REVISTA PeR (4401)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 012 – dezembro 1958

 

Bento IX, Papa Menino?

OURIVES (RJ): “É verdade que em 1032 um menino de doze anos foi eleito Papa com o nome de Bento IX ?”

 

1. A figura do Papa Bento IX aparece numa fase da história (séc. XI) em que a vida pública de Roma era dominada pela influência de famílias nobres, moralmente pouco escrupulosas: após a família de João Crescêncio, começou a ganhar prestígio na Cidade Eterna a Casa dos Condes de Tusculum, entre os quais sobressaiam o velho pai Gregório e seu filho Alberico. O principal objetivo visado pelas correntes partidárias era, como se compreende, o Papado: usando de meios ilícitos, procuravam não raro coagir os eleitores do Sumo Pontífice, que eram tanto o clero como o povo de Roma; cada família empenhava-se naturalmente por impor à sé de Pedro o candidato que mais conviesse aos seus interesses particulares. Daí se entende que tenham surgido nessa quadra da história Papas destituídos das qualidades  humanas que neles se poderiam esperar.

 

Em 1032 Alberico de Tusculum conseguiu fazer subir à sé pontifícia, com o nome de Bento IX (1032-1034), um de seus quatro filhos Teofilato, sobrinho de dois Papas anteriores (Bento VIII, 1012-1024, e João XIX, 1024-1032). Na mesma ocasião, Alberico dava o governo temporal de Roma a seu filho mais velho, Gregório, nomeado «Cônsul dos Romanos», assegurando assim o pleno prestígio da sua família na vida pública da Itália Central.

 

Dizem os historiadores imparciais não ser fácil reconstituir o currículo biográfico de Bento IX: embora as fontes da história concordem em lhe atribuir conduta pouco digna, faz-se mister reconhecer tendências arbitrárias nos cronistas desse Papa. Os autores dos anais de Bento IX muitas vezes não são testemunhas oculares nem contemporâneas dos acontecimentos que narram, mostrando-se mesmo influenciados pelas correntes partidárias sua época. Em consequência, as informações comumente transmitidas a respeito de Bento IX têm sido submetidas ao controle de documentos históricos do séc. XI recentemente publicados em edição crítica; à luz desses dados, pode-se melhor discernir o autêntico do espúrio nas narrativas anteriormente divulgadas.

 

Entre outras noticias, refere-se que Bento IX tinha de dez a doze anos de idade ao ser eleito... Esta informação se deve ao historiador Rodolfo Glaber, monge do mosteiro de S. Germano de Auxerre na França (985-1046/47), em cujas obras se leem os seguintes trechos:

 

«Nam et ipse universalis Papa Romanus, nepos scilicet duorum Benedicti atque Ioannis, qui ei praecesserant, puer ferme decennis,... electus exstitit a Romanis. — O próprio pastor universal em Roma, sobrinho do Bento (VIII) e João (XIX)r que o haviam precedido (no pontificado), foi eleito pelos Romanos quando era menino de aproximadamente dez anos» (Histor. IV IX fim).

 

«Fuerat eidem sedi (romanae) ordinatus quidam puer circiter annorum duodecim, contra ius fasque. — Fôra feito para a mesma sé de Roma certo menino de aproximadamente doze anos, contra todo qualquer direito» Hist. V. VV fim).     j

 

A notícia acima tem sido reproduzida pela maioria dos historiadores, embora sejam unânimes em reconhecer que Rodolfo Glaber, como cronista, goza de pouca autoridade.

 

Com efeito. Glaber entrou muito jovem no mosteiro beneditino de Saint-Germain d'Auxerre. De temperamento irrequieto e pouco disciplinado, transferiu-se de uma Abadia para outra; em 1015 passou para o mosteiro de S. Benigno em Dijeon, donde partiu em 1029 para a Itália detendo-se no cenóbio de Susa, sob o Abade Guilherme de Volpiano cuja biografia Glaber escreveu. Em 1030 passou para Cluny na Franca, em 1035 estava de novo em St.-Germain, onde veio  a falecer. — Foi em Cluny (longe, portanto, de Roma) que ele escreveu a sua obra “Historiarum libri quinque”, a qual abrange os acontecimentos do período :de 900 a 1044; o texto é prolixo, confuso, envolvendo imprecisões e contradições; não obstante, não deixa de merecer estima por constituir única fonte para se estudarem certos episódios da história da Itália, da Alemanha e particularmente da França.

