MUNDO ATUAL (1661)'
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Artigo

A consagração é serviço, e não um comércio

 

 

16/03 – Fonte: Jornal do Brasil - Dom Orani João Tempesta  

Na semana em que vemos várias notícias acerca de pessoas que usam, erroneamente, da boa-fé de pessoas simples para iludir as pessoas desavisadas, devemos nos deter diante da consagração ministerial, que é um serviço ao Povo de Deus, servindo-o e não se servindo das ovelhas. Cristo, sendo filho de Deus, não caminhou sozinho por essas terras. Em seu projeto de amor, escolheu pessoas que estavam ao seu lado. Ao longo de toda a História, Deus, em sua infinita misericórdia e plano de salvação, suscitou homens e mulheres para se consagrarem completamente a seu serviço. Como tal, o chamado e resposta a Deus nunca deve ser visto apenas como um trabalho ou uma profissão.

A consagração é doação plena no amor. Não busca o próprio beneficio, nem busca o próprio interesse (cf. Cor. 13). Responder ao chamado de Deus buscando outra finalidade que não seja o entregar-se a ele e aos irmãos é deixar-se enganar e caminhar por uma espiral de egoísmo que empobrece a própria consagração.

O primeiro prejudicado é a própria pessoa, pois cai na pior armadilha do demônio e é dominada pelo pior castigo que Deus pode infringir a uma pessoa: o abandono do pecador às próprias paixões (Cf. Rm 1,26). Por isto, não é de surpreender quando vemos na televisão notícias de lobos disfarçados de pastores. O pastor que confunde serviço com comércio faz-se partícipe das desgraças espirituais e morais que permeiam a humanidade. O escândalo que advém daqueles que deveriam ser os promotores do amor e da verdade corrói a fé e a esperança do povo.

A consagração não é um meio de subsistência, não é um palco, nem loteria, muito menos um espetáculo. Pior ainda quando instrumentalizo a fé para enganar a outros, a fim de enriquecer "vendendo" curas e milagres. Cria-se um comércio da fé, levando a uma idolatria, seja dos benefícios de "deus" para aquele que a "compra", como a idolatria do "dinheiro". 

Infelizmente, permeia na sociedade brasileira uma teologia da prosperidade, onde rouba de Deus tudo que tem de divino e deforma a fé do povo, especialmente dos mais necessitados. Nesta falsa e errônea teologia, se podemos chamá-la de tal, Deus é uma aspirina espiritual, que cura de todas as dores causadas pelo diversos problemas e dificuldades da vida. Mas o que acontece quando o homem, por si só, encontra a cura? Deus desaparece da vida.

Uma antiga oração hebraica nos ensina maravilhosamente bem sobre como devemos nos relacionar com Deus:

Senhor,

Se eu te amar por querer o céu,

Exclua-me dele...

Se eu te amar por medo do inferno,

Joga-me nele...

Agora, se eu te amar pelo que tu és,

Senhor, não me escondas o teu rosto...

Devemos amar a Deus por ser Deus. Este é o único e verdadeiro beneficio do cristão, do seguidor de Cristo. Buscar outras coisas é deixar-se enganar e não ser conduzido pela verdade. Vemos isso claramente nos primeiros apóstolos que abandonaram tudo para estar com Cristo. A Oração Eucarística II tem uma frase, logo depois da consagração, que indica com precisão a única e verdadeira missão do discípulo: “astare coram te et tibi ministrare”. Estar com Cristo e a Ele servir, este é o programa e meta de todo consagrado e cristão. As demais coisas virão por acréscimo (Cf. Mt. 6,33). Buscar outra coisa que não seja Deus é trocar o fim pelos meios. É querer trocar o único objeto capaz de saciar a sede infinita de minha alma, e transformá-lo em um trampolim para alcançar outros fins. Nesse processo, eu perco tudo, tanto a Deus, como as coisas. A ordem no amor nos permite amar verdadeiramente. Um dos nomes do inimigo de Deus é Diabo, que significa aquilo que separa ou divide. Ver e viver a fé desde uma visão comercial é deixar-se enganar pelo mal. É possuir uma visão de Deus que separa o que ele realmente é daquilo que eu cultuo. Há uma esquizofrenia na fé, que leva a ações igualmente perturbadoras. Nunca teremos um conhecimento total e pleno de Deus, seja pela transcendência divina, seja por nossa limitação humana. Mas conhecemos algo dele através de nossa inteligência, que é espiritual e capaz de transcender o dado empírico, e também através da revelação.

A beleza, bondade e justiça de Deus significa harmonia e unidade. A recomendação de Jesus no Evangelho “Pedi e vos será dado” ( Mt 7, 7-12) pode ser facilmente deturpada. Deus sabia que corria este risco ao revelar seu nome ao povo da Antiga Aliança (cf. Ex. 3,14-15). Se outro conhece meu nome, ele pode me invocar, chamar, pedir favores. Era isto que Deus queria, mas nós, como criaturas pecadoras, podemos deformar o desejo de Deus e querer que Deus se adapte a meus planos. Essa atitude se observa ao me sentir injustiçado quando, mediante um sacrifício, penitência ou oração, Deus não concede a graça esperada. No entanto, esquecemos que Deus é onisciente, e nossa oração de petição é principalmente para que eu recorde que Deus existe e para abrir meu coração ao que Deus deseja que eu receba. Quando a oração de petição não nasce de um coração que ama a Deus pelo que ele é, automaticamente nos fechamos àquilo que Deus deseja para nós, pois nos fazemos incapazes de escutar a voz de Deus.

Aproveitemos a Quaresma para buscar intensamente através da oração, do jejum e da penitência o Deus vivo, o Deus verdadeiro, aquele que não pode ser instrumentalizado. Purifiquemos algum resquício de falsa concepção de Deus que possamos ter. Peçamos a Maria, rainha dos apóstolos, aquela que soube ouvir a voz de Deus, e dizer “sim” à graça de não cair na tentação e na sedução de uma teologia da prosperidade que transforma a fé em comércio.

Peçamos a Deus a graça de descobrir os lobos em pele de Bom Pastor e, assim, não cair em suas presas. Também nos coloquemos em oração, por todos que, por boa vontade, vivem no erro que os afasta de Deus. A justiça e a misericórdia em Deus caminham unidas. Ele saberá olhar para estes ovelhas perdidas e nos dará a força para impedir que mais pessoas sejam enganadas, vivam na mentira e pratiquem o mal. 

Dom Orani João Tempesta, cisterciense, é arcebispo do Rio de Janeiro.

 


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