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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 516/junho 1005

Protestantismo

Visão global:

 

LUTERO: UM PERFIL OBJETIVO

 

' Em síntese: Um dos mais abalizados conhecedores de Lutero, o Pe. Prof. Ricardo Garcia-Villoslada caracteriza Lutero como figura ambígua e contrastante.

 

O filme "Lutero" veio reavivar o interesse do público pela figura de Lutero. Ouvem-se a respeito opiniões contraditórias...

Tais sentenças não partem de quem conhece adequadamente a figura e o pensamento de Lutero; são extrapolações emotivas mais do que racionais. Eis por que, nas páginas subseqüentes, proporemos as considerações de abalizado estudioso de Lutero, que procura ser imparcial ao ponderar a figura do reformador. Trata-se do Professor da Universidade Gregoriana Ricardo Garcia-Villoslada, autor da obra Martin Lutero, em dois volumes publicados na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos" em Madrid. Tal autor escreveu em seu volume I (1976) as reflexões que vão abaixo traduzidas para o português.

 

1. Martinho Lutero: quem é?

"Sempre suscitará altercações esse alemão 'puro sangue', esse filho da Saxônia, intimamente apegado ao seu país e, doutro lado, arauto de mensagem universal, superadora de fronteiras, pregador da angústia desesperada e, ao mesmo tempo, núncio de interna consolação produzida pela fé, advogado da absoluta liberdade evangélica e, simultaneamente, da incapacidade do livre arbítrio e das obras humanas para levar o crente à salvação; doutor de intuições religiosas tão profundas quanto unilaterais e tão vivamente sentidas que, ao dar-lhes expressão, fazia perder a paciência a quem o ouvisse; teólogo popular e sublime, prisioneiro da palavra de Deus, como ele mesmo disse em Worms (capta conscientia in verbis Dei), mas, ao mesmo tempo, desligado e solto por sua interpretação pessoal, muitas vezes subjetiva e arbitrária, da Escritura Divina..., Escritura Divina que ele exaltou constantemente e que, ao mesmo tempo, ele recortou e depauperou; homo religiosus, que, vivendo a religião cristã mais tragicamente do que ninguém, não se deu conta de que tendia a secularizá-la, porque, ao emancipar-se da hierarquia e do magistério para depender somente de Deus, caia num individualismo humano demasiadamente humano, exposto à anarquia doutrinal, às ilusões pseudomísticas e à idolatria da razão por ele tão odiada; monstro sagrado - espécie de dragão mitológico, mescla de serpente, de leão e de anjo-, que guardava zelosamente o templo santo de Deus das misericórdias e soprava fogo abrasador, ódio e maldições contra aqueles que se recusavam a aceitar a sua verdade.

A respeito de Lutero pode-se afirmar que era isto, isso e aquilo, e também o contrário. Todos os qualificativos são verídicos e falsos, se entendidos de maneira absoluta. As imagens desenhadas por seus amigos e seus inimigos hão de ser sobrepostas umas às outras, para que nos proporcionem uma terceira imagem, mais próxima da realidade" (pp. 15s).

Pouco adiante o Prof. R. Garcia-Villoslada se refere à historiografia de Lutero.

 

2. Como apresentar Lutero?

Eis o que responde o autor:

"O historiador fará o possível para que os feitos narrados sejam autênticos; ao interpretá-los, será sempre possível o erro. Certamente a eliminação de todo preconceito e a imparcialidade absoluta são inalcançáveis tanto de uma parte como de outra; mas é evidente que a historiografia crítica progride e, na medida em que se fazem novas investigações sobre um problema ou sobre um personagem, mais e mais luz aflora; assim dá-se um passo adiante no conhecimento da verdade objetiva...

Explico-me:

Se uma mulher foi caluniada, vilipendiada, ultrajada e amaldiçoada por um homem poderoso e influente, é natural que, quando tal homem passa para a história, não será fácil a um filho daquela mulher escrever a biografia serena, imparcial, objetiva, friamente crítica... do ultrajador, esbofeteador e execrador de sua mãe, ainda que aplique a essa tarefa a máxima boa vontade. Pois bem; é coisa manifesta - muitas vezes ignorada pelo comum dos protestantes, que apenas lêem livros de edificação - que Lutero passou os últimos vinte e sete anos de sua vida lançando, sem cessar, em suas publicações, em suas cartas, em suas conversas de família, maldições ferozes, ultrajes indizíveis, acusações morais e doutrinais, às vezes absolutamente falsas, outras vezes desmedidamente exageradas, contra a Igreja e o Pontífice de Roma, contra todos os Bispos, contra todos os monges e monjas e sacerdotes, contra todos os que ele denominava 'papistas', asnos papais, seguidores do anticristo e da prostituta babilônica. E tudo isto sem a mínima intenção de compreender o adversário.

