REVISTA PeR (1776)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 549 – março 2008

Segunda encíclica de Bento XVI

 

"NA ESPERANÇA FOMOS SALVOS"

(Rm 8, 24)

 

Em síntese: A segunda encíclica do Papa Bento XVI trata da esperança, mostrando que até o século XVI os homens punham sua esperança em Deus e no Reino de Deus. A partir do século XVI, com a descoberta de novas terras, começaram a pôr sua esperança na ciência, preparando o reino do homem. Reivindicaram para si o uso da razão e da liberdade. Todavia o cientificismo não corresponde à expectativa da humanidade; o mundo está agitado à procura de um termo seguro para sua esperança. Este termo existe e é Deus, que tanto amou o homem que lhe entregou seu Filho único. Os homens que não aceitam Deus, não têm esperança (cf. Ef2, 12).

 

Aos 30 de novembro 2007 o Santo Padre Bento XVI assinou a sua segunda carta encíclica (circular), versando esta sobre a esperança. O texto é rico em citações, percorre a história da esperança entre os homens desde os tempos do paganismo até nossos dias e conclui que sem Deus não há esperança.

 

Pode-se dizer que a encíclica aborda a esperança desde o tempo do paganismo pré-cristão até o século XVI, quando se deu a reviravolta para o homem e se trocou a esperança em Deus pela esperança na ciência e na razão. Esta segunda fase chega até nossos dias, que encontram a humanidade aflita e amedrontada. É, pois, chegado o momento de se reformular a esperança, dando lugar a Deus como o sustentáculo seguro da esperança da humanidade. Desenvolveremos, a seguir, esses três segmentos da encíclica assim como o Apêndice da mesma ("Lugares em que se aprende e exercita a esperança").

 

O texto latino da encíclica começa pelas palavras "Spe Salvi (Na esperança salvos)", palavras com que se costuma designar a encíclica.

 

1. Da antiguidade pré-cristã ao século XVI

 

Em Ef 2, 12 diz o Apóstolo que os efésios antes da sua conversão ao Cristianismo, eram "sem esperança e sem Deus"; os mitos haviam perdido seu sentido, o ceticismo penetrara nas classes mais cultas, embora persistisse uma religiosidade formal, não suficiente para sustentar a luta do ser humano. Cristo veio revelar Deus aos homens; a fé no Deus revelado está muito ligada à esperança; ela suscita a esperança, tanto que São Pedro pôde dizer aos seus fiéis que estejam sempre prontos a dar a razão da sua esperança (1 Pd 3, 15). Quem abraçava essa fé-esperança, mudava de vida. Muito significativa é a carta de São Paulo a Filemon, em que o Apóstolo diz ao destinatário que receba o escravo fugitivo Onésimo não mais como escravo, mas como irmão (Fm 10-16).

 

Passando para os primeiros séculos do Cristianismo, sejam mencionados sarcófagos cristãos, que apresentavam Cristo como Filósofo e Pastor. O filósofo na antiguidade era quem ensinava aos homens a arte de viver e morrer; ora Cristo foi entendido como Filósofo que numa mão segura o Evangelho e na outra o bastão de quem peregrina e remonta de algo de melhor; Pastor, porque acompanha os fiéis pelo vale da morte e lhes oferece tudo quanto possa saciar seus anseios.

 

Aprofundando estas idéias, o Papa diz que a fé não é apenas uma informação, mas é a posse incoativa ou seminal dos bens que nós esperamos.

 

"A fé não é apenas uma inclinação de pessoas em demanda de algo que ainda está totalmente ausente; ela nos dá, já agora, algo da realidade esperada e esta realidade presente constitui para nós uma prova das coisas que ainda não se veem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro ainda não (cf. Hb 11,1). É o que o Papa, com bons exegetas, depreende das palavras hypóstasis e elenchos de tal versículo.

