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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 554/agosto 2008

Mundo Atual

Debate:

DROGAS: SIM OU NÃO?

 

Em síntese: O uso de drogas foi novamente posto em foco por ocasião da visita do Papa ao Brasil. O artigo abaixo considera a questão e conclui ser ilícito tanto o uso quanto o comércio de drogas.

*   *   *

O problema das drogas mais uma vez chamou a atenção do público, por ocasião da visita do Papa Bento XVI à Fazenda da Esperança, perto de Guaratinguetá (SP). O assunto muito debatido no Brasil e no estrangeiro, será brevemente considerado nas páginas seguintes, em que trataremos da noção e classificação de drogas e seus efeitos, ao que se seguirá uma avaliação ética.

 

1. Droga: noção

Há várias maneiras de definir a droga. Eis duas das mais significativas:

"As drogas são substâncias psicotrópicas que por seus efeitos agradáveis levam o sujeito a um consumo repetitivo, primeiro livremente desejado e depois forçado a ponto de depender delas" (Borgognoni Castighone).

"Drogas são substâncias que geram toxicomania, ou seja, hábito e/ou dependência, e que, por seus efeitos sobre a psique e. sobre o comportamento são nocivas ao indivíduo e à sociedade" (Elio Sgreccia).

Importa, no caso, explicitar o que sejam hábito e dependência.

Hábito é o resultado decorrente de consumo de uma substância que causa bem-estar: implica a tendência a continuar esse consumo porque é agradável, às vezes provocando o desejo de aumentar a dose.

Dependência é o estado de intoxicação produzido pelo consumo repetido da substância psicotrópica. Implica o desejo compulsivo de repetir as doses e consegui-las por qualquer meio que seja; o dependente não se contenta com a habitual dosagem, mas quer aumentar sempre mais. A dependência não é somente psíquica mas também física, manifestando-se por câimbras, náuseas, diarréia, convulsões e coma (em certos casos).

A dependência é nociva não somente ao consumidor, mas também à sociedade por causa dos delitos que o mau comportamento do dependente causa, originando mal-estar entre os seus acompanhantes.

 

2. Classificação das drogas

A classificação das drogas é feita a partir da consideração de suas origens como também mediante a consideração de seus efeitos.

2.1.  Classificação segundo as origens

Muitas drogas têm origem vegetal. Assim,

-  o papaver somniferum, do qual se extrai o ópio, famoso por ter provocado guerra entre a Inglaterra e a China. A Inglaterra cultivava o respectivo plantio na índia para que a China importasse a droga com lucros para os cultivadores e corrupção dos funcionários. A reação ocorreu na década de 1830 a 1840, o general chinês Lin-Tsahsu chefiou a resistência aos ingleses.

Do ópio são extraídas as opiáceas, a saber: a morfina, a heroína e a papaverina.

a cannabis indica dá origem ao haxixe e à maconha.

a erytroxylon coca produz a cocaína e o crack. É cultivada na Bolívia, no Peru, em Java e Ceilão. O crack contém resíduos de querosene e outros dejetos.

a segala comuta, donde se tira o ácido lisérgico ou LSD 25.

2.2.  Classificação segundo os efeitos

Distinguem-se drogas leves e drogas pesadas.

As leves são os derivados da cannabis indica e o LSD. Têm menor efeito lesivo sobre o organismo. Isto não quer dizer que não produzem efeitos daninhos. Veja-se o que ocorre com o consumidor de LSD: distúrbios no campo visual e acústico com a sensação de perda da noção do tempo, cansaço, perda de peso. - A maconha provoca excitação da imaginação, confusão verbal, ânsia, medo, agitação. As drogas leves induzem freqüentemente às drogas pesadas.

Drogas pesadas são as que têm efeitos mais rápidos e nocivos sobre o organismo. São os apiáceos como a morfina, a heroína, a cocaína. Podem provocar a morte do sujeito repentinamente pelo consumo de uma overdose, como também acarretam uma grave degradação tanto do físico como do psíquico num lento suicídio.

Todo toxicômano é uma personalidade à parte e constitui um caso particular.

É de notar ainda que a passagem da droga mais leve para a mais pesada nem sempre é procurada espontaneamente pelo consumidor, mas é muitas vezes imposta pelo mercado, pois, em vista de maior lucro, os intermediários traficantes coagem o cliente a utilizar a droga pesada.

Há quem proponha outra classificação das drogas, atendendo mais simplesmente aos efeitos; eis as classes que daí se seguem:

Classe da euforia: ópio, coca e seus derivados, morfina, heroína, cocaína...

