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Artigo

CADA UM MORRE COMO VIVEU?

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 064 – abril 1963

CIÊNCIA E RELIGIÃO

«JOVEM ANCIÃO» (Porto Alegre): “Pode-se dizer que o estado de alma de alguém influi sobre o gênero e a hora de sua morte ?”

 

Em resposta, proporemos breve observação sobre a índole psicossomática das doenças, observação que nos servirá de base para abordar devidamente o assunto acima.

 

1. Doença: mal da alma e do corpo

 

Até o início do século presente era comum considerar-se toda doença como avaria de determinado órgão ou tecido do corpo. Contudo, a partir dos estudos de psicanálise, mais e mais se verifica que na raiz de muitas doenças há uma perturbação que não é corpórea, somática, e que se chama «psíquica» (isto é, dependente da «psyché» ou da alma espiritual do homem).

 

Pode haver, em verdade, nas funções vitais de um indivíduo deficiências e desordens que não provenham de lesão de algum órgão (o exame anatômico então nada acusa). Mesmo nesses casos o respectivo paciente sofre, e afirma que sofre. Não se lhe replicará que nada tem, nem se desprezará a sua situação, mas procurar-se-á a raiz do "seu mal no setor psíquico (no domínio dos afetos, das emoções e da fantasia...). Em nossos dias não se assevera mais que tais doenças são meramente imaginárias, mas os médicos vão ao encalço dos fatores psíquicos (fatores emocionais) e dos conflitos que possam estar causando tal incômodo.

 

Registram-se certas paralisias das pernas, dos braços ou dos músculos que não acusam em absoluto lesão orgânica; dependem exclusivamente do psíquico ou do estado nervoso do indivíduo. Diz-se que são perturbações «psicossomáticas» (isto é, oriundas no psíquico, muitas vezes em conflitos de alma, lutas de consciência, e manifestadas no corpo ou no plano somático). N. b.: «Psyché» = alma ; «soma» = corpo, em grego.

A propósito veja P.R. 32/1960, qu. 1.

 

Eis o famoso caso que se tornou ponto de partida da psicanálise: em 1895, Freud, em colaboração com Breuer, tratou de uma doente que, entre outras coisas, sofria de paralisia de um braço. — Ora os dois médicos chegaram à conclusão de que essa paralisia tinha causa afetiva: a doente fôra, sim, obrigada a tratar de seu pai durante grave moléstia; um dia, porém, adormeceu, sentada numa cadeira, com a cabeça apoiada no braço que pousava sobre o encosto da cadeira. Ao acordar, sentiu comichão no braço; esqueceu-a, contudo, sem demora. Mais tarde, via-se vitima de doença nervosa, desencadeada por fatores diversos; isto bastou para que viesse a sofrer do braço, experimentando paralisia; esta deficiência, aparentemente inexplicável, era a expressão do seu sentimento de culpa (culpa por ter adormecido enquanto montava guarda a seu pai enfermo).

 

“Allen Stoller afirmou recentemente que ao menos 50% dos doentes que vão pedir conselho, auxílio e alívio ao médico, não apresentam sinal orgânico capaz de explicar as suas perturbações. Dale Groom indica a mesma porcentagem. Outros autores referem. cotas ainda mais elevadas. Não obstante, tais perturbações devem ter suas causas” (Erich Stern, Les conflits de la vie, causes de maladie. Paris 1955, 14s).

 

«Dentre 422 pessoas que nos últimos tempos se apresentaram à consulta em um centro de Cancerologia, oito apenas estavam afetadas de câncer. Entre esses pacientes, porém, manifestou-se uma porcentagem de angustiados muito superior à que se poderia esperar.

Certas pessoas angustiadas, não podendo mais suportar a sua tensão mental, resolvem seus conflitos 'transferindo' a tensão... ou focalizando-a como doença física» (Josette Iyon, L'Angoisse mal du siècle. Paris 1957, 4a. capa).

 

A medicina moderna, baseada nessas concepções, afirma haver doença todas as vezes que a conservação do organismo está ameaçada (por lesão ou por infecção) ou ainda todas as vezes que um órgão não está mais à altura de desempenhar a sua função ou a capacidade de trabalho do indivíduo está diminuída ou a coragem normal perante as lutas da vida está abalada ou a impressão de tédio domina a pessoa ou as relações do indivíduo com o próximo estão perturbadas de modo que não seja capaz de se adaptar às normas da vida social.