Não conheço em toda a história um transbordamento tão atroz e persistente de ódio (refiro-me às expressões verbais, não ao fundo do coração, que talvez se mantivesse inocente e sem fel) para com uma instituição sagrada que o havia amamentado com seu leite e lhe tinha dado o melhor que lhe podia dar: a Bíblia, os sacramentos, a Tradição apostólica, o símbolo da fé, as orações da Liturgia. Nesses contínuos ímpetos de ódio, irracional à primeira vista, era ele plenamente sincero? Fazia-o por imperativo de sua consciência ou, antes, por instinto de caudilho e tática de guerra, a fim de desacreditar o inimigo, criando-lhe um ambiente desfavorável frente ao povo, de modo que ninguém sonhasse em retornar à obediência a Roma, poço e arcabouço de todas as alucinações? Se era esta a meta que ele tinha em vista, é certo que ele a alcançou. E, em conseqüência, a Igreja Católica, aquela Igreja que havia civilizado e educado cristãmente o grande povo alemão dos séculos anteriores, ficou marcada, para todo crente luterano, até nossos dias, com o estigma de meretriz do Apocalipse e de prostituta do diabo...

Lutero cai nas graças de muitos católicos hodiernos...; é tornado simpático, de modo que não duvidam em elogiá-lo, mesmo que não tenham lido uma página de seus escritos. Qualquer livro ou artigo de revista que ponha nas nuvens a sua profunda religiosidade, proclame seus protestos irados contra os abusos e desordens da Igreja e até canonize sua 'ortodoxia dogmática', é lido com entusiasmo e aplaudido em toda parte([1]). Ao contrário, quem tenha a incrível ousadia de chamá-lo herege ou cismático ou falsificador de algumas passagens da Escritura, censurando-o de algum modo, será condenado ao ostracismo ou aos cárceres do silêncio como réu de desobediência aos sinais dos tempos ou refratário à atualização pós-conciliar.

Estes fáceis louvadores do reformador não o conhecem bem. Os que no frade de Wittenberg contemplam não a imagem do protestante, mas a do moderno contestatário, enganam-se de ponta a ponta. Nada sabem de sua intolerância total em questões de fé, nem dos seus preceitos de submissão quase servil à autoridade do Estado, ainda que este seja opressor e tirânico, nem do seu absoluto desinteresse pela política (praedicator non debet politica agere, o pregador não deve fazer política).

Aos que alegremente lhe estendem a mão - sem, porém, ter a intenção de passar para os seus acampamentos -, ele responderia com uma bufada de touro ou com uma maldição de profeta. Creio que aquele frade agostiniano (que muito de frade conservou sempre até a morte no seu modo de pensar, na sua piedade e no seu estilo), aquele saxão de granito e ardente dogmatismo levantaria a cabeça em nossos dias, flagelaria sem compaixão, com o chicote ruidoso da sua palavra, certos irenistas amigos de conciliar o inconciliável, como flagelou em seu tempo o humanista Erasmo (dignus odio magno, digno de grande ódio), e os que não queriam entender luteranamente o Evangelho: Zvinglio e Ecolampádio (nimium blasphemi, demasiado blasfemos); entre outros, Lutero muito mais ainda rejeitaria os que apregoavam um profetismo revolucionário, como Karlstadt (diabo encarnado), Münzer (assassino e arquidemônio), e outros 'fanáticos', contra os quais lançou o vocábulo de Schwärmer (fanáticos). Frei Martinho não tolerava oposição nem queria diálogo. Dizia ele a Erasmo na disputa contra o livre arbítrio: "Não dialoguei contigo, mas afirmei e continuo afirmando, e a ninguém permitirei que seja meu juiz!".

Para falar bem ou mal de Lutero, é preciso primeiramente estudá-lo com seriedade e devagar... "As obras completas do reformador, em sua última edição crítica, compreendem cerca de cem volumes in folio, parte em latim e parte em alemão antigo" (pp. 20-22). Serão citados pela sigla WA (= Weimarer Ausgabe).

A seguir, vai uma apreciação de uma das principais obras de Lutero, que tem por título

 

3. De Captivitate Babilónica (A respeito do Cativeiro Babilônico)

"Muitas coisas surpreendem neste tratado demolidor da teologia tradicional...

