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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 386/julo 1994

Sagrada Escritura

O NOVO CATECISMO EM INGLÊS

 

Há poucas semanas apenas foi publicado o Catecismo da Igreja Católica em tradução inglesa. A razão deste atraso é o impasse causado por movimentos feministas, que queriam eliminar do texto do Catecismo, da Liturgia, como também da Bíblia Sagrada, toda expressão que atribua a Deus a masculinidade. Assim, por exemplo, pleiteiam que os textos sagrados não mais se refiram a Deus como "Pai" e "Senhor"; o ser humano não deveria ser indicado pela palavra "homem" (Man), que parece dar ênfase ao masculino. Em suma, os livros litúrgicos, os Catecismos e a própria Escritura Sagrada deveriam passar por uma revisão radical.

As feministas propõem o uso de uma "linguagem inclusiva", em vez de "linguagem exclusiva" (exclusiva, ou seja, omissa ou avessa em relação às mulheres). Em conseqüência, não se deveria dizer "Paz aos homens de boa vontade...", mas "Paz ao povo de Deus". Não mais se deveria dizer "Deus Pai (Father)," mas simplesmente "Deus (God)". No Credo, em lugar de "Senhor (Lord)", dever-se-ia ler "Deus". Evitar-se-á dizer "a Igreja nossa Mãe", para usar apenas o título "a Igreja". Referindo-se à Encarnação do Verbo, querem banir a locução "o Filho se fez homem", substituindo-a por "o Filho se tornou realmente humano (became truly human)". Ao falar de Deus na terceira pessoa do singular, não se empregará o pronome "Ele", mas dir-se-á explicitamente "Deus", para evitar o pronome masculino.

Tais proposições têm encontrado resistência e críticas nos próprios países de língua inglesa. Daí a dificuldade de se chegar a uma tradução inglesa satisfatória do Novo Catecismo. O Wall Street Journal, em seu editorial de 7/5/1993, põe em relevo o desarrazoado da situação;

"O Novo Catecismo Católico deve ser submetido à tortura de uma burocracia contaminada por ideologia... que provocou a confecção de um Index das palavras proibidas nos Estados Unidos. Julgamos que tais mudanças são chocantes para quem possui dois vinténs de bom senso".

A imprensa inglesa informa que a primeira tradução do Catecismo foi rejeitada pela Santa Sé: em particular, a recusa de reconhecer Jesus Cristo como indivíduo do sexo masculino foi considerada como uma afronta à fé.

Segundo Mons. J. Michael Wrenn, Prelado pontifício em Nova Iorque, "a Congregação para a Doutrina de Fé, desaprovando o texto da tradução do Catecismo, prestou inestimável serviço à Igreja".

 

Por sua vez, muitos sacerdotes de língua inglesa declaram que não utilizarão as novas traduções da S. Escritura e dos livros oficiais da Igreja, caso se apresentem na linguagem dita "inclusiva".

 

Na verdade, a proposta feminista se, de um lado, pretende frisar o valor da mulher e a igual dignidade do masculino e do feminino (o que é correto e compreensível), recorre a um expediente que tem graves conseqüências para a fé. Com efeito; atinge textos sagrados que exprimem as verdades do Credo desde que começaram a ser reveladas. O termo "Pai" é utilizado pelo Senhor Jesus (cf. Jo 8,16.54; 10,30.38; 16,15; 20,21; Mt 18,35; 24,36 ...); o vocábulo "Senhor (Kyrios)" é muito familiar a São Paulo (cf. 1 Cor 7,10.12; 8,6, Fl 2,9s...); o vocábulo "homem" para designar o ser humano tem seu uso consagrado pelos séculos; todos entendem que pode ter sentido genérico, o qual inclui e não exclui a mulher ([1]). Foi sobre a terminologia bíblica que os doutores da Igreja e os Concílios estudaram e elaboraram as fórmulas de fé, como a de um só Deus em três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), a de Jesus Cristo (Deus Filho, que se fez verdadeiro homem), a da Igreja, Mãe que nos gera nas águas do Batismo, etc. Alterar esse vocabulário pode implicar alteração dos artigos da fé ou suscitar no povo de Deus confusões e mal-entendidos. Afinal os artigos de fé têm que ser formulados em linguagem humana, na língua corrente entre os homens; daí chamar-se Deus Pai e a Igreja Mãe. Sabemos, de resto, que na psicologia humana, vocábulos e conceitos estão intimamente ligados entre si, de tal modo que a mudança de vocábulo pode acarretar (talvez inconscientemente) a mudança de conceito.

Não se pode deixar de notar, por último, que a mulher na Bíblia é tida como símbolo muito vivo e expressivo do Amor de Deus; as páginas sagradas a dignificam, pois mostram a ternura da mulher como imagem da ternura do próprio Deus para com as criaturas:

Is 49,4s: "Sião dizia: "Javé me abandonou, o Senhor se esqueceu de mim'. Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti".

Is 66,12: "Sereis amamentados, sereis carregados sobre as ancas, e acariciados sobre os joelhos. Como a uma pessoa que a sua mãe consola, assim eu vos consolarei; sim, em Jerusalém sereis consolados".

Is 46,3s: "Ouvi-me, vós, da casa de Jacó... vós, a quem carreguei desde o seio materno, a quem levei desde o berço... Eu vos criei e vos conduzirei, eu vos carregarei e vos salvarei".

Eclo 4,10: "Serás como um filho do Altíssimo; ele, mais do que tua mãe, amar-te-á".

Estêvão Bettencourt O.S.B.



[1] Em latim, a palavra homo tem sentido genérico (e masculino), ao lado de vir (masculino).


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