 

Não há dúvida, todos os homens, mesmo os mais normais e sadios, experimentam suas dificuldades (aborrecimentos e lutas) na vida; são ocasiões de desgastes, enfraquecimento ou lesão do organismo; contudo somente parte da humanidade cai doente... e os que caem doentes, caem muitas vezes em circunstâncias imprevistas. Decepções e derrotas não faltam a quem quer que seja; todavia não são elas que desempenham o papel fundamental na doença; muito mais importante é o modo como o sujeito a elas reage. Se trata-se de pessoa psiquicamente amadurecida, sabe resolver satisfatoriamente as dificuldades; caso, porém, se trate de indivíduo imaturo, sucumbirá na luta, manifestando perturbações psicossomáticas.

 

Estas observações já nos habilitam a considerar a questão abaixo.

 

2. Estado de alma e circunstâncias da morte

 

2.1. Vista a estreita correlação existente entre equilíbrio psíquico e saúde do corpo, compreende-se que perturbações psíquicas (de alma) e conflitos de consciência muito possam influir nas circunstâncias em que alguém morre.

 

Naturalmente, têm pleno valor as normas e os conselhos dos médicos referentes à higiene e à conservação da saúde física. Graças às conquistas da medicina e da cirurgia, tem-se podido aumentar notoriamente o índice da longevidade nos tempos modernos.

 

Diz-se que, entre o séc. IX e o séc. XIV da era cristã, a duração média da vida humana era de 31 anos. Diminuiu a seguir, para aumentar finalmente no decorrer do séc. XVII. Nos séculos XIX e XX, o índice de longevidade tem subido em ritmo continuo e proporções importantes, beneficiando-se dos recursos da ciência moderna. Atualmente parece oscilar entre os 70 e 80 anos; julga-se que poderá atingir, os 150 anos. Nos Estados Unidos da América as estatísticas revelam que um americano entre 250 mil ultrapassa os cem anos de idade.

 

Contudo observam os estudiosos que um dos melhores fatores de conservação da vida é a paz de alma ou a ausência de conflitos (o que quer dizer em última análise: uma consciência que esteja em harmonia com as regras da moralidade e com a Lei de Deus). Regimes dietéticos e medicamentos muitas vezes para nada servem neste setor; podem ser subterfúgios aos quais o paciente recorre para satisfazer a uma paixão ou a uma tendência desregrada.

 

Em testemunho disto, seja citado o caso dos antigos ascetas do deserto e dos membros de comunidades religiosas atuais que, vivendo um regime de vida pobre e austero, se tornam, não obstante, notoriamente longevos; não são os cuidados de medicina ou da prudência humana que lhes conservam a vida, mas antes a ordem ou a paz de consciência dentro de um horário de vida sóbria e regrada.

 

Obrecht realizou um inquérito junto a cidadãos suíços que tinham atingido os cem anos de idade; em consequência, mostrou-se impressionado pela mentalidade que animava tais pessoas: «Em cada conversa, encontrava-me eu sob o encanto dessa serenidade inabalável, da modéstia, da gratidão, da humildade e da resignação diante de uma Providência cheia de bondade. Essa atitude é um tanto humilhante para o observador». Dos seus estudos concluía Obrecht que, para chegar a idade adiantada, é necessário em primeiro lugar possuir «essas felizes disposições do espírito» (cf. E. Stern, ob. cit. pág. 268).

 

2.2. Destas observações deduziremos duas importantes conclusões:

 

a)     Um gênero de vida moralmente desregrado ou entregue às paixões muitas vezes se traduz em perturbações do corpo, envelhecimento precoce e mesmo em aceleração da morte do indivíduo.

Da citada obra de E. Stern (pág. 268s) extraímos a seguinte passagem de Metalnikov:

 

«Conhecemos numerosos casos de pessoas afetadas por doenças graves (tuberculose, sífilis) que viveram anos a fio, chegando a idade adiantada, porque souberam viver com certa sabedoria. Doutro lado, vimos pessoas que morriam no pleno vigor dos anos porque haviam cegamente dilapidado as suas forças. Um homem que possui firmeza de vontade, deve saber dominar as paixões; assim a força do espírito o preserva dos perigos que o ameaçam através do corpo; tal firmeza de vontade assegura-lhe outrossim certa juventude de espírito, que persiste mesmo em provecta idade da vida.

Conhecemos não poucas pessoas que chegaram a idade avançada, guardando a sua juventude de espírito e o seu frescor até o último instante. Não há dúvida, a firmeza da vontade e o método psicológico de rejuvenescimento... explicam que até o fim da vida tenham ficado jovens».

