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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 014 – fevereiro 1959

 

Ciência e Religião

O Calendário Gregoriano

 

Pergunta: “Desejava um esclarecimento sobre o calendário Gregoriano e as modernas tendências a reformá-lo”.

 

Calendário provém do termo latino Calendae e da raiz grega kal, a qual significa chamar (donde kalein, chamar, em grego; calare, em latim). Em latim, o uso da palavra era restrito à linguagem sacral, servindo para designar a convocação do povo para o Campidoglio, feita por um dos sacerdotes quando a lua entrava em sua fase crescente, convocação que visava comunicar ao público os dias das nonas (isto é, do quarto crescente) e dos idos (da lua cheia). Calendae consequentemente passou a significar o primeiro dia do mês (dia da convocação); por extensão, o mesmo termo designava mais tarde o mês inteiro.

 

Calendarium vinha a ser, entre os romanos, o registro no qual os banqueiros anotavam os jutos no primeiro dia de cada mês. Por fim, calendarium tomou o significado atual, designando o sistema de medir o tempo, sistema nitidamente relacionado com os fenômenos astronômicos. Principalmente a religião (em suas diversas fases e modalidades) se interessou pelo calendário, pois todos os povos tiveram sempre consciência de que o tempo é algo de sagrado, que convém observar fielmente.

 

Vejamos agora em que consiste

 

1. O Calendário Gregoriano

 

O Calendário Gregoriano supõe o calendário chamado “Juliano”. Este, por sua vez, foi ocasionado por certo impasse ocorrente na contagem do tempo em Roma.

 

No primeiros tempos de Roma os meses eram de 29 ou 30 dias, contando-se, a partir de Numa Pompílio (715-672 a. C.), doze meses num ano. Mais tarde Roma adotou o ano civil de 335 dias, com seus meses de 28. 30 e 31 dias, ficando apenas uma diferença de aproximadamente 6 horas entre o ano civil e o ano trópico.

 

Sob Júlio César, a diferença acumulada entre um e outro destes já era de 85 dias. O Imperador resolveu então remediar a situação, decretando que o ano de 46 a. C. (708 de Roma) teria 85 dias a mais (donde se originou o chamado annus confusionis, ano de confusão). A seguir, conforme o parecer do astrônomo alexandrino Sosígeno, resolveu que de então por diante se atribuiriam ao ano civil 365 dias e 6 horas (quando na verdade o ano trópico consta de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos); pelo que, de quatro em quatro anos se acrescentaria ao ano um dia complementar, chamado dia bissextil. Este nome se deve ao fato de que a inserção se fazia entre 23 e 24 de fevereiro; ora, o dia 24 de fevereiro sendo o sextus calendas martii, o dia intercalado ou suplementar passou a ser bissextus calendas martii, e o ano correspondente tomou o nome de ano bissextil.

 

O Calendário juliano assim concebido era sistema assaz esmerado. Contudo a diferença de menos de 12 minutos que nele distanciava o ano civil do ano trópico, havia de provocar a diferença de um dia em 128 anos. No tempo de César, após a reforma, o equinócio da primavera caía no dia 24 de março; 128 anos mais tarde, caia no dia 23 de março; 256 anos depois, no dia 22 do mesmo; por ocasião do concilio de Nicéia (325) estipulou-se o dia 21 de março. Em fins do séc. XVI o equinócio da primavera já cairia perto do dia 11 de março; caso o processo continuasse, as estações do ano viriam a se deslocar por completo dos seus meses habituais. Sendo assim, bispos e sábios medievais, conscientes de tais falhas, pediam a reforma do calendário vigente.

 

Em 1232, o monge escocês João de Holywood. em sua obra De anni ratione, sugeria mudança do sistema de intercalação do dia bissextil. Rogério Bacon (+1294), no seu «Opus maius ad Clementem IV», propunha ao Pontífice uma reforma do calendário. O Papa Clemente VI em 1345 encarregou dois matemáticos franceses de a estudar. Os concílios de Constança (1414) e Basiléia (1436) também trataram do assunto. Sixto IV (+1484) chamou a Roma, a fim de estudar a reforma o famoso astrônomo Regiomontano (João Müller de Kõnigsberg), o qual, porém, morreu antes de terminar o seu projeto. O Papa Leão X, no concilio V do Latrão (1513-1517), deu novo impulso à reforma do calendário. Por fim. o concilio de Trento pediu-a expressamente ao Papa.

