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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 10 - Outubro de 1958

 

Limbo das Crianças

FRANCISCO (João Pessoa): “Qual a sorte das crianças que morrem sem batismo? O chamado 'limbo das crianças' não cessará no fim dos tempos ?

MÁXIMO (Itajubá): “O limbo das crianças será o mesmo que o dos Patriarcas da Antiga Lei ?

 

A sorte das crianças que morrem sem batismo tem sido objeto frequente da atenção dos teólogos. A Sagrada Escritura não a elucida diretamente; o Senhor apenas estabeleceu um princípio geral, afirmando que o sacramento do batismo é a via .normal para que alguém possa conseguir a bem-aventurança sobrenatural ou a visão de Deus face a face: «Se alguém não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus» (Jo 3,5).

 

Que se dá, porém, com os pequeninos que, sem culpa própria, mas, por omissão (culpada ou inculpada) dos mais velhos, morrem sem batismo ?

 

A Tradição cristã refletiu demoradamente sobre esta questão e chegou a conclusão bem lógica: deve existir o chamado «limbo das crianças», estado em que as almas dos pequeninos não participam da felicidade sobrenatural do céu prometida aos que recebem o batismo, mas tampouco padecem o castigo do inferno.

 

Tal conclusão, assim como a reflexão que a precedeu, são legítimas, já que a Revelação sobrenatural foi comunicada aos Apóstolos como gérmen que contém virtualidades múltiplas; estas estavam destinadas a se desabrochar lentamente no decorrer dos tempos, por efeito do trabalho paulatino da inteligência humana; cf. o que a propósito se acha no artigo Igreja e Tradição deste fascículo.

 

Vejamos, pois, com precisão como se desdobra o raciocínio dos teólogos com relação ao limbo, para finalmente apreciarmos algumas das sentenças mais recentes sobre o assunto.

 

1. Existência e significado do limbo

Eis como procede a reflexão teológica:

 

1) As crianças mortas sem o sacramento do batismo não podem gozar da visão de Deus sobrenatural, por carecerem do princípio indispensável para tanto, que é a filiação divina, a graça santificante. Como é óbvio, só pode ver a Deus face a face quem participa da vida íntima de Deus; ora esta participação nos é dada pela regeneração sobrenatural, pelo batismo (cf. Jo 3, 15). — Com outras palavras: todo órgão visual é adaptado à claridade do seu respectivo objeto; em virtude desta adaptação, ele pode ver tudo o que lhe é conatural; é cego, porém, diante dos objetos dotados de maior luminosidade. Pois bem; algo de análogo se dá na visão celeste de Deus: ela requer um «olho» espiritual adaptado ou sobrenaturalmente elevado, sem o qual ela se torna impossível, pois Deus é infinitamente claro, inteligível, ao passo que a inteligência humana é essencialmente finita.

 

2) Não seria, porém, condizente com a Justiça Divina afirmar que Deus condena ao inferno esses pequeninos incapacitados de ir para o céu. Com efeito, não podem ser equiparados aos réprobos, já que não cometeram pecado pessoal algum.

 

3) Tais criancinhas, pelo fato de não serem batizadas, trazem em si a mancha do pecado original, contraída por descenderem de Adão. Essa mancha consiste na carência dos dons sobrenaturais e preternaturais que Deus conferiu ao homem no paraíso e que o primeiro pai devia transmitir a seus descendentes. Tal carência, porém, embora nos torne disformes ou alheios ao exemplar que Deus nos traçou, não afeta a natureza humana como tal; esta, mesmo despojada do sobrenatural e do preternatural, conserva íntegras suas potencialidades naturais, entre as quais estão a faculdade de conhecer e a de amar.

