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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS – dez 1962

 

AS VISÕES DE CATARINA EMMERICK

DOGMÁTICA

LATINISTA (Porto Alegre): «Que crédito merecem as visões de Ana-Catarina Emmerick referentes à vida e à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo? Seriam autênticas revelações? »

 

Antes do mais, convém lembrar que entramos aqui no tema das revelações particulares, revelações que não se impõem à fé dos cristãos (não são dogmáticas), quaisquer que sejam as credenciais que as abonem.

 

Para poder responder adequadamente a questão, vamos primeiramente traçar um esboço biográfico de Ana-Catarina Emmerick (assim se deve escrever o nome, e não «Emmerich»); feito isto, procuraremos conceituar as visões a ela atribuídas.

 

1. Esboço biográfico

Ana-Catarina nasceu aos 8 de setembro de 1774 em Flamske, perto do Coesfeld na Vestíália (Alemanha). Era filha de pobres camponeses, que educaram seus nove filhos no amor de Deus e do próximo, incutindo a todos um profundo sentido do dever.

 

Ana-Catarina desde cedo mostrou ter saúde muito débil; entregava-se com prazer à oração solitária, nutrindo especial devoção para com a Paixão do Redentor, devoção muito favorecida pela contemplação de famoso crucifixo medieval de Coesfold.

 

Aos dezesseis anos, sentiu-se chamada à vida religiosa. Mas, em virtude da oposição de seus pais, só realizou seu ideal em 1802, entrando no convento das Agostinianas de Agnetenberg, perto de Dülmen (Baviera). Passou a viver em estrita fidelidade aos seus votos, aplicando-se zelosamente à pobreza e à oração, sempre movida por generoso espírito de expiação dos pecados.

 

Em 1811 o convento foi fechado pelo governo de Jerônimo Bonaparte; Ana-Catarina ofereceu então seus préstimos ao sacerdote João Maria Lambert, com o qual ficou colaborando em Dülmen; morava em casa de uma viúva dessa cidade, onde a partir de fins de 1812 começou a experimentar os fenômenos de estigmatização que haviam de a tornar famosa junto à posteridade. Frequentemente enferma, veio a padecer acidente de graves consequências, que desde março de 1813 a obrigou a um retiro quase contínuo até a morte. Recebia com muita paciência e caridade numerosas visitas, que não podiam deixar de lhe ser penosas: ao passo que algumas pessoas iam pedir-lhe favores e preces, outras, ao contrário, iam observá-la e interrogá-la de maneira cavilosa e hostil. Apesar de seus achaques, a digna Religiosa passou os últimos anos em intensa oração, oferecendo suas dores em reparação dos pecados do mundo: também trabalhava assiduamente pelos pobres, procurando aliviar-lhes as aflições materiais e morais. O desenlace final ocorreu aos 9 de fevereiro no 1821.

 

Após a sua morte, registra-se crescente veneração dos fiéis católicos para com Ana-Catarina Emmerick; pelo que em 1892 se introduziu em Roma o respectivo processo de beatificação.

Importa-nos agora deter a atenção sobre o sou aspecto de

 

2. Alma agraciada

 

Uma série de fenômenos extraordinários, como estigmas, êxtases e visões, narrados a respeito de Ana-Catarina Emmerick, tem chamado a atenção dos estudiosos, suscitando árduas controvérsias no século passado e na primeira metade do século presente: os novos conhecimentos da Medicina, da Psicologia e da Mística foram evocados, ora para insinuar que em Catarina tais fenômenos nada tinham de sobrenatural, mas eram meras reações psicológicas e naturais, ora, ao contrário, para inculcar a origem divina dos estigmas e das visões dessa alma fervorosa.

 

Os estudos levados a efeitos no decorrer desses decênios sugerem hoje com toda a probabilidade a seguinte conclusão: faz-se mister distinguir entre a pessoa de Catarina Emmerick e as revelações que lhe são atribuídas. Aquela merece ser estimada não somente como santa Religiosa, mas, a quanto parece, também como verdadeira alma mística, a quem Deus concedeu graças extraordinárias. Quanto às revelações respectivas, exigem reservas.