 

Dito isto, o Papa pergunta a nós hoje: a fé cristã é também uma esperança que transforma e sustenta a nossa vida? Responde citando o rito do Batismo: quando o sacerdote pergunta aos pais da criança: "Que pedis à Igreja?" dizem os pais: "A fé". Continua o diálogo: "E que é que a fé vos dá?" Resposta: "A vida eterna". A vida eterna... eis o que desejamos, realidade de que não temos noção. S. Agostinho considera essa ambiguidade; queremos algo de que não temos noção, pois o eterno escapa da nossa experiência; por isto diz o santo doutor: "Queremos a vida bem-aventurada". Explicita Bento XVI: "A eternidade seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo - o antes e o depois - já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno" (no 12).

 

O Papa ainda aborda a questão: a esperança cristã é individualista?

 

A resposta é negativa: a carta aos Hebreus fala de uma cidade (cf. Hb 11, 10.16; 12, 22; 13, 4) e portanto de uma salvação comunitária... " Deixando de lado outros casos, procuremos lançar um olhar sobre um momento da Idade Média. Na opinião de São Bernardo de Claraval, que trouxe uma multidão de jovens para os mosteiros tidos como lugares de fuga do mundo ("contemptus mundi"), os monges desempenham uma tarefa para o bem de toda a Igreja e, por conseguinte, também de todo o mundo. Com muitas imagens ele ilustra a responsabilidade dos monges pelo organismo inteiro da Igreja ou, antes, pela humanidade (no 15).

 

2. Do século XVI aos nossos dias

 

Sem dúvida, o século XVI assinala uma nova época na história da humanidade, graças à descoberta da América e às novas conquistas técnicas. O homem começou a sentir-se dono da criação; o domínio dado ao homem por Deus sobre as criaturas inferiores e perdido no pecado original, ficaria restabelecido. A redenção que se esperava da fé em Cristo, passou a ser tida como fruto da ciência.

 

Tal modo de pensar foi-se acentuando no século XVIII com o racionalismo, que enaltecia a razão e a liberdade. Esta dupla havia de explodir na Revolução Francesa de 1789.

 

O século XIX intensificou as concepções vigentes mediante a teoria de Karl Marx, materialista e ateu. Todavia tanto o cientificismo como o marxismo fracassaram. No século XX Teodoro W. Adorno formulou a problemática do progresso e da fé no progresso. Não há dúvida de que este possibilita o bem, mas é ambíguo: abre também potencialidades de mal. Escreve o Papa:

 

"Nós fomos testemunhas de como o progresso em mãos erradas pode tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terrível no mal. Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem no crescimento do homem interior (cf. Ef 3, 16; 2Cor 4, 16), então aquele não é Progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo" (no 22).

 

"O homem tem necessidade de Deus; do contrário, fica privado de esperança. Consideradas as mudanças da era moderna, a afirmação de São Paulo em Ef 2,12 revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto não há dúvida de que um reino de Deus realizado sem Deus - e por conseguinte um reino somente do homem - inevitavelmente destina-se ao fim perverso de todas as coisas, descrito por Kant; já o vimos e vemo-lo sempre de novo. Por isto a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria: razão e fé precisam uma da outra para realizar sua verdadeira natureza e missão" (no 23).

Disto tudo segue-se a pergunta:

 

3. Qual a verdadeira fisionomia da esperança cristã?

 

Como se depreende de quanto foi dito até aqui, o bem-estar do homem não é garantido pelas estruturas, por mais válidas que estas sejam. Tais estruturas não podem nem devem impedir a liberdade humana. Dado que a liberdade humana é sempre frágil, não existirá jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado. Seria pedir demasiado à ciência que ela redimisse o homem.

 

"Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor... O ser humano precisa do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o leva a exclamar: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos... nem qualquer outra criatura, pode separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 38). Se existe esse amor absoluto, com a sua certeza absoluta, então - somente então - o homem está redimido; é isto que se entende quando afirmamos: Jesus Cristo redimiu-nos. Através dele tornamo-nos seguros de Deus, de um Deus que não constitui apenas uma remota causa primeira (como ensina a Filosofia) porque o seu Filho Unigênito se fez homem e dele cada um pode dizer: 'Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim'" (Gl 2, 20).

