não o escândalo por causa dos feitos pecaminosos dos homens antigos (o escândalo seria talvez uma espécie de farisaísmo, no caso), mas a admiração por causa da estupenda benignidade do Redentor, que se dignou acudir aos homens em tão hedionda situação. Em poucas palavras: os episódios escabrosos relatados no Antigo Testamento devem ser tidos apenas como fundo de cena,... fundo de cena negro, que serve para fazer contraste e dar todo o relevo à figura misericordiosa de Deus Salvador.

 

Ao se defrontar, pois, com as cenas de «barbárie» das Escrituras antigas, não se deixe o leitor prender ao aspecto repugnante que elas podem ter em comum com as narrativas de panfletos modernos; passe além da aparência superficial, e olhe «para dentro desses acontecimentos» com o olhar de Deus; então também eles lhe falarão de algo de muito sublime, pois, em última análise, lhe evocarão o Deus invencível em bondade, que se dignou dar remédio a tanta vileza da criatura; é, sim, conforme os teólogos, nas atos de compadecer-se da continua fraqueza humana e perdoar, que Deus por excelência revela a sua Onipotência, a sua ilimitada Perfeição.

 

É à luz de tais ideias que há de ser considerado o episódio incestuoso das filhas de Lote, dado que tenha realmente ocorrido na história (veremos abaixo que bons exegetas julgam não se tratar de um relato de história). O leitor pode e deve reconhecer tudo que de hediondo há no pecado das duas jovens; não detenha, porém, sua atenção no acontecimento como tal; sem demora, estimulado pelo relato mesmo, passe a considerar a imensa bondade de Deus, que se dignou amar os homens postos em tais condições de degradação moral. Que o abismo da miséria evoque imediatamente o abismo da misericórdia na mente do cristão!

 

Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma inconsciente vítima, ludibriada pela astúcia de suas filhas; não se lhe deveria imputar culpa (aliás, em 2 Pdr 2, 7s Lote é dito «o justo»).

 

2. Narrativa artificial

 

Eis, porém, que exegetas recentes são inclinados a crer que o trecho de Gên 19,30-38 refere não uma história real, mas o que se chama «uma narrativa etnológica», cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que, tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo, haviam incorrido no ódio e no desprezo destes (cf. Dt 23,3-7; Jer 48,26; Ez 25,1-11). Ora, para exprimir a animosidade, ter-se-ia formado em Israel uma narrativa imaginária: «Moab» (mê-ab) podia, conforme a etimologia, significar «Ele é do meu pai»; «Amon» (ben-ammi) seria «Filho do meu povo» ou, segundo um termo paralelo árabe, também «Filho do meu pai». Pois bem; estes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam, sim, concebido de seu pai Lote, e gerado os varões a quem teriam imposto os nomes adequados «Ele é do meu pai» (Moab) e «Filho do meu pai» (Amon). Destes varões eram ditas proceder as duas nações inimigas ferrenhas de Israel, as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado, impuras, gente com a qual não se podia ter amizade. A narrativa, portanto, exprimiria uma «história imaginada para depreciar amonitas e moabitas». Eis como o Pe. Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação:

 

«O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio... quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. A ironia é tão acerba, os trocadilhos tão artificiais e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender; S. Jerônimo dizia dos rabinos do seu tempo, sem contra eles protestar: 'Assinalaram o trecho com pontinhos, para indicar que não merece fé'. Abstração feita da finalidade do pontilhado, o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história» (La méthode historique 207).

 

Com Lagrange concordam Clamer, La Sainte Bible I (Paris 1953) 297; J. Chaîne, Le livre de la Genèse (Paris 1949) 253.

 

A interpretação assim concebida não é incompatível com a inspiração do texto sagrado. Com efeito, o hagiógrafo pode ter consignado no livro do Gênesis tradições populares cujo significado era conhecido entre os judeus; inserindo o episódio de Gên 19,30-37, o autor não fazia senão exprimir, nos termos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel, a animosidade existente entre o seu povo e os adversários do seu povo. Não queria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia.

 

Entre as duas interpretações propostas, escolha o leitor. Em qualquer caso, porém, saiba que o episódio não deve ser considerado em si mesmo, mas à luz de uma finalidade que nada tem de escandaloso, antes mesmo (conforme a primeira interpretação) é profundamente edificante!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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