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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 525 – março 2006

Uma Biografia:

 

"JOÃO PAULO II"

por Bernard Lecomte

 

Bernard Lecomte é jornalista especializado no Leste Europeu. Foi Redator-chefe de Le Figaro Magazine e fez a cobertura de várias viagens de João Paulo II.

B. Lecomte publicou uma biografia de João Paulo II ([1]), que cobre os anos desse homem de Deus até a celebração do 25° ano de seu pontificado. Na qualidade de jornalista refere com muita vivacidade as múltiplas peripécias dessa vida singular, proporcionando ao leitor momentos muito ricos de informação e história geral. É de lamentar apenas que não se estenda até o desenlace do curriculum vitae. Esta carência, porém, não diminui o valor das páginas anteriores.

O que importa especialmente, é o juízo que Lecomte profere sobre o seu biografado. Compartilha o modo de pensar de outros historiadores e cronistas segundo os quais o Papa João Paulo II foi muito aberto e atualizado em matéria social e política, mas fechado e estagnado em questões de Fé e Moral. Seria este o grande contraste característico da figura de tal Papa.

Tal apreciação - assaz disseminada - merece uma reflexão.

Em matéria sócio-econômico-política o Papa devia acompanhar a evolução dos acontecimentos e encarar as novas situações com olhar cristão, apontando os ditames da Doutrina Social da Igreja para cada caso: democracia de esquerda, totalitarismo, sindicatos, trabalho da mulher fora do lar... Esta abordagem foi feita criteriosamente pelo falecido Papa.

Em matéria de Fé e de Moral, porém, os critérios para julgar são estritamente sobrenaturais ou derivados da Palavra de Deus, que o crente aceita e o não crente não aceita. Disto se segue que não é possível dizer Sim a todas as modalidades da filosofia contemporânea ou do comportamento da sociedade atual. Com outras palavras: nenhum Papa jamais poderá aprovar o divórcio, as uniões homossexuais, a clonagem humana, a manipulação de embriões, o aborto..., pois tais práticas ferem a lei de Deus..., lei de Deus que é expressa não somente pelo Evangelho, mas também pelos preceitos da chamada "lei natural". A Moral católica segue estritamente a lei que o Criador infunde no íntimo de cada ser humano e que é anterior a qualquer lei formulada pelos homens. A lei natural foi explicitada pela própria ONU em 1948 por ocasião da Declaração dos Direitos Humanos, que as leis dos regimes totalitários haviam espezinhado... O descaso da lei natural - que condena o homicídio, o adultério, o roubo, a manipulação da vida humana... - dá origem ao conflito entre modernas formas de comportamento e a Palavra de Deus. Ora ao Papa toca proclamar tais critérios, que não somente o Evangelho propõe, mas o bom senso de todo homem deve e pode reconhecer.

Em conseqüência não se diga que João Paulo II foi fechado ou retrógrado em matéria de Fé e de Moral, mas afirme-se que ele foi fiel à sua missão, arcando com os incômodos que a fidelidade muitas vezes impõe a quem a observa. Essa fidelidade é outro título de benemerência do falecido Pontífice assim como é um serviço prestado à humanidade empolgada pela conquista do saber e do prazer em nossos dias.

B. Lecomte formula bem a problemática no seguinte trecho da sua Conclusão (pp. 664s):

"Mais impressionante ainda, João Paulo II terá sido antes de mais nada um homem de fé, apaixonado pela razão, amante da reflexão intelectual e da escrita. Quantos de seus colaboradores não se espantaram por vê-lo mergulhado na oração durante várias horas por dia? Acontece que esse homem acima das circunstâncias foi também, quando elas o exigiram, um autêntico estrategista político que se mobilizou, às vezes até as entranhas, contra o comunismo, contra o aborto, contra a "cultura da morte", contra uma certa modernidade, contra o relativismo ético. Este pontífice contemplativo terá sido também um papa lutador.

No plano político, temos frisado reiteradamente neste livro que João Paulo II era com certeza um conservador - mas que todo papa é depositário de uma tradição duas vezes milenar e não pode dispor dela em função das modas. Suas posições sobre a família e sobre a moral sexual, sobre o papel da mulher na Igreja, sobre a liturgia e a disciplina eclesial muitas vezes o levaram a ser considerado reacionário. Mas este mesmo papa também terá sido um progressista audacioso, e mesmo provocador, que não hesitou em convocar a seu redor todas as religiões do mundo, a condenar firmemente os desmandos do capitalismo e os desvios do liberalismo, a rejeitar sem rodeios a herança anti-semita de seus antecessores, a pedir perdão pelos erros e os crimes da Igreja (2) de outros tempos. Este papa ao mesmo tempo de esquerda e de direita, no sentido político dessa classificação, terá sido, no que diz respeito à Igreja, um continuador e um inovador, assumindo a dupla herança de seus antecessores imediatos: João XXIII pela audácia, Paulo VI pela sabedoria. Foi para manifestar sua admiração por esses dois homens que lideraram sucessivamente o Concílio Vaticano II que Karol Wojtyla, marcado por sua própria experiência conciliar, escolheu João Paulo como nome. Como se quisesse assumir antecipadamente a principal contradição da função: fazer com que a Igreja avançasse ao ritmo do mundo, sem alterar a Revelação que é seu fundamento".

 

2 É de notar que o Papa não pediu perdão pelos pecados da Igreja mas pelos pecados dos filhos da Igreja. Ver PR 452/2000, p. 2 (Nota da Redação de PR).

 

Dom Estêvão Bettencourt

 



[1] João Paulo II. - Ed. Record, Rio de Janeiro 2005, Tradução de Clóvis Marques, 792 PP-


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