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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 555/Setembro 2008

Livros em Destaque

O que nem todos sabem:

 

"O RENO SE LANÇA NO TIBRE: O CONCÍLIO DESCONHECIDO"

por Ralph Wiltgen

 

Em síntese: O autor é sacerdote e jornalista, que acompanhou mi­nuciosamente os debates do Concílio do Vaticano II; concluindo que, nas conclusões do mesmo, prevaleceu a corrente de países banhados pelo rio Reno; corrente progressista. Daí o título da obra. O autor não faz polêmi­ca, mas pretende relatar imparcialmente os fatos.

*   *   *

Acerca do livro em foco proporemos três abordagens:

 

1. O Autor

Ralph Wiltgen (1921-2007) foi um sacerdote americano da Congre­gação do Verbo Divino, jornalista poliglota, que interessou-se pelo fluxo de propostas, às vezes contraditórias, levadas aos bispos durante o Con­cílio Ecumênico Vaticano II. Estando em Roma, acompanhando o Concí­lio na condição de jornalista, conseguiu informações com exclusividade que ele oferece ao público no livro em foco publicado em inglês e outros idiomas já há vários anos, só agora, porém, saindo em tradução portu­guesa.

"Tive ocasião de entrar em contato direto com os padres concilia­res. Eles não demoraram em descobrir a imparcialidade de meus noticiá­rios, o que me permitiu obter informações de primeira mão tanto por parte dos conservadores, como dos liberais. De fato as correntes minoritárias procuraram muitas vezes entrar em contato comigo e me forneceram in­formações com exclusividade" (p. 9).

 

2. O conteúdo do livro

O autor acompanha passo a passo as quatro sessões do Concílio propondo um tecido dos debates e acontecimentos que não parece deixar lacunas nem omissões. Parece imparcial, mas os seus relatos dão a con­cluir que os bispos dos países banhados pelo rio Reno prevaleceram. Esta tese é formulada metaforicamente pelo autor em seu Prefácio:

"Cem anos antes do nascimento de Cristo, Juvenal, em uma de suas sátiras escrevia que o Oronto, principal rio da Síria, havia lançado suas águas no Tibre. Com isto queria dizer que a cultura síria que ele des­prezava havia conseguido penetrar na cultura de sua bem amada Roma.

O que ocorreu no plano cultural nos tempos de Juvenal, ocorreu no plano teológico em nossos dias. Desta vez a influência vai das nações ribeirinhas do Reno: Alemanha, Áustria, Suíça, França, Países-Baixos e a vizinha Bélgica. Foi porque os cardeais, bispos e teólogos desses seis países conseguiram exercer uma influência predominante sobre o Concí­lio Vaticano II que intitulei meu livro: "O Reno se lança no Tibre".

O autor não faz polêmica; parece bastante imparcial nos seus re­gistros de modo que pode ser tido como informativo fiel.

Todavia o título da obra é infeliz. Dá a impressão de que grupos humanos se encontraram para debater certos temas e, finalmente, os mais hábeis, a "Aliança Européia", prevaleceram, sem que se leve em conta o elemento sobrenatural, que também atuou: o Espírito Santo e os seus carismas. Que o Reno se lance no Tibre é desastroso e mortífero para muitas populações; todavia não se diga o mesmo no tocante ao Con­cílio da Igreja. Esta foi beneficiada, apesar das improvisadas interpreta­ções de seus filhos, que abusaram dos textos conciliares para fazer de­sastres. O Concílio Vaticano II merece todo o respeito dos fiéis católicos e não pode ser responsabilizado pelos incidentes que ocorreram em gru­pos obcecadamente progressistas.

O fato de a Editora Permanência [1] publicar tal livro bem evidencia que ele é utilizado para combater a autoridade do Concílio. O leitor pode­rá utilizar as informações oferecidas pela obra em foco, mas deverá pre­caver-se contra qualquer tendência dissidente. A adesão à Igreja implica adesão ao Concílio.

À guisa de ilustração, publicamos, a seguir, uma página em que o autor avalia os custos do Vaticano II e apresenta dados estatísticos.

 

APÊNDICE

 

"No total, a Santa Sé gastou com o Concílio e seu período prepara­tório a soma de US$ 7.250.000. Considerando que 2.860 Padres Concili­ares assistiram, ao todo ou em parte, às quatro sessões que duraram 281 dias, a média das despesas atingiu US$ 2.530 por Padre conciliar, ou seja, US$ 9 por dia. Esta soma não inclui as despesas feitas pelos própri­os Padres Conciliares: 67% dentre eles pagou as próprias despesas de transporte, e 53% as despesas de estada. Do total pago pela Santa Sé, 33% se destinaram a despesas de estada, 30% a despesas de transporte, 9% com equipamentos para a aula conciliar, 8% para o organizador, o escritório de imprensa, despesas com impressão e instalações telefônicas e 20% para despesas diversas.

A doença, a velhice ou as restrições impostas pelos governos im­pediram 274 padres de comparecer. Entre a data de abertura e a do en­cerramento, morreram 253 Padres Conciliares e outros 296 passaram a participar. Dos 98 cardeais presentes, 11 morreram antes do encerramento; o único que não esteve presente foi o Cardeal Mindszenty. A média de idade dos Padres Conciliares era de 60 anos. Dois terços pertenciam ao clero secular, e um terço ao clero regular.

O Secretariado Geral, que Paulo VI citou como exemplo para aper­feiçoamento dos serviços da Cúria, utilizou as técnicas mais modernas, visando deixar para a posteridade um registro completo de tudo quanto ocorrera no Concílio nos domínios da teologia, da administração e da or­ganização. Duzentos volumes infolio contêm a lista alfabética dos Pa­dres Conciliares, indicando como cada um deles votou nos 544 escrutíni­os. Os arquivos completos foram fotocopiados várias vezes, de modo a poderem ser consultados em diferentes lugares. Mas talvez seja preciso aguardar uma geração ou mais para que tais arquivos sejam abertos ao público.

Além de todos os documentos cuidadosamente classificados, os arquivos abrangem a gravação completa de todas as 168 Congregações Gerais, ou seja, 712 fitas de 396 metros cada, representando um total de 542 horas. A transcrição de tais registros e a tradução de todos os docu­mentos conciliares em 14 línguas - tarefa enorme - foi supervisionada por Mons. Governatori, arquivista do Concílio.

Em 3 de janeiro de 1966, por Carta Apostólica, o Sumo Pontífice constituiu cinco comissões pós-conciliares; esta medida inicialmente lhe havia sido sugerida pela Aliança Mundial e pela Aliança Européia, temero­sas de que as decisões progressistas tomadas pelo Concílio fossem blo­queadas pelas forças conservadores próximas ao Papa, já que os Padres Conciliares voltariam para suas casas. As novas comissões pós-concilia­res - comissão dos religiosos, das missões, da educação cristã, do apostolado dos leigos, dos bispos e do governo das dioceses - tinham por incumbência preparar "Instruções" que indicariam, de modo concreto, como dar prosseguimento aos documentos conciliares. Estes órgãos não tinham autoridade legislativa alguma, mas apenas o poder de interpretar; e na redação de suas "Instruções" deviam aderir estritamente ao teor dos documentos solenemente aprovados e promulgados. Após a publicação das regras, as comissões pós-conciliares seriam dissolvidas automatica­mente (pp. 289s).



[1] Editora Permanência, Estrada Matapaca 333, térreo. Niterói (RJ) CEP 24320-520.

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