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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 063 – Março 1963

 

A RENOVAÇÃO CATÓLICA NO SÉC. XVI

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

PENNA (Belo Horizonte): «Hoje em dia, quando tanto se fala de renovação entre os cristãos, pergunta-se: em que consistiu a renovação ou a Reforma empreendida pelo Concílio de Trento (1545-1563)?»

 

Antes do mais, proporemos uma observação referente à expressão «Contrarreforma», com que se costuma designar a obra do Concílio de Trento. Uma vez esclarecido este ponto, procuraremos traçar uma síntese das principais determinações do Concílio, a fim de poder avaliar o significado do mesmo na história do Cristianismo, dando particular atenção às suas consequências para a união de católicos e protestantes.

 

1. «Reforma e Contrarreforma»?

 

1. Costuma-se chamar «Contrarreforma» o movimento desencadeado pelo Concílio de Trento, em oposição à «Reforma» de Lutero e do Protestantismo.

Tais expressões, porém, são inadequadas: dão a crer, sim, que

1)         a obra de Lutero tenha sido verdadeira e autêntica reforma da Igreja... Reforma exigida pela péssima situação moral da Cristandade no séc. XV: depravação de costumes tanto entre os simples fiéis como no alto clero, espírito mundano e político na hierarquia eclesiástica, decadência doutrinária, sutilezas escolásticas nas Universidades haveriam finalmente provocado a ruptura de Lutero com a Igreja Católica em 1517;

2)         a Igreja teria então despertado, tomando consciência do perigo que a ameaçava. As Ordens Religiosas, dizem, começaram a reflorescer. O Papado cedeu à pressão geral e convocou o Concílio de Trento. Este terá empreendido uma «Contrarreforma», que, no parecer de alguns comentadores, veio a ser deturpação ou desvio do Cristianismo primitivo.

 

Por mais que se dê atenção ao que esta interpretação possa ter de verídico, observa-se que a realidade histórica é bem diferente de tal quadro. Os historiadores, não somente católicos, mas também protestantes, mais e mais reconhecem que a renovação católica no séc. XVI não esperou o surto do Protestantismo para se delinear; seus primórdios são anteriores a 1517; resultam logicamente das peripécias da história da Igreja na Idade Média, de modo que, em vez de Contrarreforma, se deve apregoar um Ressurgimento ou um Renascimento da fé e dos costumes do povo cristão no séc. XVI.

 

A título de ilustração, poder-se-ia citar o testemunho do historiador protestante W. Maurenbrecher, que, em 1880, publicou a obra «Geschichte der Ttatholischen Reformation (Eeck, Nõrdlingen) — História da Reforma Católica» (e não «da Contrarreforma»).

 

Não se poderia, porém, negar que uma parte da restauração católica, principalmente a que se prende diretamente ao Concílio de Trento, tenha visado o Protestantismo, procurando refutá-Io. Diremos adiante que certas fórmulas dogmáticas e disciplinares adotadas pelo Sínodo Tridentino foram concebidas em termos apologéticos por causa das afirmações contrárias protestantes. Essas sentenças são tardias na obra de restauração católica, e não constituem o que de melhor nela se encontra; representam posições sujeitas a ser reformuladas, desde que esteja superada a fase de apologética, como veremos mais adiante.

 

Quanto à obra de Lutero e dos protestantes em geral, não pode ser tida como «Reforma» no sentido de «retorno ao mais autêntico e puro Cristianismo» ou de «purificação»; é, antes, uma inovação (para não dizer : ... revolução) dentro do Cristianismo.

 

Com razão, pois, o historiador protestante Preserved Smith, em sua obra «The Age of the Reformation» (New. York 1920) pág. 20s, designa os protestantes como «innovators» (inovadores).

 

2.         É preciso também frisar que, ao falar de «Renovação, Renascimento, Ressurgimento, Reforma no séc. XVI», o fiel católico não quer dizer que a Igreja como tal tenha previamente cedido à corrupção, tornando-se consequentemente sujeita a correções ou retoques. Não; a Igreja é a Esposa de Cristo sem mancha nem ruga; por isto permanece incorruptível e irreformável. Acontece, porém, que os filhos da Igreja (dos quais nenhum se identifica integralmente com Ela) são pecadores; há períodos em que as falhas desses filhos se acumulam de tal modo que dão configuração muito humana à S. Igreja, encobrindo quase por completo a realidade divina que nela vive. É nessas fases que a própria Igreja (por meio de um Concílio ou de um pronunciamento extraordinário da hierarquia) lança o brado de renovação, tirando do seu tesouro de vida o espírito e os elementos oportunos para a restauração.