Cf. M. Manitius, Geschichte der lateinischen Literatur das MIttelalters II. München 1923, 347-53.

 

2. Em vista do estado das fontes, os críticos mais recentes em estudos serenos, têm levantado objeções contra a notícia de que Bento IX foi eleito aos dez ou doze anos de idade. Observam sim, os seguintes fatos:

 

a) bom número de historiadores dos séc. XI/XII, embora julguem com severidade a conduta de vida do mencionado Pontífice, não fazem alusão à sua pretensa idade infantil. Tais autores são, por exemplo. Desidério de Montecassino, Hermano Contrato, Leão de Óstia. Lucas de Grottaferrata apenas refere qué o novo Papa era jovem (neós oon. Patrologia grega, ed. Migne  CXXVII 484), sem descer a pormenores de idade. Um biógrafo de São Leão IX (+1054) dava a Bento IX o cognome de Parvuluz (= Pequeno), talvez para o distinguir dos outros dois «Teofilatos», seus antenatos existentes na família dos nobres Tusculanos.

 

b) São Pedro Damião (+1072), zeloso propugnador da disciplina eclesiástica, narra que o proceder do novo Papa Bento IX começou a ser censurável logo após a eleição; o que ele descreve, porém (e, em geral, as quedas morais que outros historiadores, com ou sem razão, atribuem a Bento IX), não seria compatível com as condições de um menino de dez ou doze anos ou pouco mais de idade. Além disto, os documentos nos ensinam que o infeliz pontífice, desde o início de seu governo, exerceu as diversas funções inerentes ao cargo, sagrando bispos, presidindo a sínodos, canonizando santos, etc. Estas são tarefas que uma criança ou um adolescente não poderia exercer, e que tampouco se podem atribuir a secretários ou familiares do Pontífice.

 

c) Corroborando esta observação, note-se mais: dificilmente se admitirá que tenham cooperado com um menino de dez ou doze anos revestidos das insígnias pontifícias, como de fato cooperaram em Bento IX, homens reconhecidamente veneráveis, quais foram o chanceler Pedro, o abade Hugo de Farfa, o abade Bartolomeu de Grottaferrata, o arcebispo Lourenço de Amalfi c outros dignos varões; supor-se-ia nestes homens uma falta de escrúpulos ou uma hipocrisia pouco coerentes com sua fama.

 

d) Além disso, o que se sabe sobre a família de Bento IX, não quadra com a pretensa idade de sua eleição: Alberico, o pai do Pontífice, já era juiz em 999 e, sem dúvida, estava casado em 1001; Gregório, irmão de Bento IX, era pai de família em 1030 e já prestara juramento em ato judiciário no ano de 1014; um dos seus sobrinhos é citado como bispo de Labico em 1044.

 

Apoiando-se nestes fatos, os estudiosos modernos, encabeçados por L. Poole (Benedict IX and Gregory VI, em «Proceding of the British Academy» 1917-18, pág. 199-235) e S. Messina (Benedetto IX Pontefice Romano. Catania 1922), concluem que, ao invés de doze anos, Bento IX deve ter sido eleito entre os seus 25 e 30 anos da idade, época em que era membro do clero de Roma." Não há dúvida, porém, de que mesmo esta idade era demasiado juvenil para fazer frente às responsabilidades do Sumo Pontificado, Pontificado que Bento IX não ornou com seu currículo de vida.

 

Tal verificação, porém, não surpreende o cristão: este sabe que a «a força (de Deus) se revela na fraqueza (do homem)» (2 Cor 12,9) e que, por conseguinte, quanto mais saliente é a incapacidade humana nos episódios da história da Igreja, tanto mais ensejo também se tem para entrever e admirar o poder de Deus, que, exercendo-se na Igreja, a esta conservou incólume até o dia de hoje.

 

Em conclusão, aos olhos da crítica objetiva, o episódio do «Menino-Papa» se apresenta destituído de fundamento plausível, merecendo ser colocado entre as ficções da história.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
6 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)