Para Lutero, não existe a dúvida, nem a tolerância para com a opinião contrária, mesmo que esta seja doutrina corrente e certa em todas as Faculdades de Teologia da Europa. Não se pode entender a Sagrada Escritura se não no sentido em que ele a entende. Não vacila em aceitar todas as conseqüências teóricas e todos os resultados práticos, desprezando anátemas e excomunhões de uma Igreja que até pouco antes ele amava. A resposta que ele dá a todas as questões é taxativa, clara e categórica, como se a tivesse meditado durante anos e anos, embora na realidade seja algumas vezes quase improvisada. Sente-se arrebatado por um furacão misterioso, que o empurra não sabe para onde; impelido por uma força superior à razão e à prudência humana, força à qual lhe é impossível resistir.

Outra coisa surpreendente para o leitor que raciocina, é a superioridade majestática com que ele se ergue acima de todos, como um oráculo inapelável. Ninguém tem direito a objetar-lhe a mínima dificuldade([2]).

O  papado romano é o anticristo desde o momento em que ele é o anti-Lutero. A palavra deste se identifica com a palavra de Deus. Por isto ele estabelece e afirma suas teses mais temerárias como evidentes e indubitáveis, derrubando com bofetadas as teorias mais fundamentadas e tidas como certas por milhares de doutores. Que os Santos Padres e os Concílios e os mais exímios teólogos tenham dito o contrário durante longos séculos e após discutir atentamente os argumentos, que a Igreja inteira com todo o povo cristão tenha sentido diversamente do professor de Wittenberg, que todos os Códigos Civis estabeleçam uma praxe pouco conforme com a mente luterana, e, por fim, para usar uma expressão hiperbólica de Lutero, que venha um anjo do céu para ensinar doutrina diferente, nada disso o demove nem lhe provoca a mais leve sombra de dúvida, pois todos se equivocaram, mas Lutero não pode errar, já que a palavra de Deus não admite outra interpretação senão a de Frei Martinho Lutero. Tal atitude mental não toca as raias do patológico?" (p. 483s).

Eis o que o Prof. Garcia-Villoslada apresenta a respeito da figura religiosa de Lutero após prolongados estudos, que procuraram ser tão imparciais quanto possível. Em grande parte, o brado revolucionário de Lutero dentro da Igreja foi bem sucedido porque encontrou a nação alemã preparada para se voltar abertamente contra Roma em virtude de tendências nacionalistas e políticas existentes desde a Idade Média. O mesmo Prof. Garcia-Villoslada descreve os acordes nacionalistas das teses de Lutero nos seguintes termos:

 

4. O Brado à Nação Alemã

"A obra An den christlichen Adel deutscher Nation (À Nobreza Cristã da Nação Alemã) foi por Lutero escrita em junho e publicada em meados de agosto de 1520, quando o reformador esperava de um momento para outro a excomunhão que viria de Roma e podia atingir seu protetor, o príncipe Frederico da Saxônia. É um escrito em que o político e o social prevalecem sobre o teológico. Redigido em alemão numa época de grande excitação e com linguagem dura e áspera, esse livro não é dirigido aos doutos e eruditos de qualquer nacionalidade como os anteriores escritos latinos, mas aos compatriotas leigos de Lutero, começando pelo Imperador Maximiliano e pelos príncipes, principalmente os cavaleiros germânicos, que eram os mais dispostos a uma revolução social e religiosa. A obra, que bem revela o estado efervescente do ânimo de Lutero no ano mais crítico de sua vida, assim começa seu discurso aos nobres:

"Antes do mais, a graça e a força de Deus! Altezas Sereníssimas, benigníssimos e diletos Senhores,

Não é por mera impertinência ou temeridade que um pobre homem como eu ousa falar a vossas Altas Excelências. Os agravos e as angústias que oprimem toda a Cristandade, especialmente os países germânicos, movem a mim e a qualquer homem a clamar, pedindo ajuda, e agora me obrigam a gritar e vociferar para que Deus conceda a alguém o ânimo e a vontade de estender sua mão a esta miserável nação. Já foi tentado algo neste sentido por meio de Concílios, mas a astúcia de uns poucos homens o impediu habilmente, e a situação se tornou pior. Agora, com o favor de Deus, tenciono pôr em relevo esta astúcia maligna, a fim de que, revelada, não possa mais causar dano ou estorvo" (WA 6, 409ss).

A obra continua, procurando demolir a autoridade da Igreja Católica.

No mesmo ano de 1520, Frederico da Saxônia enviou a Lutero duas cartas de Roma que pediam a este príncipe procurasse colaborar para trazer de volta à casa paterna o filho pródigo desgarrado. Lutero respondeu ao capelão da corte, Jorge Spitlitz, o seguinte, com a data de 9/7/1520:

"Espero que o ilustríssimo príncipe responda de tal maneira que essas cabeças romanas entendam que a Alemanha, por oculto juízo de Deus, foi até agora oprimida não por causa de sua própria rudez, mas por causa da rudez dos italianos" (Bríefe II 134-136).