 

Em suma, o dogma, a moral e a estrutura da Igreja são de instituição divina; por isto, intangíveis aos homens. É o que com muito acerto proclamava o monge e teólogo Gil de Viterbo no V Concílio do Latrão em 1512 : «Os homens é que devem ser transformados pela Religião; não é a Religião que precisa de ser transformada pelos homens». Quando há falhas no povo de Deus, saiba-se que não é a Igreja quem falha ou se omite, mas tenha-se consciência de que são os filhos da Igreja que não estão seguindo os ensinamentos da Esposa de Cristo. É preciso então reformar os costumes dos homens, não, porém, reformar a Igreja ou a Religião.

 

Precisamente neste ponto diferem Catolicismo e Protestantismo: para o Protestantismo, a própria Igreja visível, institucional, é sujeita a reforma, pois ela tanto vale quanto a soma de seus membros humanos; sua santidade é limitada pelas deficiências de seus membros. Em consequência, um crente que se julga «iluminado» pelo Espírito Santo, pode apresentar-se como Reformador da Cristandade e fundador de nova Igreja cristã. Dai a multiplicidade sempre crescente de denominações protestantes.

 

Para o católico, não há Reforma da Igreja, mas há reformas na Igreja, empreendidas pelas legítimas autoridades, às quais o Espírito Santo assiste.

 

3.     Dizíamos que a Restauração Católica do séc. XVI é anterior ao Concílio de Trento (1545-1563) e ao próprio Luteranismo (1517)...

Como anterior?

 

No séc. XVI, deu-se algo de semelhante ao que se havia registrado em séculos precedentes. As reformas ou renovações na Igreja muitas vezes começaram entre os simples fiéis, monges e monjas nos mosteiros e conventos, atingindo paulatinamente os mais altos degraus da hierarquia da Igreja; são movimentos de piedade e purificação fervorosos, vividos primeiramente no silêncio e na humildade, depois transferidos para as assembleias e os debates públicos e, por fim, inseridos nos códigos de leis. — Foi o que se verificou:

 

- no séc. XI, quando os monges de Cluny, restaurando a vida monástica, se tornaram o foco e o esteio da luta da Igreja contra as investi duras e a simonia;

- no séc. XII, quando S. Norberto e S. Bernardo, por suas comunidades religiosas (premonstratenses e cistercienses), provocaram semelhante renovação da vida .eclesiástica;

- no séc. XIII, quando S. Francisco e S. Domingos renovaram o espírito de pobreza e das bem-aventuranças evangélicas na Cristandade.

- nos séc. XV e XVI mais uma vez ocorreu o processo de ressurgimento: atingiu, porém, proporções mais vultuosas do que nos casos anteriores, porque mais se fizera esperar e maiores males se haviam acumulado sobre os cristãos.

 

De fato, o «Exílio de Avinhão» (transferência da sede papal de Roma para Avinhão na França, e consequente intrusão do rei de França no regime temporal da Igreja, de 1305 a 1378) e o Grande Cisma do Ocidente (de 1378 a 1417) despertaram no povo cristão uma intensa sede de renovação. Esta se iniciou em almas místicas... Tenham-se em vista:

 

- os Oratórios do Amor Divino, que, a partir de 1517, agrupavam clérigos e leigos, entregues à oração e à mortificação, cuidando mais de reformar a si do que às instituições da Igreja. Um dos principais oratórios foi o que floresceu em Roma na igreja dos SS. Silvestre e Dorotéia; devem-se mencionar também os de Veneza, Brescia, Verona. Dai saíram fundadores de Ordens Religiosas como S. Caetano de Tiene (+1547), iniciador dos Teatinos, que só queriam viver de esmolas;... reformadores, como João Pedro Carafa, mais tarde Papa Paulo IV; Lippomano, depois Cardeal que chegou a presidir ao Concílio de Trento; Tiago Savoleto, nomeado Cardeal em 1536; João Mateus Giberti, bispo de Verona a partir de 1524;

 

- a Congregação dos Barnabitas, fundada por S. Antônio Maria Zacarias em 1530/1, tendo anexo o ramo feminino das Religiosas Angélicas, fundado em 1535 pela viúva Condessa Luisa Torelli de Guastalla;

 