 

4) Disto tudo se segue deva haver um estado póstumo em que as almas das criancinhas não batizadas possam viver conforme as suas faculdades naturais, gozando da bem-aventurança que compete à natureza humana como tal ; elas veem a Deus não face a face (pois isto é impossível à finita inteligência humana entregue a si mesma), mas analogamente, isto é, como se Deus fosse um sublime espírito criado (o que quer dizer: muito mais claramente do que nós nesta vida, em que tudo concebemos à semelhança de coisas materiais e sensíveis).

 

É a esse estado que se dá o nome de «limbo, limbo das crianças» (do latim «limbus» orla de uma veste, zona limítrofe), pois que a alguns teólogos medievais parecia estar situado à margem do «inferno» (= lugar inferior, subterrâneo) dos réprobos (não se dê grande importância à topografia pressuposta por tal nomenclatura ; reduz-se a figuras de linguagem).

 

Convém agora sublinhar, dentre as notas características do limbo, as seguintes:

 

a) no limbo, as almas não sofrem, mas, ao contrário, são afetadas de grande felicidade: elas se aplicam, sim, à contemplação de Deus, o objeto mais nobre da inteligência, sem conhecer os entraves que a vida neste mundo opõe à contemplação; embora tal visão de Deus não seja direta, mas análoga, dependente da exígua capacidade do intelecto criado, ela não pode deixar de acarretar profunda bem-aventurança para quem a exerce. É S. Tomás quem o ensina:

Essas crianças nunca foram proporcionadas à vida eterna (sobrenatural); esta não lhes era devida nem em virtude dos princípios da natureza, nem em razão de algum ato pessoal que as proporcionassem a tão grande bem. Por isto não experimentarão aflição por estarem privadas da visão divina (face a face); ao contrário, regozijar-se-ão por tudo que de bens naturais receberão da Bondade divina” (In II Sent. dist. 33, qu. 2, a. 2 ad 2).

 

As almas no limbo, embora tenham sido destinadas, como as dos demais homens, a gozar da visão face a face de Deus, não experimentam a dor que para elas poderia decorrer do estado de privação em que se acham: uma vontade reta e ordenada só deseja o que lhe é possível ou o que está na linha da sua natureza; ora, como a visão beatífica é sobrenatural, excedendo o alcance das forças humanas, não é objeto de desejo por parte das almas do limbo, as quais, por conseguinte, não se sentem frustradas por não a possuir; ao contrário, têm consciência de gozar de tudo que a sua natureza possa desejar. Nem concebem inveja dos justos bem-aventurados do céu; antes se alegram pela felicidade de que estes desfrutam. — Vê-se, em consequência, quão pouco adequada é a expressão, frequentemente usada, «condenação ao limbo» ; o limbo, na verdade, não implica em condenação, mas, antes, no que se poderia chamar «detrimento», análogo ao que alguém experimenta quando, por fatores involuntários, lhe vê escapar uma herança valiosa, herança, porém, à qual não tem direito algum.

 

b) A duração do limbo não terá fim, já que, como ensina a fé cristã, a morte assinala a cada indivíduo o seu estado definitivo. Ademais as almas das criancinhas mortas sem o batismo não possuem, nem podem adquirir (após a morte ninguém é capaz de merecer) o princípio intrínseco ou a graça santificante que as habilite a ver Deus face a face; a vida do céu lhes seria, portanto, estranha. De outro lado, a Justiça de Deus jamais permitirá sejam condenadas ao inferno. Donde se conclui que gozarão para todo o sempre (a alma é imortal) da bem-aventurança natural de que são capazes na hora da morte.

 

Na terminologia teológica fala-se também do limbo dos Pais, lugar ou estado em que os justos do Antigo Testamento aguardavam o Redentor para poder entrar na bem-aventurança celeste; é claro que esse estado não implicava em tormentos. Deixou de existir depois que Cristo abriu a todos os justos o ingresso no reino de Deus. É ao limbo dos Pais que se refere o símbolo de fé quando ensina que Jesus Cristo, no tríduo de sua morte, «desceu aos infernos»; o Senhor foi anunciar às almas justas que O esperavam numa região presumidamente “subterrânea”, a boa noticia da Redenção. Cf. PR 8/1957, qu. 2.