Procuremos elucidar e explicitar esta conclusão.

2.A. A pessoa de Ana-Catarina Emmerick.

 

No que se refere à pessoa de Catarina, sabe-se que, desde a juventude, manifestou extraordinária delicadeza para com as realidades sobrenaturais; dir-se-ia que possuía um sentido especial para as perceber.

 

Assim, a grande distância, sabia que se aproximava o SS. Sacramento quando era levado aos enfermos; distinguia de qualquer imitação artificial e fraudulenta as genuínas relíquias dos santos; dado que algum ato mau tivesse sido cometido em determinado lugar, ela não podia ai ficar sem experimentar mal-estar físico; ao contrário, nos lugares consagrados a Deus, experimentava verdadeiros enlevos.

 

Também desde os mais tenros anos de idade, era muito dada a visões: dizia, sim, ter a intuição do Bom Pastor, da SS. Virgem e do seu anjo da guarda, como se lhe fossem personagens familiares. Aos dezoito anos, refere-se que foi agraciada por uma aparição do Senhor Jesus: Este trazia na mão esquerda uma coroa de flores e na direita uma coroa de espinhos, propondo-lhe que escolhesse. Catarina optou pelos espinhos. Desde então multiplicaram-se os êxtases acompanhados de dolorosas provações.

Tais fenômenos repercutiam profundamente no seu organismo.

 

Narram os biógrafos que em 1823 Catarina teve uma visão em que as falhas religiosas dos homens lhe apareciam sob a forma de um campo cheio de urtigas; a vidente fazia então o gesto de quem as quisesse arrancar pela raiz; em consequência, suas mãos ficaram totalmente vermelhas. — Este episódio era uma amostra do que se devia dar mais amiudadamente para o futuro; havia de receber em sua carne as marcas das chagas do Senhor, objeto das suas meditações.

 

Já por ocasião da visão que tivera aos dezoito anos, sentira violenta dor de cabeça, como se a coroa de espinhos lhe tivesse sido imposta, sem deixar, porém, chaga visível. Na solenidade de Natal de 1802 começara a experimentar agudo sofrimento no coração. Aos 28 de agosto de 1812, quando orava em êxtase, um sinal em forma de cruz se delineou do lado esquerdo do seu peito; e essa cruz pôs-se a sangrar habitualmente às quartas-feiras. Aos 25 de dezembro do mesmo ano, outro sinal apareceu por cima de tal cruz. E quatro dias mais tarde, aos 29, Catarina viu o Senhor Jesus crucificado: de suas chagas emanavam raios, que a feriram nas mãos, nos pés e no flanco direito; então também os ferimentos da coroa de espinhos se gravaram visivelmente na sua cabeça. Catarina doravante nada mais comeu, limitando-se apenas a beber água.

 

Informado do que se dava, o bispo de Münster em 1813 mandou proceder a severo inquérito a respeito de tais fenômenos, confiando a direção do mesmo ao seu Vigário Geral, Mons. Clemente Augusto de Droste-Vischering (mais tarde, arcebispo de Colônia); intervieram vários médicos, que isolaram as chagas de Catarina e procuraram tratá-las; fizeram que a estigmatizada mudasse de residência, ficasse sob controle permanente durante dez dias (10-19 de junho de 1813), etc. Terminadas as pesquisas, concluía Mons. Droste-Vischering:

 

“Coube-me indagar uma só coisa: Ana-Catarina estará mistificando ou estará sendo mistificada? O inquérito teve por resultado convencer-me de que... não se pode encontrar impostura alguma. Por conseguinte, nada mais me resta a indagar. Ou os estigmas de Ana-Catarina são fenômeno natural raro, a respeito do qual não me toca proferir um juízo, ou têm causa sobrenatural, que dificilmente poderíamos tornar evidente” (cf. Pourrat, La Spiritualité chrétienne IV. Paris 1930, pág. 521).

 

A sobriedade de termos do presidente do inquérito explica-se pelas circunstâncias da época. Os filósofos de então tendiam a ridicularizar o dogma e o culto católicos: daí decorria a oportunidade de não lhes dar nova matéria para sarcasmos mediante uma declaração mais explícita a propósito da origem divina dos estigmas de Ana-Catarina Emmerick.