- a Congregação dos Somascos (1532) e seu fundador S. Jerônimo Emiliano, dedicados à educação dos órfãos. A estes ensinava o santo a seguinte prece: «Bom Pai, Nosso Senhor Jesus Cristo, nós Vos rogamos por vossa infinita misericórdia que de novo coloqueis toda a Cristandade no melhor estado de santidade, que possa agradar à Vossa Divina Majestade!»;

 

- a Congregação dos Hospitalários, fundada em 1540 por S. João de Deus (+1550) e devotada aos doentes;

 

-a Ordem dos Capuchinhos, derivada da Ordem dos Franciscanos em 1525 por obra dos frades Mateus de Baseio e Luís de Fossombrone, os quais aspiravam a mais rígida observância da pobreza e dos ensinamentos de S. Francisco de Assis; a principio, os Capuchinhos levavam vida eremítica;

 

- o novo ramo dos Eremitas Camaldulenses, devido ao bem-aventurado Paulo Giustiniani (+1528);

 

- a Ordem das Ursulinas, fundada em 1535 por S. Angela Merici para prover à formação da juventude feminina.

 

- um dos» mais importantes focos de renovação religiosa foi, sem dúvida, a Companhia de Jesus, concebida o organizada em 1537 por S. Inácio de Loiola, o qual baseou toda a sua obra e a de seus discípulos não num tratado de combate aos hereges, mas num livro de vida interior e prece, que são os «Exercícios Espirituais».

 

- pouco mais tarde, tinha início a reforma dos Carmelitas, que se deve a S. João da Cruz (+1591) e S. Teresa de Ávila (+1582).

 

Poder-se-iam citar ainda muitos nomes de pessoas e entidades religiosas que, desde o início do séc. XVI, se dedicaram marcadamente à piedade e à mística na Itália, na Espanha, na França, na Inglaterra, na Alemanha. Não é necessário, porém, um catálogo completo; basta frisar o seguinte: foram essas almas e famílias religiosas, as quais procuravam unicamente a Deus no silêncio e na humildade, que se tornaram o fermento poderoso para levantar o nível do Catolicismo. A Igreja, portanto, tirou do seu íntimo as forças para reagir contra a frouxidão de costumes e o pecado. Isto bem mostra que a Esposa de Cristo, apesar das vicissitudes de seus filhos, não perde (nem perderá) a genuína vitalidade; por conseguinte, qualquer renovação dentro do Catolicismo faz-se não mediante reforma de estrutura da S. Igreja ou da Religião, mas mediante volta dos cristãos a maior fidelidade à S. Igreja e às suas instituições essenciais.

 

O Concílio de Trento apresenta-se assim como a etapa definitiva do processo de renovação que desde o fim do séc. XV se foi esboçando no seio da Igreja. Foram os santos, mais ainda do que os polemistas e os legisladores, que prepararam e sustentaram as grandes afirmações do Concílio e da Esposa de Cristo no séc. XVI.

 

Consideremos agora as principais declarações do sínodo tridentino concebidas a fim de assegurar a renovação da fé e da vida cristã nos tempos modernos.

 

2. O Concílio de Trento e sua mensagem

 

Nunca algum Concílio promulgou tantos e tão relevantes pronunciamentos como o de Trento. Na catalogação desse material, faz-se mister distinguir entre sentenças dogmáticas e dispositivos disciplinares.

 

A. Pronunciamentos dogmáticos

 

As proposições doutrinárias sofreram de certo modo a influência da controvérsia protestante, pois visaram principalmente remover os erros dos inovadores. Nessa tarefa, os Padres de Trento procederam com sabedoria: se, de um lado, trataram de tomar franca posição perante o Protestantismo, de outro lado abstiveram-se de intervir em questões que poderiam ser discutidas entre escolas teológicas (tomista, escotista, agostiniana...) sem que a verdade revelada sofresse detrimento: destarte as proposições doutrinárias, sem deixar de ser precisas, apresentam-se assaz amplas de modo a satisfazer até hoje às diversas orientações teológicas compatíveis com o dogma católico.

 

Podem-se compreender as declarações dogmáticas de Trento sob três títulos correspondentes aos três principais pontos discutidos pelo Protestantismo:

 

- as fontes da Revelação;

- o valor da fé, das obras e da graça;

- os sacramentos, em particular a S. Eucaristia.

