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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 012 – dezembro 1958

 

Mulher e Indumentária Masculina

MORAL

QUIRINO (Bauru) e ALMA ESTUDIOSA (São João del-Rei):

Haverá motivo para que a mulher não use a indumentária característica do varão ?

 

1. Em nossa resposta devemos distinguir o aspecto teórico e o aspecto prático da questão.

a) Em si o traje habitual dos homens (calças longas e paletó ou blusa) pode tornar-se veste feminina, sem que por isto os bons costumes sofram detrimento. Não há dúvida, certos vestidos por si mesmos são muito menos convenientes do que a veste masculina trajada por uma donzela.

b) Na prática, porém, a conveniência ou não de que as mulheres usem a indumentária de homem há de ser avaliada à luz de critérios extrínsecos, ou seja, das circunstâncias em que a moda é praticada. Será preciso levar em conta, por conseguinte:

 

aa) a intenção da pessoa que assim se traja. Será intenção pura, visando realmente as finalidades que a indumentária tem em si: proteção do organismo, higiene ? Ou haverá desejo de chamar a atenção, nutrir a vaidade, provocar desordem ?

bb) As reações do ambiente. Tal vestiário, sendo contrário â praxe habitual, não excita paixões ? Não abre via fácil ao pecado ?

 

Ora parece que na vida cotidiana, principalmente em ambientes levianos, certos males morais se prendem à moda dos trajes masculinos: o espírito de exibição e a concupiscência desregrada são por vezes alimentados por essa praxe.

 

Sendo assim, entendem-se os juízos poucos favoráveis que os tutores dos bons costumes têm proferido sobre a nova moda: tais apreciações se baseiam nos efeitos nocivos que praticamente tal indumentária acarreta; não fossem esses maus frutos, a moda tornar-se-ia aceitável (é o que se dá, por exemplo, em regiões da Europa, onde o frio vem a ser um dos fatores preponderantes que levam a mulher a se trajar como o homem).

 

Vistas as circunstâncias da vida no Brasil, dir-se-á que ao menos nas igrejas é de todo indesejável que moças e senhoras compareçam com tal indumentária.

 

2. Há na Sagrada Escritura um, texto (Dt 22,5) habitualmente citado quando se debate o assunto:

“A mulher alguma será licito trajar veste de homem; e homem nenhum se vestirá com traje de mulher, pois quem comete tal coisa se torna abominação diante do Senhor teu Deus.”

Qual o sentido desta proibição?

 

2.1 Há quem diga que tem por fim incutir à criatura humana o respeito pela ordem de coisas e, consequentemente, pela distinção de sexos, que o Criador instituiu (cf. Gên l,12.24s.27). A troca das vestes usuais entre homem e mulher equivaleria a uma violação dos desígnios de Deus. Assim interpretada, a proibição do Deuteronômio teria valor de lei ainda em nossos dias.

2.2 Parece, porém, que outro é o significado dessa passagem. Segundo bons exegetas, ela constitui uma advertência contra práticas de povos pagãos contemporâneos de Israel. Com efeito, na Síria e em Canaã certos cultos politeístas, permitindo o disfarce no vestiário, davam margem a deboches grosseiros. Mais precisamente: o culto de Astarté em Canaã e na Fenícia, incluindo tal prática, teria sido, conforme alguns exegetas, a ocasião imediata da cláusula do Deuteronômio. Sabe-se outrossim pelo poeta romano Macróbio que na ilha de Chipre havia uma estátua de Vênus caracterizada por barba na face, cetro na mão e estatura viril, revestida, porém, como mulher («barbatum corpore, sed veste muliebri, cum sceptro ac statura virili». Saturnal. 1, III, VIII). Diante dessa imagem, considerada como masculina e feminina simultaneamente, varões vestidos como mulheres e as mulheres trajadas como homens se apresentavam para oferecer sacrifícios. Veja-se também Sérvio, In Aen. II 632; Apuleu, Metamorph. VIII 24s.

 

Entendida como reação contra usos pagãos vigentes em época antiga, a norma do Deuteronômio já não teria valor de lei desde que fossem removidos os perigos do paganismo. Contudo pode-se perguntar; embora hoje não haja mais cultos politeístas em nossa sociedade, não existe uma mentalidade pagã capaz de utilizar todo e qualquer pretexto para se entregar ao libertinismo e deboche? Sendo assim, não terá ainda cabimento a advertência do Deuteronômio ?

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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