Classe da fantasia: derivados de cânhamo indiano, como o haxixe e a maconha, além da mescalina. São alucinógenos e psicodélicos, isto é, levam a ter "visões";

Classe dos embriagantes: álcool, clorofórmio, éter;

Classe dos hipnotizantes (que levam ao sono): os barbitúricos ou derivados do ácido barbitúrico (síntese de uréia e ácido malônico) aproveitados por vezes com finalidade terapêutica. Associados ao álcool, tornam-se droga;

Classe dos excitantes: as anfetaminas.

É principalmente nos países em desenvolvimento que se verificam maior demanda e utilização de drogas. O lucro que desse comércio provém é de alto valor econômico.

 

3. Causas do consumo de drogas

Uma pesquisa realizada na Itália em 1984 levava ao seguinte elenco de causas, resultado este que pode ser válido também em nossos dias:

3.1.  Superficialidade e irresponsabilidade

1)   Desejo de estar na moda

2)   Desejo de fazer boa figura

3)   Imitação de modelos culturais

4)   Pressão por parte de pessoas violentas e sem escrúpulos

5)   Desejo de experimentar situações novas

6) Excessiva disponibilidade de dinheiro

3.2.  Incômodos

1)  Más companhias

2)  Falta de princípios e valores (o vazio da vida ou do coração)

3)  Incompreensões na família

4)  Rejeição de valores morais

5)  Distúrbios da personalidade

6)  Marginalização e desemprego

7)  Solidão e tédio existencial

 

Em nossos dias convém acrescentar a essas causas a pressão da oferta e do mercado que se volta principalmente para as categorias da sociedade mais frágeis como são os adolescentes e jovens, atingidos nas escolas que freqüentam. O desejo de lucro ilícito é como um polvo que envolve os mais fracos, levando-os muitas vezes à delinqüência (roubos e assassínios).

 

4. Avaliação ética

Eis um aspecto complexo da questão.

De modo geral, após tudo quanto acaba de ser dito, torna-se evidente que o uso de drogas é ilícito, a não ser que regulamentado pela medicina com finalidades terapêuticas. O uso meramente deleitoso de drogas destrói o psíquico e o físico do ser humano, o que vai contra as leis do Criador e os interesses da própria pessoa humana.

Digamos agora uma palavra a cada uma das categorias interessadas na temática:

a) aos usuários: a fim de evitar as drogas que escravizam o ser humano, importa acautelar-se contra as más companhias (os falsos amigos) que pervertem várias áreas do comportamento humano; induzem sorrateiramente, criam um clima que intimida e impõe respeito humano:

-  o desejo de estar na moda, instigado pela vaidade e o amor próprio, levam a concessões a esses falsos amigos. Outros fatores negativos seriam:

-  curiosidade: o fruto proibido parece sempre ser o mais saboroso;

-   o vazio do coração, a falta de sentido da vida levam a fugir dos desafios e a procurar alienação nos paraísos artificiais das drogas. É de primeira importância que cada qual saiba por que e para que vive. O vácuo interior associado a uma vida financeiramente aquinhoada leva a procurar a fuga do trabalho e da luta para viver em dignidade.

-   a desagregação da família, hoje em dia muito freqüente; é a perda da "oficina" na qual se forma a personalidade, pois é na família principalmente que devem ser cultivados e transmitidos valores éticos e o empenho por uma auto realização digna.

Outras causas são independentes do sujeito: distúrbios de personalidade, desemprego... Mas é necessário que cada indivíduo saiba, na medida do seu possível, autocontrolar-se, disciplinar-se, evitando a ociosidade fecunda em "sugestões novidadeiras".

b) aos pais toca o dever de acompanhar os filhos de menor idade, instruindo-os a respeito dos percalços da vida. Podem os adolescentes não compreender os perigos que os ameaçam, mas a paciência e a bondade dos genitores podem obter bons resultados.

c) às autoridades governamentais cabe a tarefa de combater a produção e o comércio de drogas, em vez de os fomentar em vista de finalidade lucrativas.

É de lembrar que a Bolívia foi o primeiro país produtor da cocaína no mundo, fazendo das drogas um monopólio do Estado. Aliás, têm grande responsabilidade na desgraça alheia todos aqueles que, por fins lucrativos, favorecem o curso das drogas e exploram egoisticamente a infelicidade do próximo.

 

5. Conclusão

Pode-se dizer que a raiz do combate às drogas é conhecer o sentido da vida, o "para que vivo", coisa que não é clara a muita gente. A reflexão sobre "quem sou eu?" leva à maturidade e impede a superficialidade de vida, que vai procurar seu paraíso em cisternas furadas (cf. Jr 2, 13) as quais nunca poderão satisfazer.

Este artigo faz eco a quanto se lê no "Manual de Bioética" de Élio Sgreccia, vol. II, pp. 149-167.

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