 

Após tais palavras (tiradas do no 28 da encíclica), o Papa termina dizendo enfaticamente:

 

"Precisamos das esperanças - maiores ou menores - que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas sem a grande esperança, que deve superar todo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir... Deus é o fundamento da esperança -não um Deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até o fim... O seu reino não é algo imaginário e colocado num futuro que jamais chega, o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança... O seu amor é, para nós, garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e contudo no íntimo esperamos a vida que é verdadeiramente vida" (no 31).

 

Estas palavras sintetizam a linha doutrinária da encíclica: somente com base em Deus pode haver esperança para o homem. E, já que o Papa escreve para os fiéis católicos, define esse Deus como sendo o Amor que nos amou primeiro e enviou seu Filho para nos salvar da morte causada pelo pecado.

 

Quase à guisa de Apêndice, o Papa propõe três "lugares de exercício da esperança".

 

4. "Lugares" de aprendizagem e exercício da esperança

 

4.1. A oração como escola de esperança

"Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar, se não há mais ninguém que me possa ajudar,... Ele pode ajudar-me... S. Agostinho define a oração como um exercício do desejo. O homem foi criado para uma realidade grande, ou seja, para o próprio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas o seu coração é demasiado restrito para a grande realidade que lhe está destinada. Tem de ser dilatado pela oração" (no 33).

 

Assim tornamo-nos capazes da Grande esperança e ministros da esperança para os outros; a esperança, em sentido cristão, é sempre esperança também para os outros" (no 34).

 

4.2. Agir e sofrer como lugares de aprendizagem da esperança

"O esforço cotidiano pela continuação de nossa vida se transforma em fanatismo se não nos ilumina a luz daquela grande esperança que não pode ser destruída sequer pelos maiores fracassos. É importante saber: eu posso sempre continuar a esperar, ainda que pela minha vida não tenha mais qualquer motivo para esperar" (no 35).

 

A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Nos nossos muitos sofrimentos sempre temos necessidade das nossas pequenas e grandes esperanças. Nas provações verdadeiramente graves, enquanto temos de sobrepor a verdade ao bem-estar, à carreira e à propriedade, a certeza da grande esperança faz-se necessária.

 

O Santo Padre acrescenta algo que diz respeito à piedade:

 

"Gostaria de acrescentar ainda uma pequena observação não sem importância....: fazia parte de uma forma de devoção menos praticada hoje a ideia de poder oferecer as pequenas canseiras da vida cotidiana dando-lhes assim um sentido. As pessoas que o praticavam estavam convencidas de poder inserir no grande com-padecer de Cristo os seus incômodos, que passavam assim a fazer parte do tesouro de compaixão de que o gênero humano necessita. Deveríamos talvez interrogar-nos se verdadeiramente isto não poderia voltar a ser uma perspectiva sensata também para nós" (no 40).

 

4.3. O juízo como "lugar" de aprendizagem e exercício da esperança

 

A imagem do juízo final não é primeiramente uma imagem aterradora, mas de esperança; a nosso ver, talvez mesmo a imagem decisiva da esperança... Deus é justiça e cria justiça... Mas Ele também é graça.

 

Aos que trazem algum resquício de pecado ao comparecerem diante de Deus no final da sua carreira terrestre, Ele propicia o purgatório póstumo, cujo significado já era conhecido pelos judeus pré-cristãos.

 

4.5. Maria, estrela da esperança

 

"Junto da Cruz, na base da palavra mesma de Jesus, vós vos tornastes a Mãe dos crentes. Assim vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua mãe; como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Estrela do Amor, brilhai sobre nós e indicai-nos o nosso caminho!" (nQ 59)

 

5. Reflexão final

 

O texto é vazado no estilo de uma aula muito erudita, mas, ao mesmo tempo, muito voltado para a piedade. A fé e o amor profundos de Bento XVI transparecem em cada página dessa bela encíclica, que pode muito bem ser recomendada aos que não compartilham a fé católica.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)