 

Gregório XIII (1572-85), assim solicitado, abriu um concurso entre os astrônomos, valendo-se da colaboração dos mais famosos matemáticos da época (os irmãos Aloísio e Antônio Lílio, o dominicano Inácio Danti, o jesuíta alemão Cristóvão Clau e o espanhol Pedro Chaón); após deliberar longamente sobre as fórmulas apresentadas, o Pontífice houve por bem dar preferência à de Aloísio e Antônio Lílio; mandou então em 1577 cópias do projeto a todos os príncipes e Estados católicos. Apoiado por estes, publicou finalmente cinco anos mais tarde, aos 24 de fevereiro de 1582 (bula «Intergravíssimas»), o novo calendário (ou calendário «novo estilo», em oposição ao calendário «velho estilo»).

 

A primeira norma da reforma, visando extinguir a diferença entre ano civil e ano trópico, mandava que a quinta-feira 4 de outubro de 1582 fosse imediatamente seguida da sexta-feira 15 de outubro do mesmo ano (tal medida não provocaria hiato entre os dias da semana); assim doravante o dia 21 de março coincidiria, como supunha o concilio de Nicéia (325), com o equinócio da primavera.

 

Era preciso, porém, evitar a repetição do desajuste... Já que este provinha do fato de que o ano civil era desde Júlio César (e continuava sendo) considerado 1/128 de dia (11 minutos e 12 segundos) mais longo do que o ano trópico (isto é, mais ou menos três dias em 400 anos), Gregório XIII dispôs não fossem considerados bissextos os anos de século não divisíveis por 400 (assim em todo período de 400 anos, três dias eram supressos). Por conseguinte, seriam bissextos os anos de 1600, 2000, 2400, não, porém, os de 1700, 1800, 1900, 2100. Este corretivo (chamado equação solar) tomar-se-ia plenamente eficaz pelo prazo de mais de 3000 anos: de 3320 em 3320 anos, porém, será preciso suprimir um dia.

 

A reforma gregoriana aos poucos foi sendo adotada pelos povos cultos. Na Espanha, em Portugal e em parte da Itália a supressão de dez dias fez-se na mesma data que em Roma. Na França ela se realizou pouco depois : o dia seguinte ao domingo 9 de dezembro de 1582 foi contado como segunda-feira 20 do mesmo. A Polônia adotou a mudança em 1586 ; a Hungria, em 1587. Nos Estados protestantes, porém, a resistência fez-se sentir: a Alemanha só aceitou o calendário «novo estilo» em 1700; a Inglaterra, em 1752.

 

Quanto aos cristãos-cismáticos orientais, ainda seguem o calendário juliano, ao menos na Liturgia: no ano 2100 estarão com um atraso de treze dias em relação à Igreja universal. É de crer, porém, que não tardarão a reconhecer as vantagens do calendário corrigido. Antes de empreender a sua reforma, Gregório XIII, aliás, consultou o Patriarca de Constantinopla sobre o assunto; mas, longe de obter resultado, seu sistema foi explicitamente condenado por um sínodo oriental em 1593. Contudo em 1923 o patriarcado de Constantinopla, as circunscrições eclesiásticas de Atenas, Cipro, da Polônia (cismática) e da Romênia adotaram o calendário gregoriano para designar ao menos as suas festas fixas (o dia seguinte a 30 de setembro foi dito 14 de outubro de 1923). Em 1948 o sínodo “panortodoxo” de Moscou resolveu deixar liberdade de escolha, no caso, a todas as comunidades cristãs da órbita soviética. De resto, têm-se registrado nos últimos tempos adesões notáveis : a Turquia adotou o calendário gregoriano em 1924; o Japão já o introduzira em 1873; a China, em 1912; a Bulgária, em 1916. Muçulmanos e israelitas ainda não o reconhecem.

 

2. Nova reforma do Calendário ?

 

O calendário gregoriano, embora seja obra respeitável, não deixa de apresentar defeitos, aliás em parte herdados do antigo calendário romano. Há, por isto, quem julgue que os astrônomos de Gregório XIII não foram suficientemente longe em suas reformas... : porque terão guardado a desigual duração dos meses, a variabilidade da data de Páscoa, etc.? Estas considerações têm dado ocasião a projetos de renovação do calendário. Procuraremos abaixo delinear rapidamente o histórico do movimento para depois apreciar as suas principais teses.

 

a) Esboço histórico

 

Em 1834 o Pe. Mastrofini publicou em Roma uma obra em que preconizava um calendário imutável. Cinquenta anos depois, a revista «L Astronomie», dirigida em Paris por Camille Flammarion, abriu um concurso referente ao assunto, resolvendo premiar os primeiros vencedores.