 

a) As fontes da Revelação: os Protestantes apelavam para a Bíblia como única fonte de fé... O Concílio afirmou a existência de verdades diretamente transmitidas por Cristo aos Apóstolos e jamais consignadas por escrito (os Apóstolos e Evangelistas nunca tiveram a intenção de encerrar em seus documentos todo o depósito da Revelação que Cristo comunicou oralmente; escreveram atendendo a necessidades contingentes dos fiéis, não segundo plano pré-meditado). — Tais verdades realmente emanadas de Cristo, mas não redigidas em livros, constituem a Tradição meramente oral. Esta, como se compreende, goza de tanta autoridade quanto a escrita.

 

E quais seriam os porta-vozes da Tradição oral?

 

Embora os conciliares não os tenham enumerado explicitamente, deram a ver que consideravam tais as afirmações dos Padres e doutores da Igreja, os decretos de Concílios aprovados, as declarações pontifícias, o consentimento da Igreja universal...

 

Sem que desçamos a mais pormenores, interessa-nos aqui realçar o espírito que anima tais declarações: em última análise, trata-se de rejeitar todo individualismo e subjetivismo na fé; existem, sim, arautos concretos, visíveis, que nos comunicam a Revelação cristã ; por conseguinte, a ninguém é lícito forjar o Credo apenas de acordo com os seus sentimentos pessoais concebidos através da leitura da Bíblia (os dizeres tão comuns «eu sinto..., eu acho que é assim» estão longe de ser critérios de fé). A própria leitura da Bíblia, para o cristão, há de ser orientada pela comunidade ou pelo testemunho vivo da Igreja guiada pelo Espírito Santo. — Por conseguinte, concepção comunitária da vida e da santificação do cristão, em vez de individualismo: eis uma das posições católicas fortemente inculcadas pelo Concílio de Trento.

 

b) Fé e obras do homem; graça de Seus.

 

Lutero, tendo feito a cruciante experiência da miséria humana, havia desistido de procurar vencer a concupiscência para poder ser justo ou reto diante de Deus. Em sua reforma teológica, para justificar a sua nova posição, afirmava que a concupiscência é realmente invencível; o homem não possui livre arbítrio, mas um servo arbítrio, escravizado pela cobiça ilícita... Não obstante, acrescentava ele, a criatura pode salvar-se desde que tenha a fé no Salvador Jesus Cristo; trata-se de uma fé «fiducial» ou fé-confiança, em consideração da qual Deus Pai imputa ao pecador os méritos de Cristo (como se o revestisse com a capa de Jesus), sem levar em conta os deméritos do crente. A justificação não retocaria o íntimo do cristão; seria declaração meramente jurídica. Nesse quadro não tem cabimento falar de «obras meritórias da vida eterna». — Tais doutrinas eram corroboradas na mente de Lutero por outra proposição do Reformador: admitir méritos da criatura humana seria derrogar aos méritos de Cristo, depreciando a função salvífica do Senhor Jesus.

 

Diante de tais teses, o Concílio de Trento inculcou em termos claros a posição tradicional: a natureza humana foi, sim, viciada pelo pecado de Adão. O Salvador, porém, lhe trouxe o remédio adequado: a graça santificante faz que o homem, no batismo, renasça, isto é, receba uma nova entidade na alma, tornando-se novo ser ou nova criatura no plano ontológico, e não apenas na linha jurídica: «Somos filhos de Deus, não apenas de nome, mas na realidade» (1 Jo 3,1). O livre arbítrio não foi extinto pelo pecado de Adão, mas tão somente debilitado ; em consequência, a graça de Deus confere à liberdade humana um novo vigor; possibilita-lhe viver à altura de sua nova natureza, fazendo que a nova criatura dê frutos de obras boas.

 

Os méritos que o homem, praticando o bem, adquire, em nada diminuem os méritos do Salvador, pois não são granjeados independentemente destes; ao contrário, são dons de Deus, efeitos da obra de Cristo nos membros de seu Corpo Místico, de sorte que o Concílio de Trento quis repetir com S. Agostinho : «Quando Tu, Deus, coroas os méritos dos santos, é aos teus próprios dons que coroas. — Eorum coronando merita, coronas dona tua».

 

Em conclusão: através dessas diversas proposições, interessa de novo sublinhar a mentalidade que as inspira. Elas são ditadas, sim, por genuíno otimismo, que contrasta com o pessimismo de Lutero e do Protestantismo em geral.

 

Distanciando-se do entusiasmo paganizante dos humanistas da época, o Concílio de Trento afirmou, de um lado, a queda da natureza humana e a sua incapacidade de se salvar por si própria (até aqui, também Lutero...); de outro lado, porém, reconheceu as possibilidades que essa mesma natureza humana possui de se reerguer por aplicação dos méritos de Cristo. Ora é precisamente essa visão de bom agouro que dá o cunho decisivo à mensagem cristã...