 

Mais tarde, o próprio governo alemão instaurou seu inquérito, de 5 a 29 de agosto de 1819, averiguando por sua vez que não havia prova de fraudulência ou mistificação para qualquer dos fenômenos apresentados por Catarina.

 

As sentenças assim proferidas no século passado foram confirmadas por estudiosos dos últimos tempos. Entre estes figura o famoso Pe. Aloísio Mager, professor da Universidade de Salzburgo (Áustria), o qual assim se exprimiu:

 

“Os estigmas de Catarina constituem uma fonte rara para o estudo psicológico-religioso e médico da estigmatização e dos fenômenos análogos... Aí o natural e o sobrenatural se entrelaçam...

O aspecto natural da estigmatização da Religiosa agostiniana não exclui uma intervenção sobrenatural; ao contrário, exige-a como explicação derradeira” (Literarischer Handweiser, col. Kritische Monatschrift 63. Freiburg i./Br. 1926/7, col. 827).

 

Nada desabona tal conclusão: Catarina parece realmente ter sido uma alma efusivamente agraciada por Deus.

Passemos agora à crítica dos escritos respectivos.

 

2.B. Os escritos referentes às visões de Catarina Emmerick.

 

Nove anos após a morte de Catarina, ou seja, em 1833, apareceu na Alemanha um livro intitulado «Das bittere Leiden unsers Herrn Jesu Christi. Nach den Betrachtungen der gottseligen A.K.E., Augustinerin des Klosters Agnetenberg zu Dülmen», isto é, «A dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Conforme as meditações de Ana-Catarina Emmerick, Religiosa agostiniana do convento de Agnetenberg em Dülmen».

 

O autor da obra era Clemente Brentano, poeta alemão da Escola romântica. Nascera em Coblença no ano de 1768; convertera-se à prática do Catolicismo em 1816; em setembro de 1818 fora visitar Ana-Catarina em Dülmen e resolvera ali fixar residência; a partir dessa época, dizia, a Religiosa, solicitada por seu Diretor Espiritual, o Pe. Overberg, lhe contara tudo que se dava com ela, principalmente as visões com que era agraciada, dia por dia. Brentano, a princípio, tinha a intenção de escrever uma biografia da vidente; depois, porém, ponderando a grande importância das visões, decidiu tomar como tarefa providencial de sua vida a divulgação dos relatos de Catarina. Executando esse propósito, dava a lume em 1833 o citado livro.

 

Brentano faleceu em 1840. Doze anos mais tarde, ou seja, em 1852, apareceu outra obra sobre o assunto: iniciada pelo poeta, fôra continuada por seu irmão Cristiano Brentano e sua cunhada. Tratava da Virgem SS. sob o título "Leben der heiligen Jungfrau Maria. Nach den Betrachtungen der gottseligen A. K. E.», isto é, «Vida da Santa Virgem Maria, conforme as meditações da bem-aventurada A.C.E.».

 

Ainda mais tarde, entre 1858 e 1860, um Redentorista, o Pe. Karl Erhard Schmoeger, usando manuscritos de Clemente Brentano, publicou uma vida de Jesus intitulada “Das Leben unsers Herrn und Heilandes Jesu Christi. Nach den Gesichten der gottseligen A.K.E.... aufgeschrieben von Cl. Brentano», isto é, «A vida de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Conforme as visões da bem-aventurada A.C.E anotadas por Cl. Brentano”. — Note-se a diferença no subtítulo: em vez da fórmula «Conforme as meditações» das obras anteriores, lê-se «Conforme as visões».

 

Tal mudança parece contrariar as intenções do próprio Clemente Brentano, que, referindo-se aos seus manuscritos, declarara o seguinte:

«Estas considerações devem ser tidas, na melhor das hipóteses, como meditações de quaresma da piedosa Religiosa, narradas sem arte e simplesmente reproduzidas de acordo com os relatos da mesma Religiosa. São meditações às quais ela jamais quis atribuir outro valor que não valor puramente humano e que ela só comunicou por obediência» (Introdução à «Vida de Nosso Senhor», 2a. p.)