 

No séc. XX a adesão de novas nações ao calendário gregoriano mais chamou a atenção para o valor do «padrão único» no tocante à contagem dos dias: as Câmaras de Comércio trataram do assunto em seus Congressos (Praga. 1908; Londres, 1910; Boston, 1912; Paris, 1914). Em 1914 o governo suíço se aprestava para fazer uma comunicação diplomática a todos os povos sobre o assunto quando irrompeu a primeira guerra mundial.

 

Pouco depois desta, em 1922, a União Astronômica Internacional elaborou um projeto que a Liga das Nações em 1923 resolveu submeter a todos os governos civis e autoridades religiosas. A própria Lia das Nações constituiu uma comissão encarregada do estudo da questão, comissão em que figuravam o Prof. Van Eysingha de Leyde, perito técnico no assunto, o R. P. Gianfranceschi Presidente da Academia Pontifícia dos «Nuovi Lincei», D. Egnitis, Diretor do Observatório Nacional de Atenas, designado pelo Patriarca de Constantinopla, o Rev. Philipps. representante do arcebispo de Cantuária (anglicano), Willis Booth, Presidente da Câmara Internacional de Comércio e G. Bigourdan, ex-presidente da comissão da União Astronômica. Esses representantes de diversos credos e interesses concordaram logo numa de suas primeiras sessões em que, «do ponto de vista estritamente dogmático, o exame da reforma do calendário, no que concerne tanto à festa de Páscoa como à questão mais geral da reforma do calendário gregoriano, não suscita dificuldades de natureza tal que se devam de antemão considerar insuperáveis» (Rapport relatif à la Réforme du Calender. Genève 1923,7.

 

Por fim, em 1930, fundou-se em Nova Iorque uma Associação Universal do Calendário, que publica a revista «Journal of Calendar Reform». Essa associação coordena eficazmente os esforços dos estudiosos de cada nação em prol do objetivo comum.

 

b) As teses reformistas

 

As propostas de inovações não visam retocar a correção feita ao calendário juliano por obra do Pontífice Gregório XIII em 1582. Esta emenda é tida por tão adequada quanto possível no estado atual da ciência. Os observadores, porém, focalizam dois pontos defeituosos no atual sistema:

- a falta de correspondência regular dos dias do mês com os dias da semana (o dia 1o de janeiro, se num ano cai em domingo, no ano seguinte cai em segunda ou, no caso de bissextilidade, em terça-feira);

- a mutabilidade da data de Páscoa. Esta solenidade é tradicionalmente celebrada no domingo que se segue à primeira lua cheia após o equinócio da primavera. Ora, sendo o equinócio da primavera colocado no dia 21 de março (de acordo com o concilio de Nicéia), a data de Páscoa pode deslocar-se de 22 de março a 25 de abril. A variabilidade de Páscoa acarreta naturalmente a variação de uma série de celebrações religiosas e civis (Ascensão, Pentecostes, Quaresma, Carnaval, etc.)

 

Não há dúvida de que estas duas características do calendário vigente causam transtornos aos diversos setores da atividade humana, principalmente à indústria, ao comércio e ao ensino. Além disto, a vida cristã, diz-se, seria beneficiada pela fixação da data de Páscoa, pois o culto sagrado se desenvolveria dentro de um quadro mais regular e compreensível aos fiéis.

 

Em vista desse estado de coisas, os estudiosos, coligindo os diversos postulados dos grupos interessados, elaboraram o seguinte plano, que se tornou o mais focalizado dentre os seus congêneres:

 

1o TRIMESTRE

2o TRIMESTRE

3o TRIMESTRE

4o TRIMESTRE

1. Dom. 1º jan.

1. Dom. 1o abril

1. Dom. 1o julho

1. Bom. 1o out.

8. Dom.

8. Dom.

8. Dom.

8. Dom.

15. Dom.

15. Dom.

15. Dom.

15. Dom.

22. Dom.

22. Dom.

22. Dom.

22. Dom.

29. Dom.

29. Dom.

29. Dom.

29. Dom.

32. 1o fever.