 

Vê-se assim que a ideia dominante do Catolicismo não é a do pecado e do castigo devido ao pecado, mas a noção grandiosa da Redenção, do triunfo do bem, do amor de Deus, que, derramando Bondade, diz a última palavra da história humana.

 

c) Os Sacramentos: os benefícios da Redenção não foram concedidos ao gênero humano em uma só época dá história, mas, uma vez conquistados pela Cruz de Cristo no limiar, da era cristã, são aplicados a todas as gerações mediante os sacramentos.

 

Lutero e os reformadores admitiam os sacramentos (geralmente dois: o batismo e a ceia) como esteios da fé ou como testemunhos de fé que o cristão dá à comunidade ou à Igreja.

 

A doutrina católica, reafirmada pelo Concílio de Trento, inculca o ponto de vista recíproco: pelos sacramentos, o cristão recebe da Igreja... antes que dá. Recebe, sim, a graça de Deus, condição indispensável para que possa devidamente professar a fé; os sacramentos são canais de santificação que jorram da Cruz de Cristo e atingem cada alma em particular, para renová-la em seu íntimo, o não apenas para excitá-la na fé. — Nesta proposição transparece mais uma vez o valor que Catolicismo atribui à Igreja ou ao Corpo Místico de Cristo; a visão católica de santificação é comunitária, não individualista.

 

Os conciliares insistiram de maneira especial sobre a Eucaristia, asseverando a real presença de Cristo no sacramento e o valor de sacrifício que toca à S. Missa; esta não constitui nova imolação de Cristo, mas é o próprio e único sacrifício do Calvário que, por efeito da Onipotência Divina, se torna presente sobre os altares, para que dele participem os cristãos na qualidade de ofertantes (sacerdotes) com Cristo e vítimas com Cristo (cf. «P.R.» 6/1958, qu. 2 e 3). Igualmente nesta asserção se percebe como o Catolicismo tende a dar valor objetivo à Religião e às instituições religiosas: estas contêm uma realidade independente das experiências que o crente possa fazer. Religião não é apenas questão de «sentir» subjetivamente; quem a pratica com sinceridade, realiza o que há de mais importante na vida do homem (pois entra em contato íntimo com Deus), ainda que isto não lhe acarrete consolação ou compensação sensível alguma.

 

Eis, em síntese, as linhas mestras das afirmações doutrinárias do Concílio de Trento. Assim realçadas, tornaram-se grandemente benfazejas para a Cristandade nos séculos subsequentes.

 

Todavia as declarações dogmáticas teriam ficado no plano da letra abstrata se não houvessem sido acompanhadas por determinações de Índole prática, aptas a fazer o povo cristão viver mais decididamente a sua fé. Por isto compete-nos agora considerar os

 

B. Pronunciamentos disciplinares do Concílio

 

Os Padres conciliares promulgaram uma série de dispositivos que atingiam sucessivamente todos os filhos da Igreja, desde o Sumo Pontífice até o mais simples dos fiéis; a reforma moral devia exercer-se «in capite et in membris», tanto na cabeça visível como nos membros da hierarquia, afirmava-se então frequentemente.

 

No tocante ao Sumo Pontífice, as declarações se mantiveram assaz sóbrias. Lembraram, de um lado, a autoridade do Papa, asseverando que «nada de novo na Igreja pode ser decidido sem que tenha sido previamente consultado» (sess. XXV) e proclamando-o «Pastor universal, que tem plenos poderes para reger a Igreja universal». Doutro lado, incutiram a responsabilidade desse Supremo Pastor: «Jesus Cristo lhe pedirá contas do sangue das ovelhas que os maus... pastores (bispos subalternos) tiverem derramado».

 

Aos bispos o Concílio dedicou doze sessões. Acentuou repetidamente o seu dever de residirem nas próprias dioceses em meio às ovelhas, em vez de se entregarem alhures a funções estranhas; doravante os bispos não se poderiam ausentar do respectivo bispado por mais de três meses, e nunca durante o Advento e a Quaresma. É claro que ficaria vedado a um pastor acumular duas ou mais dioceses.

 

Residindo nos seus bispados, deveriam os bispos entregar-se com zelo às tarefas ministeriais, visitando assiduamente as paróquias, pregando a palavra de Deus nos domingos e dias festivos, eximindo-se dos vínculos da família e de interesses temporais, só conferindo as ordens sacras a candidatos idôneos...

