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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 347 – abril 1991

"Os Tempos São Maus..."

 

Num de seus sermões, S, Agostinho referia-se a um chavão do linguajar de sua gente: "Os tempos são maus e ingratos! Outrora eram melhores!" Os cristãos o diziam no século V, apavorados pelas invasões dos bárbaros, que ameaçavam Roma e o Norte da África, onde Agostinho vivia. O mestre lhes -respondia: "Os tempos somos nós! Nós é que fazemos os tempos!"

 

E, aludindo explicitamente à cidade de Roma periclitante sob os golpes dos godos em 410, exclamava: "Roma não são pedras e muralhas. Estas foram construídas de tal modo que um dia, cedo ou tarde, haveriam de desmoronar. . . Roma são os romanos. . . Roma não perecerá se os romanos não perecerem!" (Sermão 81,9).

 

Em ambos os casos, o S. Doutor quer dizer que o homem tem uma grandeza interior mais pujante do que o desenrolar dos tempos e o curso das pedras; o homem é chamado pelo Criador a fazer a história, e não se deve julgar condenado a capitular porque os tempos são ingratos ou certos valores materiais se perdem. O homem é que dá aos tempos os adjetivos que lhes queira dar.

 

O mesmo Santo ainda dizia: "Semeia o bem, e colherás o bem. Não esperes que os outros comecem. Toma a iniciativa, faze a tua parte, e verás que o bem brotará em torno de ti". Este programa já fora insinuado pelo Apóstolo ("Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem!", Rm 12,21) e ressoaria nas palavras de São João da Cruz (+1591): "Onde não há amor, põe amor e colherás amor".

 

De certo modo, o homem contemporâneo pode "consolar-se" por verificar que a queixa referente à ingratidão dos tempos já data do século V. Pode-se crer que seja tão antiga quanto o gênero humano.

 

O Cristianismo veio projetar nova luz sobre o problema. Os tempos não são regidos pelo mecanicismo dos acontecimentos apenas, mas estão sob o domínio do Cristo Jesus, Rei dos séculos. Precisamente na vigília de Páscoa, quando em meio às trevas da noite se acende o Círio Pascal, exclama a Liturgia:

 

"Cristo ontem e hoje,Princípio e Fim, Alfa e Ômega. A Ele o tempo e a eternidade, a glória e o poder pelos séculos sem fim! Amém".

 

O cristão é portador da força vitoriosa de Cristo. Isto não significa que esteja isento de sofrer, mas, sim, que o próprio sofrimento traz em si o seu antídoto, pois foi transformado pelo Cristo em penhor de glória eterna. Não há, pois, como capitular, para o cristão; não há também por que repetir o chavão "Os tempos são maus"; antes, a inclemência dos tempos há de ser ocasião para que o cristão se lembre de que lhe toca uma grande tarefa a realizar com têmpera forte: "Sede bons, e os tempos serão bons!".

 

Dom Estêvão Bettencourt


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