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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 526 – abril 2006

 

O NOVO ADÃO

 

O mês de abril-06 é o mês da Semana Santa, tempo de oração mais intensa para os cristãos. Ante os olhos da mente passam as cenas da Paixão de Cristo. Por mais variadas que sejam, elas têm um Fio condutor: a recriação do ser humano, vítima do pecado dos primeiros pais.

 

Com efeito; após a culpa de Adão, o Criador podia ter abandonado seu desígnio de tornar a criatura consorte da bem-aventurança celeste. O Não do homem teria prevalecido sobre a benevolência divina. Tal, porém, não foi o caso. O Criador não se deixou vencer pelo mal, mas quis vencer o mal com o bem (cf. Rm 12, 21). Para tanto, o próprio Deus assumiu a natureza humana no seio de Maria Virgem e percorreu as etapas da vida do homem mortal até provar a morte..., mas ultrapassou a morte, ressuscitando como novo Adão ou novo pai do gênero humano. Assim a própria natureza humana que pecou, tomou-se instrumento da sua redenção; "Culpat caro, purgat caro, regnat caro, Dei caro. - Acame peca, a carne contribui para a purificação. Acame reina. A carne assumida por Deus"., eis o que se canta num hino da Liturgia da Ascensão.

 

Este procedimento divino se chama "recapitulação" ou "recirculação". Consiste em voltar atrás e recomeçar na direção correta o caminho mal percorrido anteriormente. Assim como o primeiro Adão foi até a morte por desobediência, o segundo foi também até a morte, mas por obediência e amor ao Pai. O caminhar para a morte - consequência do pecado (Rm 5,12) - não foi extinto, mas dotado de sentido novo; tende a uma morte que não é morte, mas é Páscoa, é passagem para a plenitude da vida. Nessa caminhada o cristão pode sofrer, mas sofre com Cristo numa atitude de vencedor, porque unido Àquele que triunfou sobre a dor e a morte.

 

Não se poderia conceber modalidade mais sábia e bela de reparar as desgraças do primeiro pecado. A justiça é respeitada ("No dia em que desobedeceres, tu te afastarás da Vida, Gn 3, 3), mas sobrevêm-lhe o amor e a misericórdia, que ultrapassam a morte, fazendo a nova criatura (2Cor 5, 17).

 

O sacramento do Batismo é o elo que liga Cristo, vencedor da morte, a cada geração cristã. Por isto, ao celebrarmos a Páscoa, renovamos nosso compromisso batismal de renunciar à herança do primeiro Adão, que ainda existe em nós e sorrateiramente nos tenta, para viver mais e mais sob o impulso da graça do segundo Adão, gerado em nós seminalmente no dia em que fomos batizados. Dois princípios de vida existem em cada um(a) de nós: os resquícios do primeiro Adão, marcados pelo pecado e a morte, e a realidade do novo Adão, que tende a se desenvolver sempre mais, absorvendo e transfigurando o que é velho e mortal em cada indivíduo. - Ora ser cristão é vivenciar diariamente essa transição do velho para o novo até se configurar plenamente à imagem do Cristo Jesus em cada um de seus discípulos.

 

É a feliz consecução desta meta que a Redação de PeR deseja a todos os seus amigos. Santa Páscoa!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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