 

O regime de vida ociosa, comodamente poupada, em vez de ser fator de longevidade, pode muitas vezes redundar em detrimento da vitalidade e em precipitação do desenlace final. De fato, o trabalho, desde que seja regrado e sistemático, concorre para desenvolver as energias do corpo e proporcionar nobreza e alegria ao espírito. Por conseguinte, se o trabalho vem a faltar, o indivíduo não pode deixar de ressentir a lacuna assim acarretada em sua existência; sabe-se que muitas pessoas começam a envelhecer rapidamente quando, após ter levado vida ativa, se veem afastadas, de seus afazeres, sendo assim preservadas de certos esforços e lutas. Se, de um lado, o trabalho acarreta fadigas, de outro lado ele proporciona regra de vida, ritmo e equilíbrio físico psíquico, podendo destarte tornar-se fator de longevidade.

 

A doutrina cristã confirma plenamente a verificação acima. Com efeito, diz um adágio cristão: «A ociosidade é inimiga da alma»; ao que se pode acrescentar: «... e também do corpo».

 

b)     A pessoa que tenha perdido o gosto de viver, é mais rapidamente acometida pela morte do que o paciente que estima a vida e luta contra a morte.

 

Há, sem dúvida, pessoas doentes que absolutamente não têm o desejo de viver e, por isto, nada fazem para debelar a moléstia; «deixam-se morrer»... Muitos desses indivíduos assim se comportam porque sofrem de um conflito interior ou de um drama moral ao qual (talvez de maneira inconsciente) desejariam escapar mediante a morte; a sua cura depende, então, não tanto de remédios como da solução do respectivo problema íntimo.

 

Os autores costumam relatar casos que ilustram estas afirmações. Transcrevemos aqui os que Erich Stern (ob. cit.) refere, casos observados pelo próprio médico relator:

 

«Tratava-se de um doente de cinquenta anos de idade, afetado de tuberculose no pulmão direito, com grande caverna pulmonar. O pulmão esquerdo estava em boas condições. Fôra submetido a um tratamento de drenagem endocavitária, que não dera resultado... e em consequência do qual muito sofria. Sempre tivera temperamento difícil e estranho; em toda parte se sentira infeliz, mesmo em suas relações sociais e, em particular, no seu ambiente de família. Doutro lado, era muito vaidoso e procurava sempre desempenhar papel importante, papel que não era compatível com a sua doença e com a sua situação. A tuberculose fibrosa nele se estabilizara, permitindo-lhe sair, jogar cartas, etc.; rejeitava, porém, a ideia de adotar uma atividade qualquer que fosse acomodada ao seu estado de saúde (como seria para desejar)... A vida lhe inspirava tédio, e ele não parecia ver possibilidade de jamais deixar o estabelecimento no qual se tratava, e de sair da situação em que se encontrava.

 

Em consequência de uma gripe, a moléstia evoluiu nos lobos superiores e inferiores direitos — o que, a princípio, não apresentou caráter alarmante, de mais a mais que o lado esquerdo ficava intato Teve febre durante algumas semanas, após as quais a temperatura retrocedeu. Contudo, desde o primeiro dia de febre afirmou que seu caso era desesperado. Começou então a fazer todos os preparativos para morrer, inclusive o seu testamento; escreveu cartas de despedida e exigiu que lhe mandassem vir os filhos. As suas atitudes se ressentiam todas de exibicionismo e teatralidade. Os acompanhantes procuraram acalmá-lo, assegurando-lhe que não estava em perigo de vida; recusaram mesmo a chamar os filhos; ele, porém, não queria crer nos médicos. Começou a emagrecer, deixou de se alimentar; quando o procuravam animar, alegava estar perto da morte. Algumas semanas mais tarde, apresentou sinais de deficiência cardíaca; seu estado geral agravou-se visivelmente. Então julgaram os médicos que a situação era alarmante e mandaram avisar os filhos. No dia em que foi despachado o respectivo telegrama, o estado de saúde do paciente era tão grave que se aguardava o desenlace de um momento para outro. Sofria de dispneia, parecia sufocar-se, as pulsações eram irregulares...; dificilmente podia falar. Todos os tratamentos foram vãos. Ele mesmo sentia que ia morrendo, e observava: 'Eis o que se chama agonia'. Naquela época, as comunicações eram muito difíceis, de modo que as filhas do paciente só poderiam chegar dentro de três ou quatro dias, e o filho somente após quatro ou cinco dias. Não obstante, ele queria ainda ver os herdeiros, aos quais estava muito afeiçoado. Depois de ter sobrevivido às vinte e quatro horas dentro das quais se esperava o desenlace a qualquer momento, o coração melhorou, a cianose regrediu; o enfermo começou a respirar mais facilmente, as dores cardíacas cessaram, o pulso tornou-se regular; o doente pediu alimento. Por fim, chegaram as filhas e, dois dias mais tarde, o filho do enfermo. Conversou com eles; a seguir, seu estado de saúde voltou a agravar-se e três dias depois ele veio a falecer.»