 

Esta observação bem denota a sobriedade com que Catarina e o próprio Clemente Brentano consideravam os relatos concernentes à vida e à Paixão do Senhor: não os queriam apresentar como o resultado de «visões» extraordinárias ou de graças carismáticas concedidas à Religiosa.

 

Por fim, em 1881, o Pe. Schmoeger editou novamente «A Dolorosa Paixão», «A Vida da Sta. Virgem Maria» e «A Vida de Jesus Cristo», retocadas e ainda acrescidas do relato de novas visões (sobre o Antigo Testamento), atribuídas a Ana-Catarina. A obra inteira constava de três volumes intitulados «Das arme Leben und bittere Leiden unser Herrn Jesu Christi und seiner heiligsten Mutter Maria, nebst der Geheimnissen des Alten Bundes, nach den Gesichten der gottseligen A.K.E., aus den Tagebüchern des Cl. Brentano herausgegeben», isto é, «A vida pobre e a dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe Maria, junto aos mistérios da Antiga Aliança, conforme as visões da bem-aventurada A.C.E., publicadas a partir dos livros de apontamentos diários de Clemente Brentano».

 

Esses livros encontraram aceitação extraordinária; sem demora foram traduzidos para diversos idiomas. Contudo, a bem da verdade, três observações decisivas lhes devem ser feitas:

 

1)            Nenhuma dessas obras se deriva diretamente da pena de Ana-Catarina Emmerick; nem sequer foi o seu texto revisto ou examinado pela Religiosa. A primeira só apareceu nove anos após a morte da vidente, ao passo que a última se situa a 57 anos de distância desta. Ora tão graves lacunas exigem reservas da parte do leitor prudente; com razão este poderá perguntar se tais escritos referem com fidelidade o pensamento de Catarina.

 

2)                Várias pessoas que conviviam amigavelmente com Clemente Brentano, declararam que ele havia atribuído a Catarina muitas proposições que não provinham da vidente, mas, sim, da imaginação poética do próprio Clemente. Em outros termos: Brentano não foi um simples transmissor, mas um intérprete, que aumentou e adaptou o que ele ouviu de Catarina.

 

Tenha-se em vista o depoimento de Luísa Honsel, filha de pastor protestante, a qual, uma vez convertida ao Catolicismo, despertou a fé de Cl. Brentano, tornando-se sua sábia conselheira. Escrevia ela em 1859:

 

«Devo aqui recordar o seguinte: Clemente Brentano me repetiu várias vezes que, em sua 'Paixão', publicou vários dados que não provinham dele. Transcrevera muitos traços das obras do Pe. Cochem; assim as visões, em seu conjunto, muito se assemelhavam a essas obras, pois ele quisera publicar uma narrativa contínua, e não fragmentária. Respondi-lhe que julgava fora de propósito fazer que Catarina falasse ininterruptamente [na história da Paixão]; considerava-o mesmo como falta de veracidade. A este propósito Clemente nada pôde responder».

 

Em carta de 11/3/1855 dirigida ao Prof. Schlüter, observava ela:

“A respeito da 'Vida de Maria', pergunta-se se as coisas se deram realmente assim e se a cara C. Emmerick as viu desse modo; talvez eu acredite ainda menos do que vós”.

«Por detrás dos vultos e das visões [da 'Dolorosa Paixão'], aparece o próprio Clemente em carne e osso».

 

Entre as principais fontes utilizadas por Clemente Brentano, foi possível reconhecer, como ficou acima insinuado, os escritos do Pe. Martinho de Cochem (v 1712), capuchinho, autor de uma «Vida de Cristo», ao qual se devem cerca de trinta passagens da «Dolorosa Paixão»; além disto, foram identificados trechos de Brentano que fazem eco aos Evangelhos apócrifos (sequiosos de traços pitorescos, com detrimento para a verdade) ou a comentários bíblicos de Dom Calmet (v 1757) ou ainda a obras judaico-maometanas e, em particular, ao Corão de Maomé.

