REFLEXõES (674)'
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Artigo

O Cristo e a Cruz

 

Grégori Lopes Siqueira

 

O crucifixo é um símbolo de veneração que tem como finalidade, além de identificar que se é um cristão, lembrar que Cristo morreu para salvar a humanidade e que venceu a morte ressuscitando no terceiro dia. Mas, o que me chama a atenção é na recente ‘evolução’ em que o Cristo e a cruz têm passado.

 

Por muito tempo se representou o evento salvífico de Jesus com o Cristo agonizando pregado numa cruz, mas a partir da reforma protestante alguns grupos passaram a representar somente com a cruz, sem o Cristo. Mais recente começou-se a colocar Cristo ressuscitado na cruz, talvez para tentar unir as duas representações anteriores; e ultimamente temos visto nas igrejas a omissão da cruz, ficando apenas o Cristo ressuscitado. Então me pergunto: qual destas imagens melhor representariam a mensagem de salvação de Cristo por nós?

 

Antes de analisar e tentar responder, diria que qualquer uma das quatro representações são incompletas em si, pois não conseguem abarcar em um mesmo ícone o evento da morte e ressurreição. Logo, é necessário fazer uma opção: ou se acentua na morte, como na primeira, ou na ressurreição, como na segunda e quarta. A terceira diria que é uma tentativa de unir morte e ressurreição, mas a mensagem que fica mais acentuada é a ressurreição.

 

Passemos, então, a analisar cada umas das quatro representações. Primeiro, a imagem de Cristo agonizando na cruz retrata o que Nosso Senhor realizou por nós, pois se está lembrando que Ele morreu no nosso lugar e que agora se deve buscar morrer por Ele também. É claro que este entendimento somente tem sentido porque se crê que ele venceu a morte pela ressurreição. Daí a lembrança de que por maior que seja o sofrimento que se está passando, este também passará, enquanto se aguarda a vitória da ressurreição, a volta da alegria, na esperança da vida plena e feliz.

 

Segundo, a imagem adotada pelos protestantes de representar somente a cruz sem o Cristo, está fundamentada na acentuação na vitória de Cristo sobre a morte, pois lembra que Cristo não está mais preso na cruz, Ele ressuscitou. Porém, parece-me que tende a esquecer o evento do sofrimento de Cristo e, como consequência, pode ser visto como uma incapacidade de entender que a vida humana para atingir a realização que todos os seres buscam, a felicidade, passa pela cruz e pelo sofrimento.

 

Terceiro, a imagem do Cristo ressuscitado na cruz é uma tentativa de unir as duas representações anteriores, mas mesmo assim não escapa da incapacidade de retratar a mensagem completa do evento salvífico de Jesus. Ora, olhar para Cristo ressuscitado sobre uma Cruz pode significar que ele ressuscitou e venceu a morte, mas o que está em primeiro plano é o ressuscitado e pode ser interpretado como um acento demasiado na vida que vence o sofrimento, sendo que basta olhar ao lado ou para dentro de si que se vê que estamos rodeados e imbuídos de sofrimentos. Penso que o mais importante não é negar o sofrimento, mas ver no sofrimento a passagem para a ressurreição.

 

Quarto, a imagem do Cristo ressuscitado sem a Cruz é o acento, como nunca, do evento da ressurreição e praticamente esquecendo o anterior sofrimento passado na cruz e na morte. Ora, esta última representação parece-me imbuída de um conteúdo muito atual: o sentimento, pois vivemos num tempo em que o que importa é sentir-se bem, ter prazer, colecionar momentos de intenso gozo e felicidade, e isto pode ser a mensagem contida por detrás de uma representação de um Cristo ressuscitado sem sua Cruz. Ademais, tende a deixar uma ideia de que não importa o que se faça, Cristo lhe salvará; curta a vida o quanto possa, pois o Cristo alegre se alegra contigo; e, assim, se esquece de que a vida é feita também de cruz, renúncia e sofrimento.

 

Aqui deveríamos pensar qual foi o evento determinante que Cristo realmente nos salvou: foi a sua morte ou sua ressurreição? A princípio, parece que o mais certo é dizer que foi os dois, pois da morte se chegou à ressurreição e a ressurreição só aconteceu porque antes houve a morte. Para sair de tal impasse, penso que podemos olhar a nossa vida.

 

O que é mais determinante em nós: os sofrimentos que passamos cada dia ou a grande alegria final que virá depois desta vida na eternidade? Claro que aqui, novamente, um evento precisa do outro; mas como ainda não estamos na vida eterna, temos que nos virar com a vida que aqui levamos que, embora tenha muitos momentos realmente felizes, é marcada pela cruz e sofrimento. Por isso, concluo que a melhor representação ainda é a de Cristo pregado agonizando na cruz, pois nos lembra das nossas lutas de cada dia na esperança da vitória final.

 


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