 

Prossegue o Dr. Stern:

«Na mesma época, observamos outro doente, que chegou ao sanatório em condições assaz graves, mas que não se encontrava em imediato perigo de vida. Todavia falava constantemente da morte... Pediu que chamassem para junto de si a esposa e os filhos. Sofria de tuberculose pulmonar fibrosa, a qual se complicou com uma tuberculose intestinal, de tal modo que o enfermo muito dificilmente se alimentava. Não tinha resistência física, nem coragem, nem esperança nem desejo de viver. Queria morrer e exigia que precipitassem o seu desenlace. Na verdade, ele só morreu cinco meses mais tarde.

 

Não há dúvida, tratava-se de doente gravemente afetado, mas o desejo de morrer era um dos fatores que mais influíam no caso; jamais esse doente lutou contra a moléstia... Certamente pudera viver mais tempo se tivesse tido mais vontade de viver» (ob. cit. pág. 275s).

 

Merece especial atenção o desejo de suicídio, que acompanha certas doenças mentais e, em particular, os estados de melancolia. Verdade é que muitas vezes o paciente apenas ameaça suicídio, sem ter a coragem de o empreender. Contudo não se devem desprezar tais ameaças; pode acontecer que o enfermo faça realmente uma tentativa de suicídio, e a faça em circunstâncias tais que não seja possível socorrê-lo, embora no seu subconsciente a vítima não desejasse propriamente a morte e contasse com o socorro dos respectivos acompanhantes.

 

Haja vista o caso de uma doente que abriu o interruptor de gás justamente no momento em que o marido transpôs o limiar da residência. Ele costumava entrar diretamente em casa; naquele dia, porém, encontrou um amigo na escada e deteve-se a conversar com ele durante certo tempo; quando finalmente chegou ao apartamento, já era tarde demais; o suicídio da esposa estava consumado (caso referido por E. Stern, ob. cit. 276).

 

Pode acontecer que um suicídio, em aparência relacionado com um fato imediato de pouca importância, se deva a antigo conflito de alma. Com o decorrer do tempo, o paciente julga que o conflito é insolúvel; desespera, colocando-se num estado de alma tal que uma causa em si mesma insignificante já é suficiente para desencadear consequências extremas.

 

Stern (pág. 276s) cita a propósito o caso de uma jovem não casada que, com a idade de 28 anos, ingeriu forte dose de gardenal.

Qual a razão imediata disto?

 

Fôra abandonada por um amigo que ela conhecia havia algum tempo e com o qual esperava contrair matrimônio.

Este infortúnio, porém, não explicaria por si só o gesto desatinado.

Investigando de mais perto o episódio, os peritos averiguaram que a jovem ao mesmo tempo sofria dolorosas decepções no setor profissional; via-se assim diante de um impasse.

Mais ainda: verificaram que desde os primeiros anos de juventude tal pessoa experimentara grandes dificuldades na vida.

 

Com efeito. Quando era pequena, contraíra uma poliomielite, que a deixara paralitica da perna esquerda; embora houvesse conseguido melhorar, não podia caminhar normalmente. — Em consequência, a paciente se julgava inferior aos irmãos e aos demais jovens, concebendo inveja para com todos. Acometida de acentuada agressividade, frequentemente entrava em conflito com os respectivos familiares; aliás, estes eram pouco unidos entre si, o que desde cedo muito a impressionara. Aos vinte anos de idade, a jovem julgava estar em piores condições do que as companheiras, no setor sentimental. Procurou então uma satisfação compensadora no domínio da arte; tentou também atrair a si um ou outro rapaz; ora, justamente quando os seus esforços lhe pareciam coroados de êxito, sofreu dura decepção por parte do amigo. Este golpe, sobrevindo aos demais, bastou para que a vida já lhe parecesse intolerável; resolveu então apelar para o suicídio.

 

Os episódios e as observações acima levam a ver, em primeira linha, como o envelhecimento e o desenlace de alguém podem ser profundamente influenciados por fatores psíquicos; o otimismo, o desejo de viver e de permanecer jovem desempenham, juntamente com outros elementos, uma ação de grande importância neste setor.