32. 1o maio

32. 1o agosto

32. 1o novembro

36. Dom.

36. Dom.

36. Dom.

36. Dom.

43. Dom.

43. Dom.

43. Dom.

43. Dom.

50. Dom.

50. Dom.

50. Dom.

50. Dom.

57. Dom.

57. Dom.

57. Dom.

57. Dom.

62. 1º  março

62. 1o junho

62. 1o setembro

62. 1o dezembro

64. Dom.

64. Dom.

64. Dom.

64. Dom.

71. Dom.

71. Dom.

71. Dom.

71. Dom.

78. Dom.

78. Dom.

78. Dom.

78. Dom.

85. Dom.

85. Dom.

85. Dom.

85. Dom.

91. Sábado

91. Sábado

91. Sábado

91. Sábado

 

* Bissextil

 

# 365o dia

* De quatro em quatro anos, um dia bissextil, após 30 de junho.

# Todos os anos, o 365o dia, após 30 de Dez.

 

 

 

Como se vê, o ano de doze meses estaria repartido em quatro trimestres, cada qual constando de dois meses de 30 dias e um mês de 31 dias (ao todo, 91 dias). Cada trimestre começaria por um domingo e terminaria por um sábado; o dia 1o de janeiro seria sempre um domingo. O 365o dia do ano tomaria lugar após o dia 30 de dezembro, com o nome de «sábado bis» ou «dia branco», podendo ser equiparado a um domingo. O dia bissextil (outro «dia branco»), quando ocorresse, ocuparia o fim do segundo trimestre, após 30 de junho ; seria o dia 31 de junho, assemelhado a um domingo.

 

Quanto à Semana Santa, a sua estipulação dependeria naturalmente das autoridades religiosas, as quais, conforme alguns liturgistas, com vantagem poderiam escolher os primeiros dias de abril, ficando a solenidade de Páscoa definitivamente fixa no dia 8 desse mês.

 

Tal projeto tem merecido aplausos e apoio crescentes do público internacional. É natural, porém, que o cristão, antes de lhe aderir, examine se é ou não compatível com os dados da Revelação.

 

A esta dúvida deve-se responder que da parte da fé não há objeção dirimente contra o esquema proposto. A lei do Senhor manda, sim, que o homem, numa série de sete dias, de maneira especial consagre o sétimo a Deus, interrompendo seu trabalho material para se aplicar mais livremente aos valores eternos. A maneira, porém, de calcular os períodos de sete dias ou as semanas não é determinada pela lei divina. A Igreja só teria objeções contra o abandono da semana, ou seja, da distribuição do tempo em períodos de sete dias.

 

Contudo insiste-se : em vista da legislação do Pentateuco e da praxe tradicional vigente desde os tempos de Moisés (séc. XIII a.C.), de certo modo mesmo inculcada pelo concilio de Nicéia (325), seria realmente lícito aos cristãos dissociar das fases da Lua a festa de Páscoa ?

 

Em resposta, observe-se que o cálculo da data de Páscoa na base do ciclo da Lua, por muito tradicional que seja, pertence aos preceitos rituais da Antiga Lei, preceitos em parte condicionados pelas instituições vigentes na civilização anterior a Cristo (o mês lunar e o calendário luni-solar tinham outrora uma importância de que hoje já não desfrutam); ora os preceitos rituais do Antigo Testamento, sendo evidentemente provisórios, nada têm de dogmático; cabe, portanto, à autoridade da Igreja dispor a seu respeito, adaptando-os aos usos de épocas posteriores ; a fé cristã apenas exigirá que a Páscoa continue a ser celebrada em domingo. — Verdade é que a Igreja nunca aceitará sem sérios motivos a derrogação à tradição que sempre esteve em vigor no povo de Deus; ela só aprovará a fixação da data de Páscoa, caso esta corresponda realmente às aspirações do bem comum, tanto no setor religioso como no civil.

 

Em junho de 1935 uma comissão de estudiosos ingleses foi a Roma entregar ao Santo Padre Pio XI um memorial das mudanças que desejariam ver introduzidas no calendário gregoriano. A Santa Sé se mostrou de certo modo favorável ao projeto, contanto que o plano de reforma receba o apoio ao menos da maioria das comunidades interessadas no assunto. — Semelhante atitude tem sido adotada pelos cristãos cismáticos orientais e pelos protestantes ; requer-se naturalmente acordo prévio sobre qualquer reforma, a fim de evitar multiplicidade de calendários, fomentadora de confusão entre os fiéis.

 

Note-se, por fim, que não é intenção da Santa Sé preconizar reforma do calendário que não implique em fixação de Páscoa; ao contrário, as autoridades eclesiásticas têm dado a saber que percebem estar aquela reforma inseparàvelmente ligada a esta (cf. Journal of Calendar Reform, out. 1935, 117-9).

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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