 

2. Sentenças recentes sobre o assunto

 

A existência do limbo concebido nos termos acima é admitida pelos teólogos a partir da Alta Idade Média. A noção foi sendo elaborada desde que no séc. V por ocasião da heresia pelagiana, se começou a focalizar na Teologia o pecado original; somente no séc. XII, porém, depois que S. Anselmo precisou em que consiste a culpa original, é que os teólogos conceberam claramente a noção do limbo. Desde então tem sido professada como sentença comum, à qual o Papa Pio VI em 1794 deu certa autoridade, condenando uma proposição do Sínodo de Pistóia que a negava (cf. Denzinger 1526).

 

Não obstante, vários e bons autores modernos têm procurado explicar a sorte das crianças mortas sem batismo, fazendo abstração do limbo. O fato de que a autoridade eclesiástica permite a divulgação de suas sentenças é suficiente para evidenciar que a existência do limbo não constitui uma proposição dogmática, mas é, como se exprime um teólogo contemporâneo, «uma explicação segura e comumente aceita de uma questão difícil» (G. Dyer, Limbo: A Theological Evaluation, em «Theological Studies» 19 [1958] 49).

 

Dentre as teses da Teologia atual referentes ao nosso assunto, poder-se-iam destacar as seguintes:

 

a) Na hora da morte, Deus concede aos pequeninos que não possam ser batizados, uma iluminação repentina, mediante a qual se tornam capazes de conceber e livremente desejar o batismo. Assim Deus facultaria às criancinhas a oportunidade de optar pelo sacramento e adquirir, por conseguinte, a bem-aventurança, caso aceitassem a oferta divina ; em caso contrário, perder-se-iam eternamente. Não haveria, porém, estado intermediário entre o dos justos no céu e o dos réprobos no inferno.

 

b) A Igreja, na sua Liturgia, apresenta ao Senhor Onipotente preces pela salvação de todos os homens (cf., por exemplo, as orações do Ofertório da Missa). Ora tal universalidade de intenções não pode deixar de beneficiar também os pequeninos que faleçam sem batismo; há de suprir mesmo os efeitos deste sacramento, merecendo-lhes a visão beatífica.

 

c) Na impossibilidade de prover ao batismo de seus filhinhos moribundos, os pais que os ofereçam a Deus com fé e amor, obtém-lhes a graça da salvação eterna.

 

Várias outras teorias têm sido propostas, dilatando cada vez mais as possibilidades de salvação das crianças; os autores, contudo, professam docilidade a uma eventual declaração da Igreja. O Pe. P. Gumpel, professor de Teologia em Roma, publicou recentemente uma lista de teólogos e institutos de Teologia contemporâneos que de certo modo professam sentenças largas sobre o assunto debatido: enunciou quinze nomes franceses, treze alemães, onze flamengos ou holandeses, seis ingleses ou norte-americanos e três espanhóis; Gumpel verificava que as novas teorias se vão difundindo com rapidez e que os mais recentes Catecismos, ao tratar do limbo, se mostram mais reservados do que os antigos. Todavia nenhum dos autores que defendem nova sentença sobre o assunto, põe em dúvida a absoluta necessidade de se batizarem as crianças logo que possível ou com a urgência sempre recomendada pela Igreja. Não poucos teólogos chegam a distinguir entre a sorte das crianças que sem culpa dos pais e a das que por culpa dos pais morrem sem batismo.

 

A Santa Sé ainda aos 18 de fevereiro de 1958 inculcou essa urgência, que é imperiosa independentemente da sentença teológica que o cristão queira abraçar a propósito da sorte dos pequeninos não batizados (cf. A. A. S, 50 [1958] 114). Veja também P. R. 6/1958, qu. 4.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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