BíBLIA (4625)'
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Artigo

INTRODUÇÃO A MARCOS

O autor do segundo Evangelho é Marcos. Unânime é o acordo sobre este ponto, não havendo notas discordantes nem mesmo da parte dos críticos mais radicais. Tão claro e unânime é o sufrágio da tradição, que remonta, com os mais autorizados testemunhos das Igrejas em peso, até aos últimos anos do século I, à primeira geração cristã pós--apostólica.

Outro ponto certo e admitido por todos: assim como Marcos foi colaborador de Pedro na pregação do Evangelho, foi também o porta-voz e o intérprete autorizado na elaboração do Evangelho e transmitiu-nos, por meio desse texto, a catequese do príncipe dos apóstolos, tal qual ele a ensinava aos primeiros cristãos, principalmente da Igreja de Roma. Sobre isso também temos o testemunho claro e preciso da tradição.

Um fragmento de Papias, bispo de Hierápolis, na Frigia, pelos anos 110--130, conservado por Eusébio na sua História Eclesiástica (liv. III, fim), afirma expressamente, referindo-se às declarações do presbítero João: "Eis o que dizia o presbítero: — Marcos, tendo sido intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, não, porém, de modo ordenado, tudo o que recordava das coisas que o Senhor disse ou fez". O primeiro elo da tradição não é, portanto, Papias, e sim o presbítero João, que, segundo os melhores críticos, deve-se identificar com o apóstolo S. João. Outros elos dessa tradição temo-los nos testemunhos de Irineu, Justino, Clemente Alexandrino, Tertuliano, Origines etc., que nos relatam o pensamento autêntico das Igrejas dos primeiros séculos.

Nos Atos dos Apóstolos o futuro evangelista é chamado ora João Marcos (12, 12-25; 15,37), ora João (13,5.13), ora simplesmente Marcos (15,39), pois nessas passagens trata-se sempre da mesma pessoa, a qual, segundo um costume então em voga na Palestina, tinha, além do nome judaico, um nome greco-romano, como, por exemplo, o grande Apóstolo dos gentios, que se chamava Saulo e Paulo.

Marcos devia pertencer a família bastante rica e de grande ascendente na comunidade cristã de Jerusalém. Com efeito, em sua casa "onde várias pessoas se haviam reunido para orar" (At 12, 12), refugiou-se o apóstolo Pedro quando o anjo o libertou do cárcere de Herodes. Pretendem alguns deduzir disso que a casa de Marcos deve-se identificar com o cenáculo.

Marcos era primo de Barnabé (Col 4,10), levita, natural de Chipre e, quando este, juntamente com Paulo, foi designado pelos irmãos da comunidade de Antioquia para levar as esmolas à Igreja de Jerusalém, na volta levou consigo Marcos, para lhe servir de auxiliar (At 13,5) no labor da evangelização. Efetivamente, Paulo e Barnabé o levaram como colaborador na primeira viagem apostólica. Mas ao chegarem a Perga, na Panfília, Marcos separou-se dos dois missionários e achou melhor voltar a Jerusalém. Esta fraqueza e inconstância de caráter não agradaram a Paulo, que se recusou a levar Marcos como companheiro na segunda viagem missionária, pelo que o próprio Barnabé, separando-se de Paulo, foi com Marcos para a ilha de Chipre, enquanto Paulo e Silas rumaram primeiro para a Síria e para a Cilicia e depois para a Grécia. Deste modo, por disposição providencial de Deus, a boa-nova difundiu-se mais largamente.

Aquela nuvem passageira não diminuiu e muito menos rompeu as relações fraternas entre os dois apóstolos. Com efeito, Marcos foi depois colaborador fiel de Pedro e de Paulo. Este escrevia, de Roma, onde se achava prisioneiro, aos fiéis de Colossas (4,10): "Saúda-vos Marcos, primo de Barnabé"; e a Filemon: "Saúda-te Marcos, meu colaborador" (v. 24). Estava, pois, Marcos, nessa época, por volta do ano 61-62, com Paulo. Alguns anos mais tarde, pelo ano 63-64, ele cuidava da evangelização juntamente com Pedro, o qual escrevia de Babilônia (' — Roma) na sua primeira carta (5,13): "Saúda-vos meu filho Marcos", palavras que nos deixam crer que Marcos recebeu de Pedro o batismo.

Deve ter deixado Roma antes da perseguição de Nero} no ano 64, pois quando Paulo aí esteve para a segunda prisão, Marcos não estava. De fato, na sua segunda epístola a Timóteo (4,11) Paulo pede-lhe que venha a Roma e traga Marcos consigo.