 

Quanto aos sacerdotes, o Concílio também lhes traçou nobre programa: os párocos haveriam de viver em suas paróquias, junto à grei, e com toda a modéstia e dedicação. Abster-se-iam do matrimônio (conforme o costume já múltiplas vezes sancionado por sínodos anteriores) ; explicariam aos fiéis a Escritura Sagrada, os sacramentos, a Liturgia. — A fim de possibilitar ao clero o frutuoso desempenho de tais incumbências, o Concílio instituía os Seminários (=sementeiras de vida nova) ou Institutos especializados para a formação sacerdotal; em tais casas, candidatos pobres , e ricos haveriam de ser admitidos, merecendo especial apreço as vocações de pobres. Cada diocese deveria ter, se possível, o seu Seminário.

 

Os monges e Religiosos também foram considerados: a legislação tridentina baixou normas precisas sobre a idade e as condições de admissão na vida regular, a organização material das casas religiosas, a clausura, a eleição dos superiores, os confessores, etc. Sábias medidas para prover ao florescimento da vida claustral!

 

Foi igualmente levado em conta o culto divino. Os padres conciliares houveram por bem conservar o latim como língua da Liturgia, já que os hereges se queriam servir dos textos sagrados em vernáculo para disseminar erros doutrinários; também determinaram que se continuasse a dizer o Cânon ou a parte central da S. Missa em voz baixa, prescreveram de novo que os fiéis comparecessem a esse ato todos os domingos e dias de guarda.

 

O Iaicato católico não foi menos contemplado: sobressaem neste setor as leis sobre o matrimônio e os princípios para a redação de um Catecismo destinado à formação dos fiéis mais simples.

 

O Concílio quis tratar, em termos explícitos, da «reforma dos príncipes», pois estes, em virtude da sua elevada posição, exerciam notória influência sobre o povo cristão. Quarenta e dois capítulos foram elaborados neste sentido, provocando naturalmente demonstrações por parte de embaixadores e monarcas; a situação chegou a ficar tensa; finalmente foram promulgados decretos que proibiam aos príncipes intervir em questões estritamente eclesiásticas, obrigavam os soberanos a cumprir nos seus territórios a legislação conciliar e lhes lembravam o respeito devido aos bens e aos direitos da S. Igreja.

 

Por fim, os Padres trataram de assegurar a execução fiel das medidas adotadas, instituindo para isto a chamada «Congregação do Concílio», até hoje existente, com a missão de prover a aplicação e a interpretação das leis tridentinas.

 

As determinações disciplinares emanadas de Trento representavam certamente as melhores intenções que os homens poderiam conceber em meio às incertezas e falhas do séc. XVI. Contudo a legislação por si só não bastava para garantir a necessária renovação cristã; também teria ficado «letra morta» se a Providência não tivesse, nos tempos subsequentes, suscitado venerável série de santos em todos os graus da hierarquia (desde o Papado até o mais desconhecido dos enclausurados ou dos seculares leigos). Esses homens de Deus, pelos recursos sobrenaturais da oração e da virtude, vieram a ser os baluartes da restauração católica que, iniciada na primeira metade do séc. XVI, foi dando os seus frutos no decorrer da Idade Moderna da Igreja.

 

Dentre esses grandes vultos, seja aqui citado apenas o do primeiro Papa eleito após o Concílio de Trento: São Pio V (1566-1572), homem de grande cultura e santidade. Logo no consistório que se seguiu à sua eleição, comunicou aos Cardeais as linhas inspiradoras do seu programa: «Só conseguiremos deter os avanços da heresia, se agirmos sobre o coração de Deus. É a nós, luz do mundo e sal da terra, que toca esclarecer os espíritos e fortalecer os ânimos pelo exemplo de nossa santidade e de nossas virtudes».

 

Estas palavras não hão de ser interpretadas no sentido de farisaísmo autossuficiente, mas, sim, como expressão da consciência que o cristão possui — e que ele jamais pode deixar de possuir — de ser portador de Cristo para o mundo; por conseguinte,... de ser cumpridor de uma missão que não é sua, mas do Senhor, e que, por isto mesmo, não pode conhecer pessimismo nem derrota.

É nos termos acima descritos que se fala de um ressurgimento ou de uma autêntica Reforma da vida cristã no séc. XVI.

 

Dom Estevão Bettencourt (OSB)


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