 

A sadia crítica moderna chega mesmo a asseverar que já não é possível distinguir o genuíno pensamento de Ana Catarina, o de Clemente Brentano e o de outros documentos que este redator envolveu nos seus relatos. Em 1912/13, Schüddekopf editava as obras completas de Clemente Brentano, apresentando os dois primeiros livros das «visões» como obras pessoais deste poeta.

 

Mais ainda. Por ocasião do processo de beatificação de Catarina foi instaurada uma pesquisa sobre a genuinidade das visões atribuídas à Religiosa. Um agostiniano, o Pe. Winfried Huempfner, depois de ter estudado as fontes da obra de Brentano, asseverou que se podiam admitir ai apontamentos rápidos e não sistemáticos, por Brentano colhidos dos lábios de Catarina: ao lado disso, porém, reafirmava que o poeta alemão utilizara largamente a sua imaginação assim como numerosos livros já anteriormente publicados. Em consequência, no ano de 1927, a S. Congregação dos Ritos desistiu de considerar os escritos de Brentano como se fossem expressão do pensamento de Catarina; esta deixou de ser responsabilizada pelo conteúdo das famosas «visões».

 

Um fator aparentemente secundário, mas, na verdade, ponderável, que, aos olhos de alguns críticos, pouco recomenda a obra de Brentano, é a pretensa «missão especial» que ele atribui a Catarina Emmerick e a si mesmo. O poeta alemão julgava, sim, que Catarina recebera de Deus o encargo de transmitir revelações ao mundo e que ele, Brentano, com o epíteto de «Peregrino», devia fazer as vezes de Secretário da vidente. Catarina teria tido a revelação dessas duas missões, conforme os dizeres de Brentano. Ora os contemporâneos de Catarina atestaram que a Religiosa jamais pensou em tal missão.

 

A título de ilustração, vai aqui consignado um tópico importante do prefácio da «Vida de Jesus», em que Brentano atribui a Catarina os seguintes dizeres:

»Acabo do ler uma visão: foi-me revelado que eu já devia ter morrido há muito tempo se a minha mensagem não tivesse que ser publicada pelo Peregrino. É preciso que ele escreva tudo, pois a minha missão consiste precisamente em profetizar, isto é, proclamar as minhas visões. Somente quando o Peregrino tiver posto tudo em ordem e tiver terminado tudo é que ele morrerá».

Ora Brentano, o «Peregrino», morreu, sim, antes de terminar a publicação de tudo que ele atribuía a Catarina Emmerick.

 

3)            As «Meditações» ou «Visões» de Catarina Emmerick contêm traços contraditórios, pueris ou errôneos, entrando por vezes em conflito com o que nos referem documentos fidedignos da vida de Cristo, entre os quais os próprios Evangelhos canônicos.

 

Tenham-se em vista os seguintes tópicos, que por sua minuciosidade, trazem o caráter do imaginário:

 

«Jesus fala muitas vezes de Jacó e de José, assim como do modo como José foi vendido aos Egípcios. Disse Jesus que um dia outro varão havia de ser vendido por um de seus irmãos, ao mesmo preço que José, e que esse outro varão também havia de acolher os seus irmãos arrependidos e os saciaria durante o período de fome com o pão da vida eterna. Então fiquei sabendo que José foi vendido por trinta dinheiros».

 

Conforme as «visões» consignadas por Brentano, os anjos aparecem a Jesus sobre o Tabor no momento da Transfiguração, a Virgem SS. abençoa os Apóstolos antes que partam para as diversas regiões do globo... (traços encontrados na “Vida de Cristo” de Cochem); Jesus conta grande número de parábolas que pouco ou nada de verossímil trazem em si (o que se deve à mente do poeta, amigo dos símbolos e das metáforas).

 

O fato de se reconhecer a inautenticidade das revelações atribuídas a Catarina Emmerick não afeta de modo algum a estima que essa heroica alma merece. Ela não tem culpa dos abusos que hajam sido praticados em torno do seu nome. Ao contrário, a figura de Catarina se esboça mais digna de admiração aos olhos do historiador e dos devotos quando desembaraçada dos pormenores artificiais que lhe são erroneamente atribuídos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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