 

Ulteriormente, porém, dever-se-á dizer: o otimismo frente à vida, a alegria de viver e a paz de alma, em última análise, dependem da fidelidade a Deus. É impossível (ao menos nos casos normais) conseguir-se a paz de alma sem se dar atenção ao problema religioso. Deus é o primeiro Valor, e Valor que se apresenta naturalmente a cada criatura humana, de tal modo que não se pode conceber equilíbrio psíquico sem que a pessoa tome explicitamente a posição que lhe convém perante Deus. Sufocar o problema religioso ou fugir dele são táticas que jamais podem pacificar alguém; ao contrário, só concorrem para iludir e, eventualmente, provocar conflitos íntimos. Feliz o cristão que vive com a consciência pura e reta diante de Deus, sem resistir à vontade do Senhor ! Para tal sujeito, os contratempos da vida perdem grande parte da sua importância; ele terá a força para os vencer, mesmo quando sucumbirem os seus companheiros alheios a Deus.

 

3. Podem-se oportunamente ainda fazer as seguintes advertências referentes ao estado de alma e às circunstâncias da morte de alguém:

 

a)     Os últimos minutos, as últimas horas e até os últimos dias de um moribundo podem parecer extremamente dolorosos a quem os observa. Julga-se, porém, que, na maioria dos casos, não são tão penosos para o paciente quanto parecem; os gemidos, a agitação, a perda de forças dos agonizantes impressionam terrivelmente os acompanhantes, mas não são sinais de tamanha dor nos agonizantes. — E por que ? — Porque, antes da morte, a consciência psicológica ou a lucidez de alma é atenuada ou mesmo suspensa. Poucas são as pessoas que guardam plena consciência de si até os últimos instantes da vida.

 

Não poucos autores têm tentado provar que geralmente os moribundos se extinguem sem dores nem sofrimentos extraordinários.

 

Ao contrário, a fase de vida que precede a agonia é que parece especialmente aflitiva; e isto,... porque o enfermo vive então antecipadamente a agonia e a morte, concebendo temor e angústia, que ele bem poderia dispensar.

 

Para mitigar ou mesmo evitar tal angústia, é de grande valor uma consciência cristã plenamente entregue à santíssima vontade de Deus O cristão não tem motivo para temer a morte, porque sabe que «aos fiéis de Deus a vida não é tirada, mas apenas mudada» (prefácio da Missa dos defuntos).

 

b)     Já se tem dito que certas pessoas, justamente antes da morte, adquirem maior lucidez de espírito.

Pode-se admitir isso. Há doentes que, pouco antes de morrer, parecem ver desfilar ante os olhos toda a sua vida passada. É de crer que nessa ocasião Deus lhes dê a graça de fazer um ato de arrependimento profundo pelos males cometidos: esse ato talvez não chegue a se exprimir em palavras, mas será válido perante o Senhor.

 

Há outros enfermos, porém, que nas proximidades do desenlace se tornam mais e mais insensíveis; não mostram emoção nem mesmo diante dos mais caros familiares e amigos. É difícil dizer o que então se dá em seu íntimo.

 

c)      Certos indivíduos preveem ou pressentem o falecimento próximo. Isto nada tem de surpreendente, pois a morte é muitas vezes precedida de transformações orgânicas; estas podem repercutir na consciência do sujeito, de modo a despertar, principalmente em pessoas particularmente sensíveis, a previsão do desenlace.

 

Narram-se também casos de comunicação do moribundo com pessoas situadas a grande distância (o moribundo comunica seu desenlace ou alguma outra mensagem); são fenômenos de telepatia, de percepção extrassensorial que a ciência moderna reconhece como fenômenos naturais; não significam que a alma do moribundo saia antecipadamente do corpo e «voe» para se entreter com este ou aquele indivíduo, mas apenas que entre pessoas separadas por grande distância pode haver contato,... contato que se estabelece independentemente dos sentidos, mediante faculdades próprias, cujo procedimento até certo ponto já pode ser descrito, mas ainda não está plenamente estudado. Nas proximidades da morte, estando o psiquismo da pessoa particularmente afetado, pode-se admitir que as faculdades de expressão e de apreensão se exerçam com mais agudez.

 

d) Por vezes verifica-se inesperada melhora de saúde imediatamente antes da morte...

Que significa isso?

 

— Os médicos reconhecem que certas funções vitais, antes de se extinguir por completo, desenvolvem transitoriamente uma atividade mais intensa. Observe-se outrossim que, em certos casos, a melhora consiste em aparente cicatrização de chagas muito antigas; então, o que se dá, é apenas a diminuição dos processos de secreção e inflamação, que são manifestações vitais e que se vão enfraquecendo, de modo a diminuir o vulto das chagas...

 

Estas noções parecem, cada qual do seu modo, sugerir, em síntese, que a verdadeira vida do homem se configura na sua consciência ou no seu estado de alma, o que finalmente quer dizer: ... na atitude que cada indivíduo toma perante Deus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (O.S.B.)


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