Antigas tradições muito autorizadas atestam que nos anos seguintes Marcos evangelizou o Egito e fundou a Igreja de Alexandria, onde morreu mártir por Jesus Cristo.

Em Roma, Marcos escreveu o Evangelho, como no-lo confirma a tradição representada por Papias, Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano e outros, não para os judeus, e sim para os cristãos da Igreja romana, convertidos do paganismo. Segundo Clemente de Alexandria, ele escreveu a pedido de muitos cristãos que tinham ouvido a pregação de Pedro (cf. Eusébio, História Eclesiástica, Vl, 14,6). Essa notícia encontra confirmação evidente em não poucas indicações, resultantes do exame interno do segundo Evangelho. Efetivamente, Marcos propõe-se como fim demonstrar que Jesus é verdadeiro Filho de Deus, e o faz especialmente com a narração de muitos milagres que ele operou, sinais evidentes de que é o senhor supremo da natureza, dos elementos, da vida, que tem poder para ler nos corações e no livro do futuro. Não insiste sobre o seu caráter de Messias, nem cita as antigas profecias que em Jesus tiveram a sua realização, com exceção de uma só vez (1,2-3). Não relata longos discursos de Jesus nem suas discussões com os fariseus, nem as questões relativas ao valor da lei e ao espírito dos fariseus, coisas essas todas que não teriam impressionado o espírito dos seus leitores. Usa, porém, freqüentemente, de grecismos e traduz algumas expressões aramaicas; explica aos destinatários do seu Evangelho algumas indicações geográficas da Palestina, usos e costumes próprios dos judeus. Entre os evangelistas é ele o único a lembrar que Simão de Cirene era pai de Alexandre e de Rufo, membros da comunidade cristã de Roma (cf. Rom 16,13). Indícios todos estes bastante persuasivos de que o segundo Evangelho foi escrito, como afirma a tradição, em Roma, com referência particular aos cristãos romanos convertidos do paganismo.

A composição do segundo Evangelho deve ser colocada antes do ano 70, ou melhor, antes do ano 63, época em que já tinha sido publicado o Evangelho de Lucas, o qual, como já admitem também os críticos acatólicos, depende de S. Marcos. Ora, sabemos pela tradição, como foi dito ao falarmos do Evangelho de S. Mateus, que, em ordem cronológica, este Evangelho ocupa o primeiro lugar, e que teria sido escrito, provavelmente, entre os anos 50 e 54. Podemos, portanto, afirmar que Marcos escreveu o seu Evangelho depois do ano 54 e antes do ano 61, no período em que ele devia encontrar-se em Roma, junto com o apóstolo Pedro, como seu auxiliar na fundação da Igreja de Roma.

Eis um resumo esquemático do Evangelho de Marcos:

Introdução. Preparação para a vida pública de Jesus (1,1-13). Pregação de João Batista (1,1-8); batismo de Jesus; tentação no deserto (1,9-13).

I parte - Ministério público de Jesus (1,14-10,52).

1. Ministério na Galiléia. Inauguração da pregação de Jesus (1,14-45). Conflitos com os escribas e os fariseus (2,1-3,6). Milagres de Jesus; escolha dos apóstolos; parábolas (3,7-4,43). Outros milagres e episódios do ministério de Jesus na Galiléia (4,35-7,23).

2. Viagens de Jesus fora da Galiléia. À região de Tiro e de Sidônia (7,24-30); à Decápole (7,31-8,26); à região de Cesaréia de Filipe (8,27-9,29); volta à Galiléia e viagem a Jerusalém 9,30-10,52).

II parte - Paixão e glorificação de Jesus (11,1-16,20).

Ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém (11,1-11). Conflitos com os fariseus (11,12-12,44). Predição da destruição de Jerusalém, e do juízo final (13). Paixão e morte (14,1-15,47). Glorificação de Jesus (16).

Por este sumário pode-se notar uma característica do segundo Evangelho: a brevidade.

Além disso, outra característica do Evangelho de Marcos ê a vivacidade intuitiva da narração. Seu vocabulário é mais pobre e restrito; o estilo, monótono e descuidado, reflete o modo de pensar e de expressar-se próprios de um oriental simples e rude, bem longe da riqueza de linguagem e da perfeição do período elaborado do grego clássico. A narração, entretanto, ê viva, colorida, pitoresca até nos mínimos particulares e faz os acontecimentos reviverem ante os olhos do leitor, quais os tinha tantas vezes ouvido o próprio Marcos dos lábios do apóstolo Pedro. Nisto está a explicação da característica do segundo Evangelho. Marcos apenas reproduz e retrata a partir do natural a história evangélica, revivida e descrita por uma testemunha ocular, que tomou parte nela e que a tinha sempre presente.


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