O nacionalismo de Lutero se tornava ainda mais transparente quando no dia seguinte (10/7/1520) escrevia:

"Desejaria que o príncipe, em sua carta ao Cardeal de São Jorge, insinue que, se, com seus anátemas, me rechaçarem de Wittenberg, não conseguirão senão agravar a situação, visto que não na Boêmia([3]), mas no meio da Alemanha, existem aqueles que me podem e querem defender, à revelia de Roma, contra os raios desta... Da minha parte, a sorte está lançada; desprezo tanto o furor como o favor de Roma. Não quero reconciliar-me nem estar em comunhão com eles por toda a eternidade. Condenem e queimem meus livros; eu condenarei e queimarei publicamente, enquanto tiver fogo na mão, todo o Direito Pontifício, esse lamaçal de heresias... Como seria bom se o príncipe acrescentasse que a doutrina luterana está tão propagada e arraigada dentro e fora da Alemanha, que, se os romanos não a vencerem com a razão e a Escritura, entendam que, com as violências e as censuras, só conseguirão fazer da Alemanha uma segunda Boêmia! Eles já sabem que os germanos são ferozes por sua própria índole (germanorum ferocia ingenia); são tais que, se ninguém os convence pela Escritura e a razão, será perigoso para os Papas irritá-los, principalmente agora, quando as letras e as línguas reinam na Alemanha, e até os seculares (leigos) começam a instruir-se. Portanto, ele, como príncipe cristão, os admoeste e lhes dê a saber que não confiem em suas forças e não deixem de dar razão do que fazem, a fim de que não suscitem contra si mesmos um tumulto irremediável" (Briefe II 137).

Os alemães que em seus castelos prometiam defesa e proteção a Lutero, eram os nobres cavaleiros Francisco de Sickingen e Silvestre de Schaumberg, além do príncipe Frederico da Saxônia. À sombra da tutela destes maiorais, podia Lutero desafiar qualquer autoridade" (pp. 466s).

 

5. Conclusão

Como é notório, tem-se desenvolvido entre católicos e luteranos um diálogo sincero e fecundo. Aos 31 de outubro de 1999 foi assinado pela Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial um acordo sobre a Justificação ou sobre a entrada do pecador na graça de Deus: é gratuita e não se deve a pretensos méritos da criatura. Este feito levou alguns a crer que já não há diferenças doutrinárias entre católicos e protestantes: "Católicos e luteranos confessam ter a mesma fé e a mesma interpretação do Credo" (M. Barros).

Tal afirmação é falsa: se há acordo sobre a maneira como o pecador entra na graça, resta, entre outras, a questão: A salvação ou a perseverança na graça até o fim requer boas obras (como dizem São Tiago e os católicos) ou não?

As conversações continuarão... Com a graça de Deus.



[1] "Que dizer dos que - com humor ou inconsciência - falam de canonizar Martinho Lutero? Lutero mesmo se levantaria do túmulo para protestar furiosamente contra tamanha 'abominação e idolatria'. Que é que se canonizaria nele? Suas obras e virtudes, como as dos outros Santos? Precisamente essa santidade das obras (Werkheiligkeit) é que ele esteve continuamente amaldiçoando... Ao hipotético Papa que tentasse inscrevê-lo no catálogo dos Santos, ele replicaria sem hesitar: 'Prefiro, querido papa, o maior dos ultrajes diabólicos. - Mache nur mich zum heiligen, Heber Papst, umb meiner Werk wíllen, der Teu fel beschiesse mich' (WA 41, 165). Esta frase, ele a proferiu num sermão de 29 de maio de 1535. Nem mesmo se pode pensar na hipótese de que um Papa venha a anular o decreto de excomunhão pelo qual Leão X o declarou herege".

O redator desta revista observa que a retirada da excomunhão significaria a volta de Lutero à comunhão com a Igreja peregrina na terra. Ora Lutero já não é peregrino, pertence a outra jurisdição; Deus o tem sob o seu santo juízo.

[2] No fim da vida dizia Lutero aos seus amigos em tom confidencial:

"Há mil anos, Deus a nenhum Bispo concedeu tão grandes dons quanto a mim (In mille annis Deus nulli episcopo tanta dona dedit ut mihi. Gloriandum est enim de donis Dei)" (Tischreden 5494 V 189).

O mesmo foi repetido pelos discípulos do reformador, que, aliás, dizia: "Ego propheta Germaniae (Eu sou o profeta da Alemanha)" (WA 41, 706).

[3] Na Boêmia, João Hus (1372-1415) havia levantado a bandeira do nacionalismo anti-romano (N.d.R.).

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